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terça-feira, fevereiro 07, 2006

sublinhado (15)

"- Os textos, de certo modo, existem antes que sejam escritos. Vivemos imersos em textos virtuais. Minha vida inteira concentra-se em torno de um ato: buscar, sabendo ou não o quê. Assemelham-se um pouco às de um desmemoriado minhas relações com o mundo. Caço, hoje, um texto e estou convencido de que todo o segredo da minha passagem no mundo liga-se a isto. O texto que devo encontrar (onde está impresso ou se me cabe escrevê-lo, não sei) assemelha-se ao nome de uma cidade: seu alcance ultrapassa-o - como um nome de cidade -, significando, na sua concisão, um ser real e seu evoluir, e as vias que nele se cruzam, sendo ainda capaz de permanecer quando tal ser e seus caminhos estejam sepultados." (pág. 65)
Avalovara (Companhia das Letras), Osman Lins

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

sublinhado (14)

Ninguém sabe ao verto em que ponto do mundo os ventos são gerados, quem os dá à luz ou à escuridão, quem é a mãe dos ventos e por quem foi criada. Os começos jazem na sombra. (pág.39)
Avalovara (Companhia das Letras), Osman Lins

sexta-feira, janeiro 27, 2006

sublinhado (13)

"Não viverei sequer mil anos, minha vida é rápida, risco no tempo, tal como um peixe salta um dia acima da vastidão do mar e vê o sol e um arquipélago onde se movem cabras entre as rochas, assim eu salto da eternidade, como todos, eis-me no ar, vejo o mundo dos homens, logo voltarei aos abismos marinhos. Este breve salto, esta aspiração ao ato de voar é tudo o que me foi concedido para ir da grafita ao grafito, para consumar o que os espongiários, em meio milhão de anos, nem sequer esboçam, limitando-se a passar, continuamente, de um sexo a outro, de um sexo a outro. Vens?" (pág. 31)
Avalovara (Companhia das Letras), Osman Lins

quinta-feira, janeiro 26, 2006

sublinhado (12)

"Mas o preço deste encantamento descontínuo é a extrema dispersão da personalidade e a fragmentação do tempo. Onde achar a unidade do Eu, quando este funde como neve ao sol? Como salvar estes instantes ameaçados de se afundarem para sempre no nada? A esta dupla questão, Proust e Virginia Woolf começaram por dar a mesma resposta. Acontece encontrar-se nesta corrente descontínua «um pouco de tempo em estado puro». O relógio pára, o tempo suspende o seu voo. Na solidão, o ser começa a viver, o seu desejo de existir no instante é finalmente alcançado. (...)
(...) Todavia diferentemente das «impressões felizes» de Proust, dos «momentos de iluminação» de Eliot, estes «momentos de ser», em Virginia Woolf, sólidos, transparentes, não são criadores. Inscrevem-se entre os demais, sem resgate. São «pequenos milagres quotidianos, revelações, fósforos inopinadamente riscados no escuro», mas nunca a grande revelação dramática de Marcel no momento de entrar no salão dos Guermantes, quando vê enfim diante de si o futuro onde se vai inscrever a sua obra. Para a busca proustiana há uma solução, e perante o tempo, uma orientação nova e brusca que decide das relações do personagem com a sua vida tal como a vivera, com a morte que está ali à sua frente. Nada de semelhante em Virginia Woolf. A gota de tempo, por um instante suspensa, cai de novo no telhado da nossa alma. Uma experiência cumpriu-se, uma nova etapa passou. Cada um volta a partir com a pequena sacudidela que se dá a um relógio de pulso parado (...)" (págs. 77 - 79)
Virginia Woolf (Relógio D'Água), Monique Nathan

terça-feira, janeiro 24, 2006

sublinhado (11)

"Giles e Isa Olivier, Clarissa e Richard Dalloway, Mr e Mrs. Ramsay, nenhum dos três casais alcança a união total. Exceptuado o amor físico que não passa da satisfação do instinto de procriação, não pode haver amor feliz. Desemparelhados, solitários, o homem e a mulher perseguem isoladamente o seu sonho sem se reunirem de outro modo que não apenas entre os actos, e defrontando-se para sempre um ao outro. Longe de quebrar a solidão fundamental do ser, o casamento torna a do outro maior. É uma falsa saída, uma porta enganadora para a liberdade, e o mistério continua total: «Ali está um quarto, acolá outro», ali a mulher com as suas necessidades, os seus desejos, e acolá o homem, não inimigos, mas estranhos semelhantes a dois círculos que nunca podem coincidir por completo. Seja o que for o amor, nunca se chegará a formar um único ser indivisível e imenso, nunca há senão dois indivíduos, pequenos e separados." (pág. 54)
Virginia Woolf (Relógio d'Água), Monique Nathan
Será?

sublinhado (10)

"Ela é, como T. S. Eliot, sensível ao espectáculo da rua, à poesia das cidades, da Cidade - e Londres está sempre presente nela para lá da sua inospitalidade aparente. Basta ao transeunte ocioso seguir o passo de Clarissa Dalloway, quando sai de casa para comprar flores, para se orientar no West End, como se tivesse nascido lá. Hora a hora, Virginia desenrola o seu fio de Ariana através do dédalo das ruas e avenidas, tal como Leopold Bloom ao longo de Dublin (...)" (pág. 25)
Virginia Woolf (Relógio d'Água), Monique Nathan

segunda-feira, janeiro 23, 2006

sublinhado (9)

"- as minhas mãos envolviam-me o rosto e eu chorava e soluçava tudo o que havia para chorar e soluçar. Não sei quanto tempo estive assim, mas, enquanto as lágrimas jorravam de dentro de mim, eu sentia-me feliz e sabia que nunca me tinha sentido tão feliz por estar vivo. Era uma felicidade inconcolável, uma felicidade para além do infortúnio, para além de toda a fealdade e beleza do mundo. Por fim, as lágrimas abrandaram, e eu fui até ao quarto mudar de roupa. Dez minutos depois, estava de novo na rua, a caminho do hospital para ir ver Grace." (pág. 201)
A Noite do Oráculo (Asa), Paul Auster

quinta-feira, janeiro 19, 2006

sublinhado (8)

"«Pois é. Mas pelo menos vais ser publicado em Portugal. Alguma coisa a opor?»
«Não, nada. Pessoa é um dos meus escritores preferidos. Deitaram abaixo Salazar e agora têm um governo decente. O terramoto de Lisboa inspirou Voltaire a escrever Candide. E Portugal ajudou milhares de Judeus a fugirem da Europa durante a guerra. É um país bestial. Eu nunca lá estive, é claro, mas, queira ou não queira, é lá que eu vivo agora. Não, Portugal é perfeito. Do jeito que as coisas se têm passado nos últimos dias, só podia ser Portugal.»" (pág. 132)
A Noite do Oráculo (Asa), Paul Auster
peço desculpa, mas este tenho que comentar:
parêntesis 1: "... e agora têm um governo decente." (vai sendo democrático, dentro dos possíveis...) ???
parêntesis 2: "E Portugal ajudou milhares de Judeus a fugirem da Europa durante a guerra." (o Blaufuks iria gostar de ler isto... alguns passaram, e a quantidade astronómica de vistos recusados pelo governo português da altura? Podem ver a cara de alguns dos rejeitados aqui.)
parêntesis 3: "É um país bestial. Eu nunca lá estive..." (eu diria é um país simpático, bestial é demasiado... que nunca cá esteve nota-se!)
parêntesis 4: Será que todos os estrangeiros têm uma opinião tão lisonjeira de Portugal? Humm...

terça-feira, janeiro 17, 2006

sublinhado (7)

"Abril de 1945. A minha unidade estava na Alemanha, fomos nós que libertámos Dachau. Trinta mil esqueletos que ainda respiravam. Você viu as fotos, mas as fotos não nos dizem como é que era aquilo. Um tipo tem de lá estar e de cheirar aquilo com o seu próprio nariz, tem de lá estar e tocar naquilo com as suas próprias mãos. Seres humanos fizeram aquilo a outros seres humanos, e fizeram-no de um modo perfeitamente consciente. Esse foi o fim da humanidade, Sr. Bons Sapatos. Deus desviou os seus olhos de nós e abandonou o mundo para todo o sempre. E eu estava lá para testemunhar aquilo." (págs. 80 e 81)
A Noite do Oráculo (Asa), Paul Auster

segunda-feira, janeiro 16, 2006

sublinhado (6)

"Thoreau dizia que tinha três cadeiras na sua casa, observa Ed. Uma para a solidão, duas para a amizade, três para a sociedade. Eu só tenho a cadeira da solidão. Se incluirmos a cama, pode ser que fiquemos com duas para a amizade. Mas sociedade é coisa que ñão há aqui. Já tive sociedade que chegue depois de tantos anos ao volante do táxi." (pág. 65)
A Noite do Oráculo (Asa), Paul Auster

sexta-feira, janeiro 13, 2006

sublinhado (5)

"Só ao fim de um bocado consegue reconstituir a sequência de eventos e, quando o faz e se levanta, tem já a clara noção de que, naquele momento, deveria estar morto. Aquela pedra estava destinado a matá-lo. A única razão por que saíra naquela noite era aquela pedra, era o encontro com aquela pedra e a morte, e, se conseguiu escapar com vida, então isso só pode significar que lhe foi dada uma nova vida - que a sua velha vida acabou, que todos os momentos do seu passado pertencem agora a outra pessoa."(pág. 27)
A Noite do Oráculo (Asa), Paul Auster

quinta-feira, janeiro 12, 2006

sublinhado (4)

“O mundo é governado pelo acaso. O aleatório ronda a presa que nós somos, todos os dias das nossas vidas, e essas vidas podem ser-nos roubadas a qualquer momento – por razão rigorosamente nenhuma.” (pág. 17)
A Noite do Oráculo (Asa), Paul Auster

sublinhado (3)

"- Não há um Paraíso?
- Isso é o Paraíso.
- Mas então e o reino da glória? E as sandálias de ouro?
- Abandonamos a consciência como se acordássemos de um pesadelo. Deitamo-la fora como uma peça de roupa que nunca nos serviu muito bem. É uma libertação extática. Não podemos apreendê-la enquanto tivermos um corpo. O orgasmo é o que mais se aproxima, mas é grosseiro e insignificante em comparação." (pag. 380)
Dias Exemplares (Gradiva), Michael Cunningham

quarta-feira, janeiro 11, 2006

sublinhado (2)

"A voz com que falo neste momento, aquilo que conheces como a minha voz, e, por extensão, a minha personalidade, digamos assim, são programadas. Cadência, vocabulário, modulação, gíria, tudo concebido por Emory Lowell, para me fazer parecer mais humano. Além, claro está, destes ataques involuntários de poesia. Mas aquilo que eu tenho dentro da cabeça é diferente. Ouço-me falar - estou a ouvir-me neste preciso instante - e parece-me estranho. Não coincide com o que ouço na minha cabeça. Os impulsos são meus, a decisão de dizer uma ou outra coisa é minha, mas a expressão está para lá do meu controlo." (pág.340)
Dias Exemplares (Gradiva), Michael Cunningham

terça-feira, janeiro 10, 2006

sublinhado (1)

"Sonhou com um rapaz a olhar para um homem que olhava pela janela a escuridão onde o rapaz se erguia. Sonhou com um comboio que voava sobre um campo dourado, em direcção a um destino indiscritivelmente fabuloso." (pág. 301)
Dias Exemplares (Gradiva), Michael Cunningham