(exclui-se à partida o preto e o branco)
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“Vénus et les Grâces offrant des présents à une jeune fille”, fresco 1484(?), Sandro Botticelli
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Séries: confessionário
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Séries: confessionário
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Séries: Na estante
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Séries: confessionário
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Séries: sublinhado
Elegia multipla
V
Não posso ouvir cantar tão friamente. Cantam
sobre a minha vida.
Trouxeram a taciturna pureza das grandes noites
do mundo.
Do antigo elemento do silêncio subiu essa canção
devastadora. Oh feroz mundo puro,
oh vida incomparável. Cantam, cantam.
Abro os olhos debaixo das águas silenciosas,
e vejo que a minha lembrança é mais remota
que tudo. Cantam friamente.
Não posso ouvir cantar.
Se disserem: a tua vida é uma roseira. Vê
como bebe no anónimo da estação.
O sangue escorrega por ti quando é altura de rosas.
Ouve: não te maravilha
a subtileza dos espinhos e folhas pequeníssimas?
- Se disserem alguma coisa, eu ficaria rico
de um nome extremo.
Não cantem, não floresçam.
Não posso sentir encher-se assim a vida
como uma canção fria e uma roseira
espalhada em mim.
Pode ser que eu fosse ilesa esta época do ano,
e minha existência de repente se tomasse
por todo esse fervor.
Vejo minha grande agudeza escoar-se até à maturidade
confluente
de um minuto de Verão. – Estaria eu
completo para a morte?
Não, não cantem essa lembrança de tudo.
Nem roseira na sangrenta delicadeza
da carne, nem o Verão com seus
símbolos de feroz plenitude.
Gostaria de pensar cada um dos meus dedos,
esta cítara descida dentro da obra.
Toda a tristeza como uma vida admirável
enchendo a eternidade.
As frias canções despovoam-me, e as roseiras
tornam desavindas as rosas
recuadas. Ouve: na tristeza do estio enorme
alui-se-me o uno sangue.
Eu próprio poderia cantar um nome masculino,
a minha vida inteira
tão forte e impura, tão preenchida pelo quente silêncio
do que se não sabe.
Não se canta e floresce. Ninguém
amadurece no meio da sua vida.
Toca-se lentamente uma parte suspensa do corpo,
e a alta tristeza purifica os dedos.
Porque um homem não é uma canção fria ou
uma roseira. Não
é um fruto como entre folhas inspiradoras.
Um homem vive uma profunda eternidade que se fecha
sobre ele, mas onde o corpo
arde para além de qualquer símbolo, sem alma e puro
como um sacrifício antigo.
- Por sobre frias canções e roseiras aterradoras,
minha carne ligada nutre o silêncio maravilhoso
de uma grande vida.
Pode ser que tudo esteja bem no plural
de um mundo intenso. Mas
o amor é outro poder, a carne
vive de sua absorta permanência. Esta vida
de que falo
não se escoa, não alimenta os superlativos
diários. É única
e perene sobre a escondida fluência
dos movimentos.
- Uma roseira, mesmo
incomparável, cobre tudo com a sua distracção vermelha.
Por detrás da noite de pendidas
rosas, a carne é triste e perfeita
como um livro.
Herberto Helder
Ou o Poema Contínuo (Assírio & Alvim)
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BOLERO
Para a Lia
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Séries: sublinhado
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Séries: sublinhado
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Séries: O diário de G.H
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Séries: confessionário
"Entre todos estes quadros, a Hélène Fourment nua do Museu de Viena nos persegue, por razões mais pictóricas do que eróticas. Muitos pintores haviam mostrado sem véus a sua mulher ou amante, mas os motivos e as decorações mitológicas (como muitas vezes no próprio Rubens) colocavam essas deusas num Olímpo de convenção. Sobretudo, nos mestres do desenho e do contorno, a linha ideal à volta de um corpo nu vestia-o, por assim dizer. Desta vez, trata-se menos de um corpo do que de carne. Esta mulher quente e húmida parece sair de um banho ou de uma alcova. O seu gesto é o de uma pessoa que, ouvindo bater à porta, deita ao acaso a primeira coisa sobre os ombros, mas o grande estilo do pintor evita-lhe qualquer afectação de pudor, provocante ou insípida. É preciso olhá-la vinte vezes e jogar o velho jogo que consiste em reencontrar em toda a obra de arte os motivos eternos para nos apercebermos de que a pose dos braços é, com uma ligeira modificação, a da Vénus de Médicis, mas esta forma abundante não é nem marmórea nem clássica. A pele com que se cobre e de que o seu corpo extravasa por todos os lados dá-lhe antes o ar de uma ursa mitológica. Os seios um pouco moles, como cabaças, as pregas do torso, o ventre talvez arredondado por um começo de gravidez, os joelhos com covas, lembram a turgidez da massa que levanta. Baudelaire pensava sem dúvida nela quando evocava, a propósito das mulheres de Rubens, «o travesseiro de carne fresca», e o tecido feminino «onde a vida aflui»; parece com efeito que bastaria pousar o dedo nesta pele para nela fazer surgir uma mancha cor-de-rosa. Rubens nunca se separou desta tela que só depois da sua morte passou para as colecções dos Habsburgos; talvez experimentasse algum escrúpulo em ter feito de rei Candaules. Este só exibiu a mulher a um amigo íntimo: Hélène em Viena pertence, de ora em diante, ao primeiro turista." (pág. 58)
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Séries: sublinhado
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Séries: sublinhado
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Séries: confessionário