segunda-feira, abril 10, 2006

em parêntesis, já que este blogue não quer nem pretende debruçar-se sobre política

da blogosfera

... estou encantado com o blogue do Luís Mourão, Manchas, e definitivamente agarrado a uma série que há por lá, intitulada "A Leitora, no seu infinito particular"...

O Outro Lado (7)

sublinhado (23)

"Admirável também nunca a ter ouvido dizer mal de ninguém, nem bem, de resto, por simples conveniência social. Nunca lhe surpreendeu na voz ponta de irritação ou troça, nem mesmo de solicitude excessiva; fala com as crianças sem entoações infantis. Admirável sobretudo para um homem que cedo me ensinará que só se pode discutir inteligentemente com amigos e sobre subtilezas, a total ausência de argúcias inúteis, de contradições sempre tão obtusas como um prefeito de colégio contradito, do azedume que sai num Sim, mas, ou num Mas não lhe parece que...? Também não há recusa nos seus silêncios." (pág. 89)
O quê? A Eternidade (Difel), Marguerite Yourcenar

sexta-feira, abril 07, 2006

they laugh at me 'cause the way I talk... (1)

...CONTINUA...
título e sublinhados meus, vale a pena ler com atenção, trata-se de uma das melhores peças de humor que li ultimamente

quinta-feira, abril 06, 2006

sublinhado (22)

"Um dos milagres da juventude é a redescoberta sem modelos, sem confidências segredadas, sem leituras proibidas, por causa de um profundo conhecimento carnal que existe em todos nós enquanto não nos ensinam a temê-lo ou a negá-lo, de todos os segredos que o erotismo crê possuir e de que a maior parte das vezes só possui uma imitação." (pág. 57)

O quê? A Eternidade (Difel), Marguerite Yourcenar

quarta-feira, abril 05, 2006

LADO B (7)


"Entre Memórias" (ou, em sub-título, o post que ninguém vai ler)

A desmaterialização do eu, que Yourcenar estabelece no texto anterior, relativamente à sua própria existência, remete-nos imediatamente para um dos personagens mais extraordinários da sua obra, Adriano. Como no livro de memórias do imperador, em que assistimos à debandada da alma (“a bela e antiga metáfora”) sobrevoando o grande mausoléu rodeado de ciprestes apontados à eternidade, em “Arquivos do Norte”, Yourcenar, vê-se ela própria como a criança destinada a conhecer os tumultos do séc. XX. O distanciamento do corpo, o olhar exterior como se nos analisássemos tal qual um personagem, é, no meu entender, um testemunho de humildade e mais ainda, um reconhecimento que só desse modo e apelando aos deuses da imparcialidade, pode um ser humano entregar-se à aventura de se conhecer a si próprio.
Depois de ter lido “Souvenir Pieux” e “Arquivos do Norte”, dedicados respectivamente às famílias materna e paterna da autora, cresce-nos a vontade de saber como terá interpretado o seu próprio século; será que Auschwitz ou Hiroxima lhe riscaram a alma, ou lhe terão causado uma leve indignação como a Comuna ao seu avô Michel-Charles, ou o distanciamento ao caso Dreyfus do seu pai Michel? Talvez o terceiro volume nos ofereça uma resposta justa, anunciada pelo realismo (que alguns podem adjectivar de pessimista, mas que eu não considero) dos últimos parágrafos de “Arquivos do Norte” e pela “advertência” deixada ao seu pai e a Proust no início de “O quê? A Eternidade”, demasiado envolvidos pelo entusiasmo tecnológico e as maravilhas do seu tempo. (“Proust e ele próprio não vêem muito mais longe. Todos cometem o erro de pensar nas satisfações do presente e nos lucros de amanhã, nunca em depois de amanhã ou no século que vem. Marcel não previra a morte que chove do céu, Coventry, Dresden, Hiroxima, nem os aniquilamentos que estão para vir no que ainda é o nosso futuro, nem a atrição produzida em períodos de paz pelos ódios e as rivalidades das nações artificialmente aproximadas.”) Ou talvez a autora decida contornar habilmente as feridas recentes do mundo, aproveitando, ora o fascínio pela figura paterna e a sua vocação de romancista, ora o seu interesse assumido pela História (em especial o período clássico), como escapatórias possíveis à sua vida e ao seu próprio tempo… a ver vamos.
No final dos dois primeiros livros de memórias há uma característica transversal e essencial que devemos salientar e que se prende com o valor incalculável do testemunho. Muitas vezes, para não dizer, quase sempre, passamos ao lado das histórias dos nossos avós e dos nossos pais, vivemos, como Michel e Marcel, absorvidos pelas maravilhas do presente e esquecemo-nos que esse exercício retrospectivo é essencial à construção do futuro. É a base do nosso equilíbrio e do consequente equilíbrio do mundo. Enquanto avançava na leitura, dei por mim a fazer demasiadamente a mesma observação: “Mas porque é que não dediquei mais tempo aos meus avós e às suas histórias enquanto os tinha comigo? Há coisas que queria saber, e que, com a sua partida, transformaram-se em segredos eternos impossíveis de desvendar.” Como escrevi ontem na resposta ao texto da Luciana, não há vidas desinteressantes… talvez tudo se resuma exclusivamente a uma questão de querer e saber escutar.

sublinhado (21)

“A criança tem cerca de seis semana. Como a maior parte dos recém-nascidos humanos, parece um ser muito velho e que vai rejuvenescer. E, na verdade, é muito velha: quer pelo sangue e os genes ancestrais, quer pelo elemento não analisado a que, por uma bela e antiga metáfora, chamamos a alma, ela atravessou os séculos. Mas não sabe nada disso, e é melhor que assim seja. A sua cabeça está coberta por uma penugem preta como o dorso de um rato; os dedos dos punhos fechados, quando se desdobram, parecem as gavinhas delicadas das plantas; os olhos miram as coisas sem que ninguém lhas tenha definido ou nomeado: de momento é apenas ser, essência e substância indissoluvelmente ligadas numa união que vai durar sob essa forma cerca de três quartos de século, talvez mesmo mais.
Os tempos que ela vai viver serão os piores da história. Verá pelo menos duas guerras ditas mundiais e a sua sequela de outros conflitos a reacenderem-se aqui e ali, guerras nacionais e guerras civis, guerras de classes e guerras de raças e mesmo, por um anacronismo que prova que nada acaba, guerras de religiões, cada um contendo em si faúlhas suficientes para provocar a conflagração que levará tudo. A tortura, que se pensava relegada para uma pitoresca Idade Média, voltará a ser uma realidade; a pululação da humanidade desvalorizará o homem. Meios de comunicação maciços ao serviço de interesses mais ou menos camuflados farão correr sobre o mundo, com visões e barulhos quiméricos, um ópio do povo mais insidioso do que qualquer religião jamais foi acusada de espalhar. Uma falsa abundância, dissimulando uma crescente erosão dos recursos, dispensará alimentos cada vez mais adulterados e divertimentos cada vez mais gregários, panem et circenses de sociedades que se julgam livres. (…)
(…) Não faço do passado um ídolo: esta visita a algumas obscuras famílias do que é hoje o Norte de França mostrou-nos o que teríamos visto em qualquer outro lugar, quer dizer que a força e o interesse mal entendidos reinaram quase sempre. Em todos os tempos o homem fez algum bem e muito mal; os meios de acção mecânicos e químicos que ele recentemente se outorgou e a progressão quase geométrica dos seus efeitos tornaram esse mal irreversível; por outro lado, erros e crimes que eram sem importância enquanto a humanidade não passava sobre a Terra de uma espécie como qualquer outra tornaram-se mortais desde que o homem, tomado de loucura, se crê todo-poderoso.” (págs. 247 e 248)

Arquivos do Norte (Difel), Marguerite Yourcenar

fui pelo Carlos [Pérola e Azul]... de todas as sugestões é a que reúne melhores condições: são cores que permitem uma leitura fácil, dão mais vida ao blogue (que era o pretendido) e combinam uma certa harmonia... Lu, o fucsia e o vermelho penso que são fortes demais, mas podemos tentar, o amarelo é utilizado em imensos blogues e o cinza é muito próximo da cor que tínhamos e, portanto, tristonho também... espero ter acertado...

terça-feira, abril 04, 2006

O Outro Lado (6)

quanto à cor... bem, a Lu sugeriu fucsia ou vermelho... talvez sejam cores que não facilitam a leitura... houve a sugestão do Carlos para o pérola ou os amarelos claros da Fátima e da Cláudia (que se aproximam das cores de outros blogues e com esta crise dos templates nunca se sabe!)... o Henrique sugeriu cinzento, cor próxima da actual e que não alteraria em muito o aspecto do blogue... sinceramente não sei, que dizem?

Resposta ao post anterior

Não tenho a certeza se podemos estabelecer a equivalência entre os blogues ditos literários, com os folhetins do séc. XIX... Talvez existam pontos comuns que nos levem a pretender isso, mas creio que a principal diferença (e talvez significativa), que se prende com a exigência e qualidade dos escritos, fique, no "folhetim" contemporâneo, aquém das expectativas...
A celeridade do processo de publicação on-line é inimiga do estudo, da investigação, do comprometimento... é, na sua essência, imediata, e portanto, fugaz. Gosto de olhar o fenómeno de publicação on-line (os blogues) como uma espécie de caderno de notas, onde, diariamente, se vai gravando aquilo que do quotidiano seduz a nossa sensibilidade e aprecio sobretudo a multiplicidade e heterogeneidade das abordagens, que, perto ou distantes das nossas, não deixam de ser um testemunho valioso da individualidade e experiência intransmissível de cada um. (Nem por acaso, pensei escrever hoje uma espécie de remate à leitura que ando a fazer de “Arquivos do Norte” da Yourcenar, cuja reflexão incidia exactamente na preciosidade do testemunho de cada ser humano. A sensação que fico depois de ler o livro, é de que não existem vidas desinteressantes… mas voltarei a esse tema mais tarde).
Enfim, e para concluir o assunto, considerar os blogues ditos literários equivalentes dos folhetins do séc. XIX, talvez seja uma comparação ambiciosa pelas razões que já apresentei. Penso que os principais contributos desta nova forma de publicação residem essencialmente na democratização dos meios e consequente heterogeneidade de abordagens e na noção de tempo real em que tudo acontece, onde quem publica pode receber imediatamente o feedback do público. Para terminar, é essa iminente celeridade a principal inimiga da qualidade dos conteúdos publicados… um blogue não é nem deve tornar-se um substituto dos livros, cada um possui o seu papel específico e não invalida a presença do outro.

segunda-feira, abril 03, 2006

A volta do romance a prestação

Relendo a matéria abaixo, ficou-me a seguinte indagação?
Os blogs ditos literários não estariam cumprindo a antiga função dos folhetins do séc. XIX?
Artistas comprometidos com a palavra estão oferecendo seu ofício em parcelas cotidianas.
Muitas são as razões. De um lado, o perverso, cito a dificuldade de publicar - maior pesadelo de 10 entre 10 escritores sem visibilidade; de outro está a democratização do livro e o consequente acesso à literatura, uma vez que os livros custam, pelo menos, 10 vezes mais que os folhetins.

Vítor, eu sei que é de uma presunção sem par, mas as séries esquissos, missivas, confessionário (e outas tantas que existem por aí) não seriam exemplos dessa "escrita aos pedaços" ?

Isso fez-me lembrar do dito que temos por cá: amor aos pedaços.

As doçuras e delicadezas da vida acontecem assim, aos bocados: os vinhos, os sorvemos aos goles; as tortas mais deliciosas são servidas em pequenas fatias; a refeição requintada em pequenas porções; o amor em doses diárias...

Ah, sim, é bom quando tudo chega numa só tacada, nos arrebatando aos céus. Contudo, essa tacada não tem seu fim em si. Talvez por isso queiramos repetir ao longo da vida os momentos de felicidade... ah, mas isso já é uma outra conversa.
O romance-folhetim surgiu no século XIX, no rodapé das páginas de jornal, com um pontilhado indicando a linha para ser recortada. Obras de autores como Balzac, Flaubert e Victor Hugo foram assim apresentadas para seus leitores: em capítulos. Criado na França, o formato foi uma forma de facilitar o acesso ao livro. Na década de 1830, o modelo foi importado pelo Brasil, primeiro traduzindo os franceses, depois publicando autores como Teixeira e Sousa, Joaquim Manuel de Macedo, depois José de Alencar e Machado de Assis, chegando a Nelson Rodrigues e Orígenes Lessa.
Mas essa prosa em capítulos, extremamente popular em fins do século XIX, foi gradualmente sendo esquecida. No livro Os romances em folhetins no Brasil (1830 à atualidade), José Ramos Tinhorão faz o primeiro levantamento dos folhetins publicados de 1830 a 1994. Numericamente, pode-se ter uma idéia desse decréscimo: de 1839 a 1900, foram lançados 198 folhetins. De 1950 a 1994, apenas 36.
O jornal literário curitibano Rascunho resolveu recuperar o romance-folhetim. Desde julho, vem publicando, mês a mês, capítulos de O inglês do cemitério dos ingleses, do escritor Fernando Monteiro. Segundo o autor, O inglês "é o fantasma do folhetim literário, voltando para puxar o pé dos leitores ainda interessados na alma". Monteiro já publicou outros livros, e é a primeira vez que escreve por parcelas. "É mais ou menos imprevisível o que pode acontecer com o tecido elástico de um romance-folhetim", diz. No final, pretende fazer como Flaubert com Madame Bovary, ou Machado de Assis com Quincas Borba, e lançar o romance na íntegra, em livro.

sábado, abril 01, 2006

quinta-feira, março 30, 2006

Espasmo # 11

Após o salto, uma onda imensa engoliu-me e arrastou-me para as profundezas. Não lutei, não resisti. Num confronto direto, é preciso reconhecer quem é mais forte.
Aceitar que sou menor do que a onda – e a minha conseqüente imobilidade diante do fato – angustia-me. Durmo mal, tenho crises de choro e uma sensação de queda contínua afeta meu equilíbrio. Sinto tudo isso na calada da noite, porque quando o sol aparece, na primeira hora da manhã, sou toda serenidade.
Eu não deixaria que as mesmas águas que me purificaram um dia, e agora me tragam sem piedade, soubessem do meu desespero.

LADO B (6)


para onde vai a primavera?

Não há muito para dizer. A cidade continuava majestosa no seu fervilhar constante. Sim, porque nunca se rendeu completamente ao poder, e no meio de tanta sumptuosidade o povo foi sempre quem lhe traçou o destino. Sentia-se no metro a abarrotar de gente como nunca vi, que a excitação pulava nas ruas enquanto o magrebino metia as mãos nos bolsos dos turistas à procura de um não sei quê que lhe matasse o vício. Mesmo em tempo de chuva, a luz não deixa de brilhar, a chama não apaga, e Saint-Lazare continua lá, a confirmar os insólitos de Queneau.
Mudemos a música como se entregássemos um cordeiro ao sol, porque sinceramente, esta chuva parda, este longo céu cinzento cansam-me de morte…

ps. perguntando-me a cada instante para onde vai a primavera.

O Outro Lado (5)

quarta-feira, março 29, 2006

Confessionário (16)

E ainda bem que a vida te floresce quando sentes o colo daqueles que amas. Uma vez disseste-me que uma das tuas qualidades era nunca desistir… eu não poderia estar mais de acordo. Lembras-te do processo de transformação que te falei? Lembras-te de te dizer que a sorte ou o azar são exclusivamente matéria-prima em estado bruto, rochas prontas a ser delapidadas escrupulosamente como se tivéssemos mãos de escultor? Então, minha amiga, segue o caminho do mago, segue a sua loucura e o seu fascínio. O que o distingue dos outros não é mais do que a capacidade de sonhar…
Sabes, enquanto andava por lá lembrei-me de ti várias vezes. Partilhei com quem amo o sonho de nos reunirmos os quatro no mesmo café de Montmartre. Na hora sorrimos como se sentíssemos o futuro caminhar até nós. Depois, enquanto permitia que os rostos delicados de Botticelli me tranquilizassem a alma, sentia-te extasiada na ala oposta do museu, encantada com o mistério e a sensualidade de Afrodite, decifrando a cada curva do torso, se a Vénus (como lhe chamam), não é uma declinação da Ártemis grega ou da Diana romana. Tenho a certeza absoluta que, naquele momento, estava a escrever o futuro.
Como lembrança, deixo-te este pedaço de sonho:

“Vénus et les Grâces offrant des présents à une jeune fille”, fresco 1484(?), Sandro Botticelli

[Confessionário (15)]

quarta-feira, março 22, 2006

Confessionário (15)

Vítor, tens acompanhado o longo intervalo de (no tempo e espaço) mudez e silêncio. Conheces-me tão bem que não preciso justificar a ausência das minhas palavras.
Há muitos hábitos aos quais nos acostumamos. Fomos socializados de uma maneira tão violenta que até quando somos capazes de nos livrar dos costumes e nos apropriarmos da nossa liberdade criativa, nos sentimos subtraídos de algo.
Jung tenta explicar esse psquismo através dos símbolos, do mito, da religião. Ele afirma que somos capazes de chegar à individuação sem nos sentirmos em dívida com nossa “herança psíquica”.
Não, meu querido. Não acredito que amar seja um desses hábitos (embora muita gente consiga esse absurdo!). Amar é um exercício fecundo de criação e recriação. É preciso renovar-se para amar e ser amado.
Ontem, após reler tantas vezes tua ‘carta’, eu me permiti chorar, me permiti ser misérrima, me permiti a fraqueza, o cansaço. Nesse pranto, busquei o colo daquele que tanto amo, daquele que não usa minha fraqueza para mostrar-se forte.
Vítor, ontem conheci a face de Ágape. E isso, meu amigo, foi um encontro numinoso. Há quem viva toda existência e não passe por essa experiência libertadora/libertária.
Cheguei a casa reconfortada. Tomei um banho e senti novamente a necessidade de me expressar. Sou melhor quando as palavras me cercam. Existe um alento maravilhoso nessa relação.
No caminho de volta, ouvi V. sussurrando aos meus ouvidos e isso foi como voltar ao lar depois de uma longa viagem.
Ainda não sei o que V. quer ao relatar-me suas incursões pessoais pelo universo literário que tanto me seduz. A única certeza que tenho é que ela alinhava os fios da minha vida.

Na estante (2)

Ágape
“Você será amado no dia em que puder mostrar sua fraqueza sem que o outro se sirva dela pra afirmar sua força”. Esse amor é o mais raro, o mais precioso, o mais milagroso. Se você recua um passo, ele recua dois. Simplesmente para lhe dar mais lugar, para não esbarrar em você, para não invadir, não oprimir, para lhe deixar um pouco mais de espaço, de liberdade, de ar, e tanto mais quanto mais fraco o sentir, para não lhe impor sua potência, nem mesmo sua alegria ou seu amor, para não ocupar todo o espaço disponível, todo o ser disponível.

“Amor” in Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, André Comte-Sponville.

- (...) Mas os homens (os homens, quero dizer, os homens e as mulheres) casam-se por amor ou por ser costume? Em suma: nós amamo-nos, Maria dos Remédios, porque nos amamos do fundo da alma ou porque amar é um costume da nossa civilização? Isto é importante e não encontro resposta. Amo-te, sofreria muito se não gostasses de mim, mas... Sofria porque sem ou porque é hábito sofrer.

Bolor, Augusto Abelaira.

vou ali e já volto...

...Lu, deixo-te sozinha com a lida da casa... fica descansada, não vou demorar!...
...prometo que trago um presente... um souvenir especial da cidade que tanto amas...
até breve!

Confessionário (14)

Finalmente entendemos a essência de uma confissão. Foram necessários quase três meses para podermos falar assim, abertamente, sem medo nem pudor. Há muito que ambicionava este strip-tease da alma; a voz sussurrando ao ouvido, o segredo nu abrindo a porta. Não há que temer, minha amiga, não há que temer. Por mais de uma vez te disse que esta folha, este papel, só tem significado para nós. Então, deixemos que a caneta pouse e a mão se encarregue de a fazer deslizar… deixemos que ela traduza o pulsar do sangue sem que este tenha sido filtrado pelo cérebro. Lu, cansei-me do gosto dos outros, dos olhos dos outros, do cheiro dos outros… em direcção a norte há um vento que nos acompanha e uma pedra para nos lembrar que é de fé a liberdade. Não, não estás sozinha.

terça-feira, março 21, 2006

LADO B (5)


sublinhado (20)

"Quanto mais eu própria envelheço, mais constato que a infância e a velhice não só se tocam mas ainda são os dois estados mais profundos que nos é dado viver. A essência de um ser revela-se neles, antes ou depois dos esforços, das aspirações, das ambições da vida. A cara lisa de Michel criança e a cara burilada do velho Michel parecem-se, o que nem sempre era o caso das caras entre a juventude e a idade madura. Os olhos das crianças e os dos velhos olham com a tranquila candura de quem ainda não entrou no baile de máscaras ou de quem já dele saiu. E todo o intervalo parece um vão tumulto, uma agitação no vazio, um caos inútil pelo qual nos perguntamos por que tivemos que passar." (pág. 138)
Arquivos do Norte (Difel), Marguerite Yourcenar

Este parágrafo exerce sobre mim a força de uma profecia. Trata-se de um raciocínio que eu próprio desenvolvo com demasiada frequência. Há pessoas que sentem não pertencer a um lugar, a uma família, a um meio social… eu sinto não pertencer a um tempo, eu sinto não pertencer exactamente a esse tempo que separa a infância da velhice. Não há uma explicação, pelo menos que eu encontre, a não ser a falta de perícia em lidar com as regras do jogo dessa (ou nesta) fase da vida. Muitas vezes consigo compreender a mágoa e a revolta de um incapacitado, consigo medir a dor crónica que o consome, é a mesma dor que sinto em relação a esse intervalo que separa a pele lisa da pele enrugada, é a mesma incapacidade, a mesma paralisia.
Independentemente dos episódios da minha infância nunca me senti estrangeiro enquanto criança. Também não me sinto longe dos velhos, sempre estabeleci com eles uma espécie de dialecto secreto… as suas palavras entram-me com a mesma magia da luz que me limpa os olhos. Já em relação a este intervalo, a esta idade intermediária e comprida, “é um caos inútil” pelo qual me pergunto por que tenho de passar. Talvez eu não tenha a elegância necessária a um baile de máscaras.

Dia Mundial da Poesia

Elegia multipla

V

Não posso ouvir cantar tão friamente. Cantam
sobre a minha vida.
Trouxeram a taciturna pureza das grandes noites
do mundo.
Do antigo elemento do silêncio subiu essa canção
devastadora. Oh feroz mundo puro,
oh vida incomparável. Cantam, cantam.
Abro os olhos debaixo das águas silenciosas,
e vejo que a minha lembrança é mais remota
que tudo. Cantam friamente.
Não posso ouvir cantar.

Se disserem: a tua vida é uma roseira. Vê
como bebe no anónimo da estação.
O sangue escorrega por ti quando é altura de rosas.
Ouve: não te maravilha
a subtileza dos espinhos e folhas pequeníssimas?
- Se disserem alguma coisa, eu ficaria rico
de um nome extremo.
Não cantem, não floresçam.
Não posso sentir encher-se assim a vida
como uma canção fria e uma roseira
espalhada em mim.

Pode ser que eu fosse ilesa esta época do ano,
e minha existência de repente se tomasse
por todo esse fervor.
Vejo minha grande agudeza escoar-se até à maturidade
confluente
de um minuto de Verão. – Estaria eu
completo para a morte?
Não, não cantem essa lembrança de tudo.
Nem roseira na sangrenta delicadeza
da carne, nem o Verão com seus
símbolos de feroz plenitude.

Gostaria de pensar cada um dos meus dedos,
esta cítara descida dentro da obra.
Toda a tristeza como uma vida admirável
enchendo a eternidade.
As frias canções despovoam-me, e as roseiras
tornam desavindas as rosas
recuadas. Ouve: na tristeza do estio enorme
alui-se-me o uno sangue.
Eu próprio poderia cantar um nome masculino,
a minha vida inteira
tão forte e impura, tão preenchida pelo quente silêncio
do que se não sabe.

Não se canta e floresce. Ninguém
amadurece no meio da sua vida.
Toca-se lentamente uma parte suspensa do corpo,
e a alta tristeza purifica os dedos.
Porque um homem não é uma canção fria ou
uma roseira. Não
é um fruto como entre folhas inspiradoras.
Um homem vive uma profunda eternidade que se fecha
sobre ele, mas onde o corpo
arde para além de qualquer símbolo, sem alma e puro
como um sacrifício antigo.

- Por sobre frias canções e roseiras aterradoras,
minha carne ligada nutre o silêncio maravilhoso
de uma grande vida.

Pode ser que tudo esteja bem no plural
de um mundo intenso. Mas
o amor é outro poder, a carne
vive de sua absorta permanência. Esta vida
de que falo
não se escoa, não alimenta os superlativos
diários. É única
e perene sobre a escondida fluência
dos movimentos.

- Uma roseira, mesmo
incomparável, cobre tudo com a sua distracção vermelha.
Por detrás da noite de pendidas
rosas, a carne é triste e perfeita
como um livro.

Herberto Helder
Ou o Poema Contínuo (Assírio & Alvim)

foi-me assistido o direito de oferecer um bolero...

BOLERO
Para a Lia


“Um lugar deve existir
Uma espécie de bazar
Onde os sonhos extraviados
Vão parar
Entre escadas que fogem dos pés
E relógios que rodam pra trás
Se eu pudesse encontrar meu amor
Não voltavaJamais”
[1]

Hoje, pelo menos hoje, não aceitarei o blefe.
Rasgarei as páginas do diário de nossa história que o tempo escreveu com seu lápis impreciso e que ele mesmo – o tempo – se encarregou de apagar.
Queimarei todas as cartas. Não me furtarei a essa orgia.
Começarei pelas cartas de amor, repletas de palavras quentes e ternas que celebraram o nosso encontro, nossa paz, nosso sexo.
Depois, passarei para as cartas de ódio, venosas, pesadas, objetos cortantes que anunciaram o nosso inferno, nosso tédio.
Não me renderei à tristeza, hoje não.
Fora bossa-nova, minha fossa, solidão!
Procurarei no armário aquele vestido vermelho, lembra? Faz um esforço. Isso, esse mesmo. O vestido “indecente, de decote profundo”, profundamente vaporoso. Ainda fica muito bem em mim; evidencia minhas pernas intermináveis, exibe meu colo, anuncia meus seios.
Abrirei as janelas e portas, usarei meu mais caro perfume, estamparei aquele velho sorriso de antigamente (guardei alguns de relíquia para contar histórias, ocultar segredos ou simplesmente me fazer lembrar de quem um dia eu fui).
Espanarei o pó dos móveis e da memória, e o sol varrerá o bolor que entranhou nos poros, rugas e frestas dessa coisa que ousei chamar vida.
Encherei a casa de amigos, dos meus amigos. Todos aqueles “imprestáveis, imorais e amorais”, docemente loucos e que tornam a vida plena de alegria e sentido.
Farei ainda um último e grande sacrifício: me desfarei das músicas melancólicas e comportadas e liberarei, em volume vergonhoso, as vozes melodiosas e em tom de luxúria que abafei em embrulhos no fundo do baú.
Dançarei lascivamente, sorrirei alto, beberei champanhe, me embriagarei, perderei os limites, serei despudorada, gesticularei bastante, assumirei minhas asas e voltarei a voar.
Hoje, pelo menos hoje... enquanto não aceito o blefe, não me furto à orgia, não me rendo à tristeza.

Luciana Melo – 13/05/04 (sim, a mesma, a maravilhosa co-autora deste blogue)
[1] A moça do sonho – Chico Buarque/ Edu Lobo.