terça-feira, março 14, 2006

Confessionário (13)

Como não lembrar de tão intensa imagem, Vítor? Ela ficou gravada em mim.
Lembro também da referência que fizeste ao meu respeito, incluindo nossa querida e saudosa V. na conversa... Tenho ainda guardado comigo o e-mail em que me descreves o surgimento dessas vozes.
Eu não tenho dúvidas de que ela, a tal mulher, precisa exercitar as asas.
Mais uma vez nos realimentamos em nossos diálogos, não é mesmo? Não sabes como isso minimiza a distância que nos separa! Como conforta meu coração saber que não estamos sozinhos no mundo, saber que nossa essência compartilha valores em comum.
Bem, se era pra ser uma confissão, hoje faço jus à série.

sublinhado (17)

"Entre todos estes quadros, a Hélène Fourment nua do Museu de Viena nos persegue, por razões mais pictóricas do que eróticas. Muitos pintores haviam mostrado sem véus a sua mulher ou amante, mas os motivos e as decorações mitológicas (como muitas vezes no próprio Rubens) colocavam essas deusas num Olímpo de convenção. Sobretudo, nos mestres do desenho e do contorno, a linha ideal à volta de um corpo nu vestia-o, por assim dizer. Desta vez, trata-se menos de um corpo do que de carne. Esta mulher quente e húmida parece sair de um banho ou de uma alcova. O seu gesto é o de uma pessoa que, ouvindo bater à porta, deita ao acaso a primeira coisa sobre os ombros, mas o grande estilo do pintor evita-lhe qualquer afectação de pudor, provocante ou insípida. É preciso olhá-la vinte vezes e jogar o velho jogo que consiste em reencontrar em toda a obra de arte os motivos eternos para nos apercebermos de que a pose dos braços é, com uma ligeira modificação, a da Vénus de Médicis, mas esta forma abundante não é nem marmórea nem clássica. A pele com que se cobre e de que o seu corpo extravasa por todos os lados dá-lhe antes o ar de uma ursa mitológica. Os seios um pouco moles, como cabaças, as pregas do torso, o ventre talvez arredondado por um começo de gravidez, os joelhos com covas, lembram a turgidez da massa que levanta. Baudelaire pensava sem dúvida nela quando evocava, a propósito das mulheres de Rubens, «o travesseiro de carne fresca», e o tecido feminino «onde a vida aflui»; parece com efeito que bastaria pousar o dedo nesta pele para nela fazer surgir uma mancha cor-de-rosa. Rubens nunca se separou desta tela que só depois da sua morte passou para as colecções dos Habsburgos; talvez experimentasse algum escrúpulo em ter feito de rei Candaules. Este só exibiu a mulher a um amigo íntimo: Hélène em Viena pertence, de ora em diante, ao primeiro turista." (pág. 58)
Arquivos do Norte (Difel), Marguerite Yourcenar
"Hélène Fourment nua", Rubens

cenas da vida quotidiana

No mesmo dia em que o sol nos convida a um café mais prolongado, um carro, de estéreo afinado, em vez de hip-hop ou kizomba, toca Pachelbel amplificado, enquanto Yourcenar nos ensina a apreciar Rubens.

segunda-feira, março 13, 2006

O Outro Lado (3)

sublinhado (16)

"O homem com os seus poderes que, avaliem-se como se avaliarem, constituem uma anomalia no conjunto das coisas, com o seu dom temível de ir mais longe no bem e no mal do que o resto das espécies vivas por nós conhecidas, com a sua horrível e sublime faculdade de escolha."(pág. 17)
Arquivos do Norte (Difel), Marguerite Yourcenar
ps. Por vezes penso como foi acertado o nome que demos a este blogue, na altura em que a Lu o sugeriu e apesar de ter adorado a ideia, questionei-me sobre a ligação junguiana do termo. Hoje tenho a certeza de que foi o nome certo, as provas sucedem-se em catadupa. Por exemplo, no mesmo dia em que escolho publicar as notas e apontamentos de "De quem me fala" (acto que ponderei bastante nos últimos dias) deparo-me com esta citação da Yourcenar e com o texto do Henrique publicado parcialmente mais em baixo. Bem, perguntam-me, e qual a relação entre esses acontecimentos? Todos eles giram em torno da escolha, do acto de optar e decidir, tão "horrível e sublime". Tinha lido "Souvenirs Pieux", o primeiro livro de memórias de Yourcenar, dedicado à família materna, há uns 3 anos, mais ou menos. Na altura comprei os outros dois volumes ("Arquivos do Norte" e "O quê? A eternidade?"), o díptico dedicado à familia paterna da autora. Deixei-os encostados durante todo este tempo, não sabendo muito bem porquê. Hoje chamaram-me de novo e eu entendi imediatamente a razão. Há um tempo para tudo, e uma razão para as coisas acontecerem. Apesar da nossa capacidade de escolha, e da vontade de deixarmos o puzzle por acabar, como diz o Henrique, há uma certa inevitabilidade na cadência, no ritmo, na razão e na forma como as coisas acontecem. Não sei bem se há um porquê para tudo o que nos acontece, mas tenho a certeza que há sempre um conhecimento qualquer a reter. Há quem lhes chame "coincidências"... eu prefiro chamar-lhes "reflexões sobre a capacidade de surpreender o tempo"... longo, não?!

notas e apontamentos (1)

Decidi anotar o que me vai contando. Esta voz murmura-me há mais de quatro ou cinco anos. Não sei bem explicar como tudo aconteceu, sei que foi depois de um filme. Foi numa daquelas noites de ócio em que vamos deixando absorver-nos pela televisão. O filme era alemão e eu não sei o nome. Não sei quem realizou. Não sei quem eram os actores. Não sei nada sobre o filme. Sei somente que aquela mulher é esta voz, e sei que é essa voz que conta toda a história.
No filme ela era apaixonada por um poeta, e o poeta continua na história que me conta. Aparece um rapaz do local onde me fala, alguém com quem ela simpatiza, alguém com quem ela se identifica, um ser que atenua a sua solidão. Do local onde me fala só vem o rapaz, o resto está vazio. É como se existisse no vazio vestida de seda vermelha, sentada num banco tosco, um banco e não uma cadeira, um banco sem costas e tosco, daqueles como já não há nas aldeias e que costumavam colocar-se em redor do borralho. Ela está tranquila, fala sem raiva, não há ódio nas suas palavras. Fala sempre pausadamente, tranquilamente. Apesar da serenidade, nem tudo o que diz é tranquilo. Há episódios que lembrados criam frio na barriga de tão cruéis que são. Há no seu discurso uma espécie de justiça implacável, como se fizesse da língua uma balança. Se fosse necessário colocar a morte num dos pratos, ela não hesitaria… ela faz-se respeitar dessa maneira. Ela diz-me que pagar ou cobrar o que se deve, é o único ensinamento válido das vidas que teve. Eu não sei se é assim, mas admiro a sua coragem. Continua lá, serena, sentada no banco de madeira tosco, vestida de seda vermelha, imperturbável a contar-me a sua história.

Foi depois do filme, que nem sei o nome, quando ela me falou pela primeira vez. Sem tirar qualquer nota da ficha técnica (ainda hoje não sei porque deixei escapar essa informação, eu costumo anotar nos cadernos as coisas que me marcam), eu escrevi apenas:

conheço-te as sedas, prevejo nelas a tua morte. escuto o teu impulso descontrolado e talvez porque entre em ti percebo a ausência do poema. olho-te naquele rio, fria, tremendo por compaixão, iluminando sem forças a luta que te fez resistir nas décadas do nada. morreste feliz, tal como eu morrerei, porque acreditaste em tudo – no branco, no liso, na água e no vento. ele sofreu no dia em que caíste. lembrou-se do casaco enrugado. não. da mortalha enrugada.

Talvez a ficha técnica do filme não sirva para nada. Talvez a informação necessária tenha sido esse texto que escrevi na altura. Tudo o resto parece acessório e dispensável ao decorrer da história. Esforcei-me durante algum tempo na pesquisa desses elementos, em vão… nem um registo nas grelhas televisivas. Nada, absolutamente nada. Não vou, nem devo procurar mais. Ela disse-me que tudo deveria ser assim.

sábado, março 11, 2006

Confessionário (12)

Lembras-te daquela mulher que te falei?… aquela de vestido vermelho que um dia resolve acariciar os pés no húmus do Saône até sentir a eternidade entrar-lhe no peito? Lembras-te dela? Aquela a quem roubaram a juventude e a inocência quando o tempo ainda não o tinha permitido… ela não se calou Lu… ela continua a falar-me todos os dias. Ao ler a tua última confissão ela regressou desenfreadamente. Talvez ela seja uma pessoa especial, talvez possua um enorme par de asas, talvez o mundo mereça saber da sua existência… talvez…
Tenho a sensação “de quem me fala” pedir-me para contar mais do que um simples poema… parece que me ordenam a contar essa história… querem forçosamente que o faça e dizem que só me libertam quando cumprir as suas ordens. Eu não sei se o quero fazer… não sei mesmo. Talvez registe em género de nota os segredos que me vão contando… talvez essas notas possam um dia receber um corpo.

sexta-feira, março 10, 2006

Espasmos # 10

Caminhei até o tombadilho e não resistindo aos apelos profundos daquele mar azul, saltei.
Saltei como saltam os atletas: corpo rijo, nenhum receio, movimento preciso e uma alegria sem precedentes.
Compreendes agora o que te disse no princípio, quando tudo em mim era correnteza?
Não me aborrecem as tormentas, as águas turvas não me confundem... o que me traga a alma é a ausência dos ventos. Os mesmos ventos que movem os moinhos e fazem meus sentimentos viajar.
É só no fundo de nós mesmos que a vida acontece.

quarta-feira, março 08, 2006

Ainda "Capote"...

Em relação a "Capote", penso que os dois personagens usam-se e manipulam-se mutuamente. O assassino, Perry Smith, usa Truman, de forma que, através do romance, ele possa ser visto pela sociedade com alguma humanidade e dignidade (caso contrário seria visto como um criminoso, um monstro abominável da mesma estirpe de outros serial killers que conhecemos), por sua vez Capote precisa dele para escrever o romance que o vai catapultar. Nenhum dos dois é totalmente inocente em toda a história. Cada um deu de si o que lhe interessava dar, cada um jogou de forma a obter o resultado mais satisfatório para si próprio. A mais valia do filme reside exactamente nesse ponto, ao escolherem entrar no jogo, ao aceitarem o desafio, os dois personagens não imaginam a complexidade das regras com que são obrigados a jogar – o campo das relações humanas é muito mais ambíguo do que se possa imaginar à partida e, no momento em que se estabelece um sentimento de identificação entre os dois, deixam definitivamente de ter poder e domínio um sobre o outro. No fundo, há uma espécie de “injustiça” que se arrasta continuamente sobre a história… a injustiça do passado dos dois personagens, a injustiça da família assassinada, a injustiça da condenação à morte, a injustiça transformada em remorso no peito de Truman que o impede de continuar a viver. A última frase do filme, uma citação de Capote que não consegui transcrever, dizia mais ou menos isto: “Chora-se mais depressa por uma prece atendida do que por uma não ouvida”. No fundo ele consegue dar um fim ao que se propôs, acabar “In cold blood”, e teve realmente o sucesso e o reconhecimento que projectara à partida, mas talvez o preço da ambição, o resgate da fama, tenha sido caro demais.
Quanto à interpretação e realização, o trabalho dos actores foi bastante melhor do que o do realizador. Diga-se o que se disser (ainda mais com o Oscar) Philip Seymour Hoffman é um grande actor… e não precisávamos de Capote para o provar, a sua prestação discreta em "Magnolia" era suficiente para o sabermos.
Ps. Esta fotografia é o resumo do filme, os dois representam constantemente. Apesar disso, a maldade "acordeirada" de Perry Smith e a vaidade de Truman Capote são irreversivelmente perceptíveis na imagem.

Fui ver "Capote" e ocorreu-me a pergunta: quem usa quem em toda aquela história? Ainda lá volto...

terça-feira, março 07, 2006

Isabel de Castro

Ontem, apanhei por acaso o documentário/entrevista sobre a actriz Isabel de Castro que passou na RTP. Apesar de a conhecer apenas de alguns dos últimos filmes em que participou e do seu trabalho na televisão, Isabel de Castro era uma daquelas pessoas que me punha em sentido, alguém por quem tinha (e tenho sempre que a revejo no ecrã) um respeito instintivo; alguém que quando escuto, obriga-me a calar e a beber tudo o que tem para dizer, quer como Isabel, quer como uma das suas personagens.
Do filme de ontem ficou-me o seu olhar terno e o seu sorriso encantador e ficaram-me frases que hoje volta e meia me vêm à cabeça: “dizem-me que não, mas eu sempre fui uma pessoa tímida”; “não sou de pedir… e não é por orgulho… nunca fui atrás de nada… as coisas acabaram sempre por vir ter comigo… mas errando sou capaz de pedir desculpa… isso sim sou capaz de fazer”; “não acredito em paixões, dizem que sou uma apaixonada… isso não é verdade… acredito na ternura e na amizade… que são sentimentos duradouros… talvez seja isso o amor”*.
Deixo-vos a fotografia de uma Isabel nova, uma Isabel que talvez não faça parte do nosso imaginário, uma Isabel que não é em nada mais encantadora do que a Isabel velha que guardamos na memória, mas que nos lembra que Portugal teve as suas divas.

*As frases foram tiradas de memória do que assisti no documentário, é bem provável que as palavras tenham uma ordem diferente, não houve, no entanto, qualquer alteração do sentido do discurso de Isabel de Castro.

LADO B (3)


segunda-feira, março 06, 2006

O Outro Lado (2)

sexta-feira, março 03, 2006

volta e meia regresso a este poema...

"Os Pratos da Balança

Por entre as rochas um rapaz, nas mãos levando uma balança, avança em direcção ao mar. Vai procurar pesá-lo. Num dos pratos, o mar há-de revolver-se, debater-se, rebentar, há-de trazer à superfície a força das entranhas e atrair o céu, há-de-o fazer precipitar-se até com ele se confundir, e as próprias rochas através das quais o rapaz segue hão-de pesar no prato ferozmente. Imperturbável, o rapaz colocará no outro prato o seu sorriso."
Poesia Completa 79-94 (D. Quixote), Luís Miguel Nava

O Diário de G.H. (4)

As imagens


Há dias encaro esse band-aid com um misto de medo e curiosidade.
Ando na casa inteira num vai-e-vem desmesurado, estou ansiosa e impaciente para as visitas. Receio que elas desconfiem do meu caráter duplo e comecem a me encarar com desconfiança.
É certo que não podia viver assim, prisioneira em meu próprio lar ou como um refém dando refúgio ao bandido. E por que eu acho que isso que está em mim é um inimigo? Como posso temer a mim mesma?
Fui até a gaveta da penteadeira e tirei um espelho desses que aumentam. Posicionei sua face em frente ao machucadinho e, de olhos fechados, puxei o band-aid de uma vez só. Abri os olhos e a feridinha tinha cicatrizado!
Fiquei intragável por alguns dias, procurando no peito um vestígio do machucado que pudesse me revelar os tais olhos.
Vai ver a minha outra teve medo de mim e cimentou internamente as paredes para não ser mais incomodada. Sinto dizer que é uma bobagem, pois agora estou decidida a saber mais dessa criatura e não vou descansar enquanto não encontrá-la novamente.
Decidida a esquecer a obsessão, nem que fosse por um curto período, resolvi sair de casa e ver pessoas. Foi então que ao prender os cabelos num rabo de cavalo a fim de me maquiar, aproximei-me bem do espelho. Senti que por trás dos meus olhos um outro par de olhos me observava, atento. Puxei a cadeira para mais perto, mas eles já não estavam lá. De repente, uma ardência nas costas, virei-me abruptamente.
Estava lá grafado na pele: A I R T E M I S.

Confessionário (11)

Querido, existem muitos indicadores que revelam a intensidade de uma relação. Ontem, vivi um momento único de revelação e o indicador era algo tão sofrível: a dor de uma separação.
Observei aquela festa e por trás de tantos sorrisos e abraços sinceros eu vi a tristeza fazendo graça para disfarçar o pranto, notei o esforço descomunal que é segurar a lágrima no olho.
Sou péssima para despedidas, mas tenho sempre em mente as coisas boas e duráveis e apego-me a elas para não fraquejar, mas ontem não deu...
Chorei ao ver aquele rosto tão terno e vermelho de emoção vindo em minha direção; tentei roubar alguns parcos segundos do seu olhar paterno; guardar o calor do abraço que tantas vezes me salvou do frio da minha alma; reter nas mãos a oferta de um conselho, de um afago; gravar o som de sua voz rouca e reconfortante...
Não sei quando teremos uma próxima vez, querido, mas apesar da dor e do meu egoísmo pela sua partida, resta um pontinha de alegria por sabê-lo vencedor.
Pessoas especiais assim não devem estar fixas à terra. Ao invés de raízes profundas, elas possuem um enorme par de asas porque o mundo merece saber de sua existência.

...tomados de assalto pelas nuvens

Hoje foi um daqueles dias em que a electricidade tomou conta do ar. A manhã em polvorosa, os carros encavalitando-se em apitos nervosos, os pássaros em bandos agitados descrevendo rotas dignas de festivais aéreos, o pacote de açúcar e do pau de canela colando-se às mãos, e nós transformados em ilusionistas-por-um-dia pela santa electrostática. Hoje foi um daqueles dias em que a minha vida parece ter acompanhado a atmosfera. Exausto, digo que foi bom assim. Exausto, desejo que seja sempre assim. E deleito-me (agora por mais de cinco segundos) a decifrar o que as aves escreveram no céu.

quarta-feira, março 01, 2006

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

O Outro Lado (0 ou INTRO)

A silhueta debruçada no chão é sempre mais concisa e mais enigmática do que a forma mãe. Ao olhá-la ela possui a força de um touro preto, é uma espécie de máquina com funcionamento interno obscuro e silencioso que adquire vida própria e da qual não adivinhamos nada, apenas especulamos sentidos. O seu mistério reside precisamente na contradição que a origina, se por um lado ela depende da forma mãe para nascer, por outro, adquire uma independência e uma identidade únicas que extravasam a sua origem. Ela – a sombra – é sempre o outro lado, mas é ela também. Este é também o mistério da VIDA.

Tendemos a olhar o mundo azul e cor-de-rosa seduzidos por toda a beleza que dele se solta. Observamo-lo com a ingenuidade das crianças e procuramos na sua pele, na sua face, uma resposta e um sentido para aquilo que fazemos. É uma procura solitária em que o olhar se deleita com o visível, com o real e nos absorve de forma vampirizante. Não há neste processo qualquer tipo de filtro entre nós e o outro. Tal qual uma árvore solitária, somos espectadores da paisagem. O visto é tido como certo para os nossos olhos e portanto, não há dúvida, não há questão, apenas fascínio. Diga-se que esta forma de olhar é a mais pura, a mais honesta, porque neste processo a candura e o acreditar são incondicionais, são paixão.
É então que no decorrer da vida nos apercebemos da virtualidade do mundo que observávamos. Os acontecimentos giram à nossa volta e o que tínhamos como puro e belo, afinal não é real, ou então, é real mas é podre. Apercebemo-nos que estamos perdidos, que não há uma terceira perna que permita equilibrar a mesa da verdade. Vemos o real e a sombra em simultâneo e a dúvida nasce (em quem acreditar?). Se por um lado a dúvida nos defende daquilo que observamos ou sentimos, por outro, ela funciona em nós como um véu, uma cortina translúcida que nos separa do real. Duvidar obriga-nos a ganhar distância em relação ao que vemos, quebra o imediatismo entre olhar e sentir, porque questiona a verdade entre o que se vê e o que se sente. Para que a desilusão, nascida da prova de que a dúvida era correcta não nos atinja, começamos a ver o mundo por uma janela escondendo-nos atrás de vidros protectores olhando covardemente o que se passa lá fora. Já não há crença no olhar e no sentir. Somos nesta fase da vida qualquer coisa e muitas vezes aquilo que o mundo quer que sejamos.
A subida da escada é a fase crucial. É a peneira que separa o fraco do forte. Subi-la significa escolher ver directamente o real, desistir dela é a atitude confortável e despojada de carácter, de quem covardemente se mantém passivo olhando atrás de uma janela. Infelizmente há quem nunca decida subir a escada e, não há coisa mais triste do que olhar um velho que teve medo de fazer o caminho. Mas, deleitemo-nos com os que optam por subir. Há quase como que um revigorar no olhar. A dúvida continua mas a vontade de guardar o mundo é superior. Volta-se a querer olhar o céu, não com o fascínio ingénuo das crianças mas com vontade de o perceber e do o guardar assim, azul. É como se resgatasse de novo o tempo e toda a vida fosse um filme e todo o olhar fosse contemplação. Sentimos que o coração se recompôs e que o olhar já não é medo nem dor, é vida. E porque a dúvida quando nasce em nós persiste eternamente voltamos a olhar a janela e sabemos que por detrás dela estão aqueles que decidiram não subir a escada e sabemos que se protegem e sabemos que nós não estamos protegidos e sabemos que tudo isso não importa nada, porque, deste lado há mais luz e o que vemos é a VIDA reflectida.
Encontrámo-nos de novo, ou mais precisamente, descobrimos O OUTRO LADO de nós. A silhueta agora desenhada no chão é a nossa e então sabemos que somos mais concisos e enigmáticos do que imaginávamos ser. Sabemos que possuímos a tal força do touro preto e que o funcionamento obscuro e silencioso é o mecanismo da nossa alma. Como uma sombra, somos sempre o outro lado, o lado que desconfia e duvida, o lado que tem medo e que cai, mas somos nós também. O mais importante é manter o equilíbrio entre o que se rouba do mundo e o que dele guardamos em nós.
Para quê fecharmos a porta? Para quê resguardarmo-nos atrás de uma janela que o máximo que nos oferece é uma paisagem recortada da realidade? Apesar do medo e do olhar do outro há sempre a esperança viva de fotografarmos o mundo da nossa maneira, de reflectirmos sobre ele procurando sempre o outro lado das coisas. No fundo há sempre alguém com uma sensibilidade parecida com a nossa e que no meio da confusão busca a verdade em si, que procura a robustez e a simplicidade das catedrais românicas no alto das cidades e que guarda do mundo o mesmo que guardamos nós.

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

LADO B (1)


fim do LADO A

o LADO A do vinil Sincronicidade chegou ao fim, resolvemos deixar a onda Retro FM e virar o disco para coisas mais actuais... em jeito de conclusão aqui fica o resumo do alinhamento:
LADO A

Confessionário (10)

Tenho para mim que os sentimentos verdadeiros, assim como as verdadeiras emoções e o verdadeiro talento são atemporais, não respeitam nem possuem a lógica abstracta do tempo, são absolutamente independentes. O seu real valor é incalculável, é impossível de medir. Não entra o factor ‘opinião’ na sua avaliação, quantificá-los, medi-los, postulá-los são rótulos demasiadamente redutores que anulam por completo a sua grandeza e verdade essencial. É como se de repente nos fosse pedido que avaliássemos ou postulássemos sobre a Biblioteca Laurenziana, ou sobre o baú deixado pelo Fernando Pessoa… não tenho dúvidas que o resultado ficaria aquém da milésima parte da sua grandeza e verdadeira dimensão. Muitos tentaram enquadrar, definir, quantificar… uma série de acções mecânicas sem qualquer significado… tudo em vão. É impossível medir a verdade, minha amiga! É impossível pesá-la, discuti-la ou quantificá-la… ela é de outra ordem e de outra natureza, é uma matéria mais próxima dos deuses do que dos homens. Só um coração livre poderá sentir o seu valor, porque só num coração livre ela faz algum sentido. O resto é uma perda de tempo ao qual devemos dar a proporção certa: matéria estéril sem qualquer importância.

coisas bonitas que apanhei por lá e resolvi coleccionar (2)

quarta-feira, fevereiro 22, 2006