quinta-feira, fevereiro 02, 2006

onda retro FM (Lu, os teus desejos são ordens)



"It had to be you" »» Billie Holiday

O Diário de G.H.

Aos parcos leitores

Este diário não é um estudo, não é uma erudição, sua única pretensão é confrontar impressões, estabelecer um diálogo íntimo de alma para alma; ele é apenas a descoberta fulgurante das minhas entranhas, proporcionada pelas repetidas leituras d’A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector.

V.


Numa madrugada qualquer de agosto

Sempre tive a sensação de mal-estar no mundo, uma sensação de não caber no meu espaço, um desconforto diante de meus pares – eu me pergunto: tenho pares?
Eu sabia que em mim há uma mulher que tento esconder ferozmente. Tenho medo que as pessoas identifiquem meus excessos, essa quantidade absurda de pernas e braços que camuflo sob a roupa que visto.
O que diriam se soubessem das muitas que vivem em mim e tentam bravamente, numa luta corporal, projetar-se do meu corpo? Tomariam-me por uma aberração?
Elas não podem me achar, então eu vivo a árdua tarefa de perder-me diuturnamente como no jogo de esconde-esconde. Qualquer hora dessas vou perder-me de tal modo que não mais serei capaz de fazer minha montagem humana. Tropeçarei nas pernas, trocarei os pares de braços e não saberei a quem pertenço. Fecharei meus muitos olhos porque a sobreposição de imagens fatigam minha visão e eu tenho medo das inúmeras verdades que testemunho. Selarei meus lábios para que as vozes não se confundam. É preciso esperar que todas elas adormeçam para que eu possa viver uma vida de cada vez, caso contrário, os anos pesarão sobre meus ombros e antes de envelhecer eu preciso me saber, preciso ordenar os ciclos individuais até tornar-me pessoa.


se não fosse a terra a pintar teria sido August Strindberg

Baie du Mont-Saint-Michel »» França

Confessionário (6)

Talvez a mão marcada no rosto, desenhada a vermelho pelo sangue estimulado, seja preferível. Ela possui ascendência sobre a memória e num espasmo a vida encarrega-se de viajar ao presente. Quanto ao não-dito, é ridículo e estranho pensar que o que não foi pode tornar-se na dor crónica que acompanha o silêncio. Como tu, e apesar da luta pela decisão, talvez eu também não consiga gritar sem ver um rosto. Mas fala-me de esperança e amor, de sonho e utopia, porque entre a virtualidade do que não foi ou a do que há-de vir, prefiro alimentar a alma com os silêncios do futuro.

se não fosse a terra a pintar teria sido Cézanne


Cambridgeshire »» Reino Unido

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

jogando na loteria

onda retro FM (capítulo 5)

"At Last" »» Etta James

sublinhado (14)

Ninguém sabe ao verto em que ponto do mundo os ventos são gerados, quem os dá à luz ou à escuridão, quem é a mãe dos ventos e por quem foi criada. Os começos jazem na sombra. (pág.39)
Avalovara (Companhia das Letras), Osman Lins

segunda-feira, janeiro 30, 2006

De profundis

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Para aliviar o rigor do inverno, Bruno Santos


Extasiada, abri o pacote.
Pela primeira vez via a sua pequena letra, pela primeira vez tocava algo que estivera antes em seu poder; uma marca, um perfume.
Não, jamais duvidara da nossa amizade, do afeto que nos une através de tantos mares em que navegamos a espera de um sinal, um aceno, uma confidência... mas agora era diferente – toda nossa ternura materializou-se como se num breve piscar de olhos minha mão alcançasse seus ombros e nos enlaçássemos no longo abraço tão almejado por nós.
Certa vez, disse-me que alguém que ama muito ensinou-lhe a falar sobre as coisas do coração, ensinou-lhe a não represar a força do verdadeiro amor. Eis aí um belo aprendizado, de outra forma, eu jamais saberia o que é ter o horto do meu coração em chamas.

sexta-feira, janeiro 27, 2006

o homem que não sabia chorar (6)

Três dias para que o corpo se habituasse ao peso do sol. As costas curvadas e os braços como pêndulos soltos, roçando o chão em compassos apertados. Trazia os olhos secos como no dia em que nasceu, mas não se importava. Nunca o arrependimento teve coragem suficiente para detê-lo do que quer que fosse. Caminhava curvado, arrastando-se sobre a terra, mas caminhando. Curvado. A tesoura ainda no bolso… no coração, a imensidão do céu sobre o planalto, e no pensamento, o sonho cada vez mais próximo de rasgar definitivamente o horizonte.

o sorteio já passou, mas cá vai hmbf

sublinhado (13)

"Não viverei sequer mil anos, minha vida é rápida, risco no tempo, tal como um peixe salta um dia acima da vastidão do mar e vê o sol e um arquipélago onde se movem cabras entre as rochas, assim eu salto da eternidade, como todos, eis-me no ar, vejo o mundo dos homens, logo voltarei aos abismos marinhos. Este breve salto, esta aspiração ao ato de voar é tudo o que me foi concedido para ir da grafita ao grafito, para consumar o que os espongiários, em meio milhão de anos, nem sequer esboçam, limitando-se a passar, continuamente, de um sexo a outro, de um sexo a outro. Vens?" (pág. 31)
Avalovara (Companhia das Letras), Osman Lins

Espasmos # 7

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Espelho, Vítor Carralas
Sim, a vida ainda vibra...
...vibra na constância das minhas oscilações.
...vibra quando tudo arde, quando o sangue goteja, quando os corais esquecem-se por segundos de seus habitantes naturais e vem enfeitar meu corpo, despertando-me para o meu colorido, meu cabelo-alga, minha pele-escama, meus braços-nadadeiras... agora sou porto de mim.

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Na estante (1)

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Fra Angelico
Dúvidas apócrifas de Marianne Moore

Sempre evitei falar de mim,
falar-me. Quis falar de coisas.
Mas na seleção dessas coisas
não haverá um falar de mim?

Não haverá nesse pudor
de falar-me uma confissão,
uma indireta confissão,
pelo avesso, e sempre impudor?

A coisa de que se falar
até onde está pura ou impura?
Ou sempre se impõe, mesmo impura-
mente, a quem dela quer falar?

Como saber, se há tanta coisa
de que falar ou não falar?
E se o evitá-la, o não falar,
é forma de falar da coisa?

João Cabral de Mello Neto.
In Agrestes. Editora Nova Fronteira, 1985.

Confessionário (5)

Mas seria como escolher entre o silêncio e a mudez, porque entre a delicadeza de não se fazer ouvir e o autismo para com os que fazem tudo gemer não existe substância. Eu prefiro a bofetada ao não-dito. Eu não sei gritar sem ver um rosto ainda que ele esteja oculto na escuridão.

relembrando

Ontem apareceu-me às mãos a Carta de Guadalajara, assinada em 85 pelo Barragan e o Urzúa. Dizia que a meta final da arquitectura é proporcionar bem-estar e felicidade ao homem, dizia que a arquitectura deveria ser humanista na sua essência (“Temos que resgatar para o habitat humano o equilíbrio essencial, a escala, a ordem, o amor, a poesia e essa comunicação* perdida pelo homem.”). À velocidade que as coisas se têm processado ultimamente, em que os experimentalismos formais sucedem-se em catadupa e as revistas da especialidade fazem o favor de nos bombardear com imagens apelativas a todo instante, faz-nos bem relembrar isto.
Há um mal geral na sociedade contemporânea, e não creio que seja apenas na arquitectura, uma espécie de preguiça em reflectir. Ninguém tem tempo para a reflexão, ou então encara-a como algo cansativo que pode arruinar num segundo o trabalho que se teve a engavetar determinados assuntos. É mais fácil varrer para debaixo do tapete. Próximo!

* referia-se à comunicação com a Natureza.

sublinhado (12)

"Mas o preço deste encantamento descontínuo é a extrema dispersão da personalidade e a fragmentação do tempo. Onde achar a unidade do Eu, quando este funde como neve ao sol? Como salvar estes instantes ameaçados de se afundarem para sempre no nada? A esta dupla questão, Proust e Virginia Woolf começaram por dar a mesma resposta. Acontece encontrar-se nesta corrente descontínua «um pouco de tempo em estado puro». O relógio pára, o tempo suspende o seu voo. Na solidão, o ser começa a viver, o seu desejo de existir no instante é finalmente alcançado. (...)
(...) Todavia diferentemente das «impressões felizes» de Proust, dos «momentos de iluminação» de Eliot, estes «momentos de ser», em Virginia Woolf, sólidos, transparentes, não são criadores. Inscrevem-se entre os demais, sem resgate. São «pequenos milagres quotidianos, revelações, fósforos inopinadamente riscados no escuro», mas nunca a grande revelação dramática de Marcel no momento de entrar no salão dos Guermantes, quando vê enfim diante de si o futuro onde se vai inscrever a sua obra. Para a busca proustiana há uma solução, e perante o tempo, uma orientação nova e brusca que decide das relações do personagem com a sua vida tal como a vivera, com a morte que está ali à sua frente. Nada de semelhante em Virginia Woolf. A gota de tempo, por um instante suspensa, cai de novo no telhado da nossa alma. Uma experiência cumpriu-se, uma nova etapa passou. Cada um volta a partir com a pequena sacudidela que se dá a um relógio de pulso parado (...)" (págs. 77 - 79)
Virginia Woolf (Relógio D'Água), Monique Nathan

... não faço ideia do porquê destas músicas retro cá no blogue ...
apetece-me e pronto
... talvez seja a vontade de rir sempre que ligo ou desligo a página ...

quarta-feira, janeiro 25, 2006



"Sweet Nothin's" »» Brenda Lee

com imensas saudades da Lu, mas feliz... sensação de coerência neste blogue...

Faria hoje 123 anos

"Observei com uma clareza desiludida a falta de identidade da rua; as suas varandas e cortinas; as roupas castanhas, a cupidez e a complacência das mulheres que trabalhavam nas lojas; os velhos passeando com as suas roupas de lã; a forma cautelosa como as pessoas atravessavam a rua; a determinação universal de se continuar a viver quando a verdade é que, seus idiotas, uma qualquer telha vos podia cair em cima e este ou aquele carro galgar o passeio, pois não existe qualquer espécie de lógica ou razão quando um homem embriagado caminha pela rua com um varapau na mão.

As Ondas, Virginia Woolf

terça-feira, janeiro 24, 2006

sublinhado (11)

"Giles e Isa Olivier, Clarissa e Richard Dalloway, Mr e Mrs. Ramsay, nenhum dos três casais alcança a união total. Exceptuado o amor físico que não passa da satisfação do instinto de procriação, não pode haver amor feliz. Desemparelhados, solitários, o homem e a mulher perseguem isoladamente o seu sonho sem se reunirem de outro modo que não apenas entre os actos, e defrontando-se para sempre um ao outro. Longe de quebrar a solidão fundamental do ser, o casamento torna a do outro maior. É uma falsa saída, uma porta enganadora para a liberdade, e o mistério continua total: «Ali está um quarto, acolá outro», ali a mulher com as suas necessidades, os seus desejos, e acolá o homem, não inimigos, mas estranhos semelhantes a dois círculos que nunca podem coincidir por completo. Seja o que for o amor, nunca se chegará a formar um único ser indivisível e imenso, nunca há senão dois indivíduos, pequenos e separados." (pág. 54)
Virginia Woolf (Relógio d'Água), Monique Nathan
Será?

IV

Quem caminhava entre a violeta e a violeta
Quem caminhava entre
As várias filas de vário verde
Indo de branco e azul, nas cores de Maria,
Falando de coisas triviais
Na ignorância e na sabedoria da eterna dor
Quem se movia entre os outros que caminhavam,
Quem então tornou poderosas as fontes e frescas as nascentes

Esfriou a seca rocha e consolidou as areias
No azul das esporas, nas cores de Maria,
Sovegna vos

Estes são os anos que caminham de permeio arrastando
Consigo os arcos e as flautas, restaurando
Aquela que se move no tempo entre o sono e a vigília, vestida

De branca luz envolvente, cingida em seu redor, envolvente,
Os novos anos caminham, restaurando
Através de uma clara nuvem de lágrimas, os anos, restaurando
Com um verso novo a rima antiga. Redime
O tempo. Redime
A obscura visão do mais alto sonho
Enquanto unicórnios ajaezados puxam o esquife doirado.

A irmã silenciosa velada de branco e azul
Entre os teixos, para lá do deus do jardim
Cuja flauta emudeceu, baixou a cabeça e acenou mas nada disse

Porém a fonte jorrou e a ave cantou
Redime o tempo, redime o sonho
O penhor da palavra ensurdecida, emudecida

Até que o vento sacuda do teixo sussurros mil

E depois deste nosso desterro.

T. S. Eliot

In “Quarta-Feira de Cinzas”, Relógio d’Água
Trad. Rui Knopfli

sublinhado (10)

"Ela é, como T. S. Eliot, sensível ao espectáculo da rua, à poesia das cidades, da Cidade - e Londres está sempre presente nela para lá da sua inospitalidade aparente. Basta ao transeunte ocioso seguir o passo de Clarissa Dalloway, quando sai de casa para comprar flores, para se orientar no West End, como se tivesse nascido lá. Hora a hora, Virginia desenrola o seu fio de Ariana através do dédalo das ruas e avenidas, tal como Leopold Bloom ao longo de Dublin (...)" (pág. 25)
Virginia Woolf (Relógio d'Água), Monique Nathan

segunda-feira, janeiro 23, 2006

ainda "caché"

“Caché” é a metáfora da arrogância subtilmente explicada desde a génese à sua manifestação física. Um personagem atormentado por fantasmas do passado, o peso da consciência e o rebuliço dos remorsos a destruírem, pouco a pouco, a imagem de sucesso que foi construindo à sua volta. O medo cresce à medida que o jogo avança e torna-se o único juiz. É ele quem comanda os actos e determina os destinos dos personagens. É o medo que escolhe a cobardia do caminho, é ele que impossibilita a comunicação e apresenta a mentira, é ele a imagem da arrogância que invalida o “porquê” do outro, que transforma as palavras do próximo numa mímica, num murmúrio inaudível. No fim, duas ou três palavras são suficientes para destituir o “intelectual”; um discurso simples, três ou quatro verdades numa atitude humilde e educada e o medo derretendo lentamente as fundações frágeis que sustentam o que resta da imagem. Há quem confunda “simples” com “simplório”, o filme tira todas as dúvidas. E não, por certo que a escolha do ambiente sócio-cultural dos personagens não é capricho do autor.

sublinhado (9)

"- as minhas mãos envolviam-me o rosto e eu chorava e soluçava tudo o que havia para chorar e soluçar. Não sei quanto tempo estive assim, mas, enquanto as lágrimas jorravam de dentro de mim, eu sentia-me feliz e sabia que nunca me tinha sentido tão feliz por estar vivo. Era uma felicidade inconcolável, uma felicidade para além do infortúnio, para além de toda a fealdade e beleza do mundo. Por fim, as lágrimas abrandaram, e eu fui até ao quarto mudar de roupa. Dez minutos depois, estava de novo na rua, a caminho do hospital para ir ver Grace." (pág. 201)
A Noite do Oráculo (Asa), Paul Auster

curioso, reparei agora que os dois últimos posts combinam perfeitamente, (não foi propositado, juro).