quarta-feira, janeiro 18, 2006

The Ballad of a grey city night (2)


"The ballad of a grey city night, ex.2" »» v. LEAL BARROS

terça-feira, janeiro 17, 2006

sublinhado (7)

"Abril de 1945. A minha unidade estava na Alemanha, fomos nós que libertámos Dachau. Trinta mil esqueletos que ainda respiravam. Você viu as fotos, mas as fotos não nos dizem como é que era aquilo. Um tipo tem de lá estar e de cheirar aquilo com o seu próprio nariz, tem de lá estar e tocar naquilo com as suas próprias mãos. Seres humanos fizeram aquilo a outros seres humanos, e fizeram-no de um modo perfeitamente consciente. Esse foi o fim da humanidade, Sr. Bons Sapatos. Deus desviou os seus olhos de nós e abandonou o mundo para todo o sempre. E eu estava lá para testemunhar aquilo." (págs. 80 e 81)
A Noite do Oráculo (Asa), Paul Auster

ora então, já que a música pouco se ouve, o CD é este:


"Au Bordel - Souvenirs de Paris" »» Noel AKCHOTÉ

Elle faisait du Strip-Tease (a outra versão)

segunda-feira, janeiro 16, 2006

keep your distance (ponto final)


"Keep your distance" »» Nadav Kander
Os temas explorados na fotografia pelo israelita Nadav Kander parecem não ter fim. O artista/fotógrafo cobre um espectro tão vasto da actividade fotográfica (desde a moda e espectáculo, passando pela publicidade, até ao trabalho artístico mais introspectivo, no qual combina a fotografia com outras formas de expressão plástica), que muitas vezes torna-se difícil encontrar um fio condutor capaz de unir imagens cujas géneses são, à partida, completamente distintas.
Apesar da amplitude e versatilidade do trabalho de Kander, há uma característica transversal a toda a sua obra que me delicia particularmente – a procura de uma beleza “crua”, se assim lhe posso chamar, austera, desadornada, muitas vezes violenta e cruel, mas sempre bela, proporcionada e irreversivelmente real.
Quando olhamos as suas imagens, a primeira sensação é quase sempre de desconforto, apesar das composições extremamente cuidadas e equilibradas, de contornos quase clássicos. Talvez o impacto violento do primeiro olhar seja produto da forma como Kander trabalha a luz e a cor. O fotógrafo não hesita em flashar violentamente os seus modelos roubando-lhes a pigmentação da pele, e, como se isso não fosse suficiente para gelar o observador, prostra-os ainda contra muros brancos ou azuis, intensamente luminosos, de texturas toscas e ásperas.
Todo o trabalho de retrato, assim como a série de nu feminino realizada em 1998 com prostitutas da América latina, revelam essa necessidade de choque inicial, obrigando o observador a um processo de recuo perante a imagem e a uma reinterpretação posterior, imparcial ao choque do primeiro olhar. Kander primeiro provoca e só liberta a alma das suas “presas”, dos sujeitos fotografados, após uma decisão consciente e deliberada dos observadores, quando estes decidem continuar a descobrir o que está para lá de todo o quadro glacial. Andy Brumer sugere isso mesmo no texto de apresentação da exposição do fotógrafo na Fahey/Klein Gallery em Maio de 2001 e explica-o desta forma, for example, his pictures of seductively naked young Latina women, suggestive of prostitutes in what looks like downtrodden hotel rooms. seem at first straightforward enough. However, after viewing them for some time, the strength of these women's characters and the purity of their souls leap off of each print, turning their staged seductive stares into liminal indictments all their own.
A mais recente reunião de trabalhos do artista/fotógrafo, “Keep your distance” parece dar continuidade ao processo. Nesta série, Kander reúne um conjunto de imagens de paisagem, quase sempre ambientes urbanos (ou suburbanos), espaços transitórios e de passagem como supermercados, bombas de abastecimento, estradas, viadutos, etc… os chamados “não-lugares” segundo o sociólogo Marc Augé. Ao olharmos estas imagens sentimos a mesma estranheza de quando nos mostram pela primeira vez fotografias da superfície da Lua ou de Marte, tiradas por uma qualquer sonda da NASA. São territórios estéreis, desertos, sem vida… lugares perdidos, onde a presença humana pode tornar-se um elemento perturbador, onde o corpo pode mesmo tornar-se num objecto tão estranho, capaz de remeter o observador para um mundo virtual, quase surreal, como se de um videojogo se tratasse. Uma das imagens publicadas no blogue mostra um homem encostado a um poste de electricidade imerso no nevoeiro do nascer do dia. Para mim, a figura humana é tão desconcertante nessa fotografia, tão irreal. Esse homem não pertence a esse lugar, nenhum homem pertence a esse lugar, a simples presença humana desequilibra toda a imagem, torna-a falsa, incredível. “Keep your distance” não parece ser um título escolhido ao acaso, ele funciona como um aviso, um sinal de alerta ao observador, prevenindo-o e relembrando-lhe que a sua presença nesses espaços é tão estranha como caminhar num dos desfiladeiros de Marte. A reflexão de Kander sobre a forma como vamos construindo o território provoca-nos, afasta-nos, cria-nos o pânico do primeiro instante, tal como as imagens das prostitutas latino-americanas. Ao olharmos estas fotografias não deixamos de sentir uma poética qualquer, mesmo que áspera e aguda. As paisagens retratadas são fortes e independentes, possuem na sua essência uma poética que as alimenta… muitas delas, pode-se mesmo dizer, são belas, extraordinariamente belas, mas definitivamente não incluem “a vida” dentro delas.
Para estas paisagens urbanas, a presença de vida, é tão e simplesmente, o início do seu ciclo de morte. Os lugares, ou “não-lugares”, fotografados por Kander parecem não incluir a vida dentro deles. Um corpo imerso na manhã de nevoeiro não é mais do que um ruído na imagem, um traço agressivo sobre o negativo. Estas fotografias parecem confirmar-nos de que sabemos construir a beleza, mas que o belo, é, muitas vezes, inabitável. Não deixam de ser, no entanto, um contributo pertinente para a forma como usamos, construímos e interpretamos o espaço.

keep your distance (continua...)


"Keep your distance" »» Nadav Kander

sublinhado (6)

"Thoreau dizia que tinha três cadeiras na sua casa, observa Ed. Uma para a solidão, duas para a amizade, três para a sociedade. Eu só tenho a cadeira da solidão. Se incluirmos a cama, pode ser que fiquemos com duas para a amizade. Mas sociedade é coisa que ñão há aqui. Já tive sociedade que chegue depois de tantos anos ao volante do táxi." (pág. 65)
A Noite do Oráculo (Asa), Paul Auster

domingo, janeiro 15, 2006

keep your distance (continua...)

"Keep your distance" »» Nadav Kander

o homem que não sabia chorar (4)

Então caminhou até que a dor aguda nos pés o lembrasse que estava vivo. Tinham sido necessárias cinco vidas para desviar o olhar do chão, cinco vidas para apagar de vez esse olhar curvado e entorpecido, cinco vidas para que os olhos colidissem definitivamente com o horizonte. De ombros renovados, caminhou. Caminhou até que de novo a dor nos pés o lembrasse que estava vivo. Pela primeira vez em cinco vidas, o homem que não sabia chorar pressentiu uma lasca de tranquilidade a furar-lhe os olhos. Num gesto só, ergueu-os ao horizonte e deixou-se pacientemente cegar.

keep your distance (continua...)

"Keep your distance" »» Nadav Kander

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Congresso Internacional do Conto*

«A 9ª edição da International Conference of the Short Story in English vai decorrer, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, entre os dias 21 e 25 de Junho de 2006. Trata-se de um evento que tem por objectivo pôr em contacto escritores, críticos e apreciadores de conto. Este encontro apresenta a característica de associar os escritores de língua inglesa aos do país onde se realiza, promovendo, ainda, o diálogo entre autores em início de carreira e outros já consagrados. Assim sendo, contaremos, em Portugal, com a presença de Amy Tan, Bharati Mukherjee, James Alan MacPherson, Minoli Salgado, Cynthia Ozick e muitos outros, bem como de Alexandre Andrade, Catarina Fonseca, Gonçalo M. Tavares, Hélia Correia, Jacinto Lucas Pires, João Aguiar, João de Mancelos, Jorge Vaz de Carvalho, Luísa Costa Gomes, Onésimo Teotónio de Almeida, Rui Zink, Teolinda Gersão e Urbano Tavares Rodrigues, e de críticos como Charles May, George Monteiro, Susan Lohaffer ou Rolf Lunden.Haverá sessões de leitura por todos os escritores e cinco workshops de escrita criativa sob orientação de Amiri Baraka, Francine Prose, John Edgar Wildeman, Katherine Vaz e Rui Zink. Lista completa de autores e mais informações em www.fl.ul.pt/eventos/short_story, onde se podem fazer as inscrições e propor comunicações, debates ou painéis sobre o tema (data limite das propostas até final de Janeiro).»
*foi-me pedido que passasse a mensagem.

o homem que não sabia chorar (3)

E nos olhos não ficou nada. Foi como se a chuva apagasse definitivamente a lágrima e o sorriso, o mau e o bom. Naquele instante percebeu que já não sabia chorar.

Confessionário (3)

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"Les Amants" »» R. Magritte
...tenho por princípios
Nunca fechar portas
Mas como mantê-las abertas
O tempo todo
Se em certos dias o vento
Quer derrubar tudo?...
Sudoeste, Adriana Calcanhotto/Jorge Salomão

São nas horas nuas que me sinto desprotegida de mim e dos meus afetos. É quando tudo ao redor parece sem sentido e vazio...
Uma grande amizade? Virou pó, um porta-retrato antigo sobre o móvel para que eu me recorde de quem não deveria ser esquecido.
Há quem bata as portas sem fazer barulho...
Mas há também os que não se incomodam com o rangido dos ferros e aldravas.

The Ballad of a grey city night (1)

"The ballad of a grey city night, ex.1" »» v. LEAL BARROS

sublinhado (5)

"Só ao fim de um bocado consegue reconstituir a sequência de eventos e, quando o faz e se levanta, tem já a clara noção de que, naquele momento, deveria estar morto. Aquela pedra estava destinado a matá-lo. A única razão por que saíra naquela noite era aquela pedra, era o encontro com aquela pedra e a morte, e, se conseguiu escapar com vida, então isso só pode significar que lhe foi dada uma nova vida - que a sua velha vida acabou, que todos os momentos do seu passado pertencem agora a outra pessoa."(pág. 27)
A Noite do Oráculo (Asa), Paul Auster

quinta-feira, janeiro 12, 2006

sublinhado (4)

“O mundo é governado pelo acaso. O aleatório ronda a presa que nós somos, todos os dias das nossas vidas, e essas vidas podem ser-nos roubadas a qualquer momento – por razão rigorosamente nenhuma.” (pág. 17)
A Noite do Oráculo (Asa), Paul Auster

não resisti a publicar este texto aqui...*

Pequena Prosa para a Cristina
Cristina está em silêncio e sorri juntando os lábios. Parece mais afectiva assim e não me consigo despedir. Pergunto-lhe se está livre. Que sim. Pergunto-lhe se quer ir tomar um café. Que sim. Pergunto-lhe se quer alugar um filme. Que sim. Não lhe pergunto se quer ir para a cama comigo. Que merda.
Bagaço Amarelo, Ivar Corceiro
*devidamente autorizado pelo autor, como deve ser

sublinhado (3)

"- Não há um Paraíso?
- Isso é o Paraíso.
- Mas então e o reino da glória? E as sandálias de ouro?
- Abandonamos a consciência como se acordássemos de um pesadelo. Deitamo-la fora como uma peça de roupa que nunca nos serviu muito bem. É uma libertação extática. Não podemos apreendê-la enquanto tivermos um corpo. O orgasmo é o que mais se aproxima, mas é grosseiro e insignificante em comparação." (pag. 380)
Dias Exemplares (Gradiva), Michael Cunningham

Confessionário (2)

“That’s not a diamond, it’s just a rock.”


E vamos carregando os dias de olhos fechados, tapados com vendas negras, como se ambicionássemos ser a metáfora da Justiça. Cegamo-nos a todo custo para que a vontade seja imparcial, para que o desejo não calque o limite da consciência. E nesse jogo pretenso-altruísta de que trilhamos o caminho certo, esquecemo-nos de quem nos pede um beijo ou um abraço diariamente e da recusa insensata repetida a cada pedido. Pior do que confundir o diamante com a pedra ordinária, é tê-lo no bolso e pensar que se o não tem. De olhos fechados vamos caminhando cegos, mas a Justiça não é filha de Deus.

quarta-feira, janeiro 11, 2006

...e o vento mudou (perhaps, perhaps, perhaps)...

"Perhaps, perhaps, perhaps" »» Mari Wilson

Confessionário (1)

Viver é não ter medo de arriscar-se.
Podemos ser miseravelmente infelizes, mas, oh, quando tocamos a felicidade somos inalcançáveis!
É preciso cuidar para que os cacos de vidros que deixamos pelos caminhos não machuquem, inadvertidamente, os pés de quem vem logo atrás e com isso não nos tirem a força de ser quem somos.
Há quem veja uma rosa em toda sua exuberância e o único comentário que terá, será: como tem espinhos, meu Deus!

Peter Llewelyn Davies: This is absurd. It's just a dog.

J.M. Barrie: Just a dog? Porthos dreams of being a bear, and you want to shatter those dreams by saying he's just a dog? What a horrible candle-snuffing word. That's like saying, "He can't climb that mountain, he's just a man", or "That's not a diamond, it's just a rock." Just.

“Quote” do filme Finding Neverland

Em meu nome pessoal e em nome da Luciana (acho que me permites) peço desculpa à Cristina pelas possíveis semelhanças entre o anterior template do Sincronicidade e o do blogue Dias Felizes. Não foi de todo nossa intenção apropriar-nos da imagem de quem quer que fosse e por isso resolvemos alterar o template. Tal como o actual, o anterior template foi alterado apartir do Minima White da Blogger, cujos direitos de autor recaem no sr. Douglas Bowman. Para que tudo fique claro, o desenho utilizado para o banner do Sincronicidade é da autoria de Siza Vieira. Mais uma vez o nosso pedido de desculpas pelo mal entendido. Alguma coisa a ser esclarecida não hesitem em contactar.

Espasmos # 6

A verborragia não se esgotara.
Num tom entre o descrente e o irônico, uma outra voz retrucava o mesmo refrão até o ponto de reproduzir ecos que me lembravam que eu não poderia fugir ao meu destino.
Então, escolheu o melhor diamante – límpido e duro – tatuando-me sobre a pele a pergunta tão preciosa:
“Mata-me a curiosidade, conta-me, a vida ainda vibra?”

sublinhado (2)

"A voz com que falo neste momento, aquilo que conheces como a minha voz, e, por extensão, a minha personalidade, digamos assim, são programadas. Cadência, vocabulário, modulação, gíria, tudo concebido por Emory Lowell, para me fazer parecer mais humano. Além, claro está, destes ataques involuntários de poesia. Mas aquilo que eu tenho dentro da cabeça é diferente. Ouço-me falar - estou a ouvir-me neste preciso instante - e parece-me estranho. Não coincide com o que ouço na minha cabeça. Os impulsos são meus, a decisão de dizer uma ou outra coisa é minha, mas a expressão está para lá do meu controlo." (pág.340)
Dias Exemplares (Gradiva), Michael Cunningham

terça-feira, janeiro 10, 2006

CFP regenerada

O Francisco José Viegas é o novo director da Casa Fernando Pessoa. A Tabacaria de volta como anuncia Eduardo Pitta... (era bom). Bom Trabalho!

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Balthus

Espasmos #1
Eu sempre me liquefaço em dias de chuva – nunca te disse? Pois é. Dissolvo-me. Diluo minha matéria bruta para aliviar meu peso, meus passos, pois sendo líquido posso vazar pelos poros transformando-me em corredeira ou simplesmente evaporar sem deixar vestígios.

Espasmos #2
É que na maioria das vezes sou mesmo corredeira volumosa...
Nunca escutas?
Quantas vezes precisarei desembocar em ti para entenderes a violência dos sentimentos gerados pela força das minhas águas?
Suplico ao vento que pare de soprar: estou exausta de tanta arrebentação.

Espasmos #3
E quanto mais gritava ao vento, menos era ouvida. A voz era dissipada pela velocidade do ar... senti-me órfã, abandonada, lançada ao redemoinho, ao pó... comigo, uma folha de papel era arremessada ao nada; esperei os movimentos, decorei sua rotação e no momento exato do rodopio, agarrei-a com as mãos.

Espasmos #4
A folha estava amarrotada num claro gesto de quem deitou fora uma idéia que não servia ou não conseguia desenvolver. Bem no centro do papel, em destaque, lia-se a palavra “memória”.
Queria lembrar-se de algo? Ou esquecer? Não importa, agora de posse da memória de outrem, escreveria sobre vidas que não me pertencem, mas que são parte de mim.

Espasmos # 5
E alguém sussurrou ao longe algo que me pareceu ser assim:
“Diante do Tempo, a vida
Pode parecer uma irrelevância
(Talvez o seja mesmo).
O que fazer se o irrelevante
É tudo o que possuo?
Fechar uma porta,
Apagar a luz
Faz toda a diferença.
Não tenho a eternidade para saber...”

louco ou visionário?

"Architects, painters, sculptors, we must all return to crafts! For there is no such thing as "professional art". There is no essential difference between the artist and the craftsman. The artist is an exalted craftsman. By the grace of Heaven and in rare moments of inspiration which transcend the will, art may unconsciously blossom from the labour of his hand, but a base in handicrafts is essential to every artist. It is there that the original source of creativity lies. Let us therefore create a new guild of craftsmen without the class-distinctions that raise an arrogant barrier between craftsmen and artists! Let us desire, conceive, and create the new building of the future together. It will combine architecture, sculpture, and painting in a single form, and will one day rise towards the heavens from the hands of a million workers as the crystalline symbol of a new and coming faith."
Bauhaus Manifesto, 1919, Walter Gropius
(?)