domingo, maio 07, 2006
sublinhado (30)
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Vítor Leal Barros
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Séries: sublinhado
sábado, maio 06, 2006
quinta-feira, maio 04, 2006
Confessionário (20)
Como sinto-me reconfortada por saber que ainda posso juntar letras e construir discursos não lineares! Como é bom poder voltar a esse espaço e dividir contigo experiências variadas.
Ainda estou longe de sair do olho do furacão. Ainda sinto náuseas fortes pelo rodopiar vertiginoso. Estou no ápice dos círculos e tudo é um constante 360°.
Abandonei-me à mercê dos ventos, Vítor. Parei de tentar escapar, de fazer esforços. Simplesmente entreguei-me ao balé do ar. Leva-me, leva-me, leva-me onde quiseres, digo eu. E subitamente parei de sofrer demais, de me cansar demais, preocupar-me demais... eu sou e isso me basta.
Ao ouvir tua última confissão senti minha garganta estreitar-se e doer.
Lembrei-me que em uma de nossas cartas, falei da receptividade e compreensão que tens sobre a minha pessoa e acabei externalizando isso com algo do tipo: como alguém tão mais novo blá blá blá.
Conheces-me tão bem, Vítor! Minha referência a este fato é uma admiração em ao uma crítica porque a idade cronológica pode ser uma tremenda armadilha.
Há pessoas que nunca crescem, jamais serão contemporâneas de seu tempo; teimam em ser menos, em se infantilizar. Não há nada mais ridículo do que uma pessoa adulta que age como se fosse um bebê.
Recusar-se a aceitar o tempo é recusar-se a viver e eu quero tudo da vida, Vítor. Quero reter nas mãos o sabor de todas as idades. Sim, quero conservar a juventude, mas de outra forma.
Quero uma mente jovem, um espírito inquebrantável, uma alegria pueril, a esperança, mas isso não exclui a experiência de viver as fases, todas elas.
Desprezar a experiência de alguém – tenha ele 20 ou 80 anos – é negar sua capacidade criadora.
Estou concluindo a leitura de Todos os homens são mortais, da Simone de Beauvoir. Os livros nos escolhem, meu amigo e ler este livro no momento dessa conversa é uma dádiva maravilhosa!
O argumento do livro não é novo nem criativo. Simone relata a vida do imortal conde Fosca que se recusou a aceitar o tempo e extrair o melhor dele. Sua arrogância e inexperiência fizeram que desejasse a imortalidade. Tanto fez que conseguiu e o que deveria ser um dom tornou-se maldição. Viu tudo e todos passarem e só ele ficou. A vida tornou-se monótona e sem atrativos, uma vez que não tinha mais expectativas. Ele sempre sabia como as coisas seriam. O nascer e o pôr-do-sol eram-lhe maçantes. O amor uma fraqueza, não havia mistérios nem novidades. Essa sucessão interminável das horas era pesada demais.
Sabe, Vítor, fico imaginando um mundo sem poesia, palavras, romance, crianças... mesmo nas maiores adversidades há uma razão para se viver, para prosseguir.
Eu insisto, meu amigo. Eu insisto em ser feliz em todas as idades, mas sem pensar muito nisso.
Não pense demais nos rótulos que tentam nos definir, eles são sempre muito menos do que nós. Os potes são menores do que nosso tamanho, oprimem nossa alma imensa e livre e freqüentemente nos tornam infelizes.
Que venham os furacões, Vítor!
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Séries: confessionário
O diário de G.H (6)
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Séries: O diário de G.H
Confessionário (19)
Espero uma resposta tua.
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Séries: confessionário
nem de propósito...
Não: não me falem assim na miséria, nos pobres,
na liberdade.
Se a miséria e a pobreza
fossem o vómito que deviam ser posto em palavras,
a imaginação possuída e vomitada que deviam ser,
viria a liberdade por acréscimo,
sem palavras, sem gestos, sem delíquios.
Assim, apenas se fala do que não se fala,
apenas se vive o que não se vive,
apenas liberdade é uma miséria
sem nome, sem futuro, sem memória.
E a miséria é isso: não imaginar
o nome que nome que transforma a ideia em coisa,
a coisa que transforma o ser em vida,
a vida que transforma a língua em algo mais
que o falar por falar.
Falem. Mas não comigo. E sobretudo
sejam miseráveis, e pobres, sejam escravos,
no silêncio que à linguagem faz
imaginar-se mais que o próprio mundo.
Jorge de Sena
Obras de Jorge de Sena, Antologia Poética (Asa)
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quarta-feira, maio 03, 2006
De preferência sem palavras (3)
As Palavras não existem mais, não como a roldana do mundo… não como a roldana do mundo! Morreram quando a terra caiu sobre o olhar manso de Hölderlin, quando o vento apagou de Lisboa os passos de Pessoa. As Palavras morreram no dia em que o diabo lançou tempestades sobre o deserto e impediu o mundo de sentir o cheiro ácido do suor de Rimbaud. O poema morreu com elas.
Órfãos de beleza, chamamos Palavra à tira de celofane com que envolvemos o coração. E vendemo-lo depois, higienizado, com o nome de poema. Não há Palavras desde que eliminámos o hálito da terra. Não há Palavras desde que os fumos das fábricas e dos automóveis abafaram o perfume da chuva. Não há Palavras desde que deixámos de acreditar em pactos de sangue. Sem Palavras ficámos e de palavras vamos vivendo, até ao dia em que, de novo, a Ceifeira cante.
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segunda-feira, maio 01, 2006
De preferência sem palavras (2)
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Séries: Arquitectura
Um Homem na Cidade
Agarro a madrugada
como se fosse uma criança,
uma roseira entrelaçada,
uma videira de esperança.
Tal qual o corpo da cidade
que manhã cedo ensaia a dança
de quem, por força da vontade,
de trabalhar nunca se cansa.
Vou pela rua desta lua
que no meu Tejo acendo cedo,
vou por Lisboa, maré nua
que desagua no Rossio.
Eu sou o homem da cidade
que manhã cedo acorda e canta,
e, por amar a liberdade,
com a cidade se levanta.
Vou pela estrada deslumbrada
da lua cheia de Lisboa
até que a lua apaixonada
cresce na vela da canoa.
Sou a gaivota que derrota
tudo o mau tempo no mar alto.
Eu sou o homem que transporta
a maré povo em sobressalto.
E quando agarro a madrugada,
colho a manhã como uma flor
à beira mágoa desfolhada,
um malmequer azul na cor,
o malmequer da liberdade
que bem me quer como ninguém,
o malmequer desta cidade
que me quer bem, que me quer bem.
Nas minhas mãos a madrugada
abriu a flor de Abril também,
a flor sem medo perfumada
com o aroma que o mar tem,
flor de Lisboa bem amada
que mal me quis, que me quer bem.
José Carlos Ary dos Santos
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sublinhado (29)
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domingo, abril 30, 2006
Tom Hunter & Vermeer
A preocupação e o interesse por cenas “simples” do quotidiano, tão acentuadamente estudadas e exploradas na arte contemporânea (especialmente na Fotografia), parecem ter nascido em Vermeer, onde, em vez de Madalenas, Cristos, navegadores ou políticos, desfilam mulheres e raparigas, por vezes alguns senhores, tudo gente anónima, em cenas aparentemente corriqueiras da vida quotidiana como verter água dum jarro ou ler uma carta em frente à janela. O modelo de Vermeer é sempre colectivo, é ele próprio e todos aqueles que se vêem representados na mesma cena. Em Vermeer a pintura só termina a partir do momento em que há um par de olhos a observá-la.
Tom Hunter, assim se chamava o artista exposto na National Gallery, parece ter encarnado o espírito de Vermeer, criando composições formais idênticas às do pintor holandês, transpondo-as para o nosso tempo. As suas imagens adquirem o mesmo grau de representatividade e os seus modelos são, eles próprios, um colectivo também.
Tudo isto porque na altura tive muita vontade de partilhar estas fotografias aqui no blogue, o problema foi que perdi o papel onde tinha apontado o nome do autor e a coisa acabou por cair no esquecimento. Ontem, porém, enquanto procurava na net alguns quadros de pintores flamengos, acabei por dar de caras com o dito senhor. Achei que ainda vinha a tempo de referenciá-lo aqui… a sua obra é digna de ser vista. Tom Hunter é representado pela galeria White Cube, a mesma que representa Nan Goldin e Gilbert & George. Se por acaso derem um saltinho a Londres, vale a pena a visita.
à esquerda: Tom Hunter, Woman reading a Possession Order, 1997.
à direita: Johannes Vermeer, A Girl Reading a Letter by an Open Window, 1647-9.
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Séries: artes plásticas, exposições, fotografia
sábado, abril 29, 2006
De preferência sem palavras
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opção ou capricho?
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quinta-feira, abril 27, 2006
sublinhado (28)
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quarta-feira, abril 26, 2006
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sublinhado (27)
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segunda-feira, abril 24, 2006
"Celeste e os Cravos", a poesia da Revolução
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preconceitos à parte...
Há poucos dias, quando terminava a leitura das memórias de Yourcenar, esse título, “Sinais de Fogo”, surgiu-me na cabeça como leitura a iniciar. Confesso que me senti traído pela intuição; normalmente os livros que me convidam a ser lidos, são aqueles cujas referências dadas foram boas. Preconceitos à parte, resolvi iniciar a leitura. Bastou o primeiro capítulo para me apaixonar completamente pela obra. A curiosidade pela poesia de Sena voltou com essa leitura. Conclusão, tenho a dizer que, quem me deu as piores referências sobre a obra de Jorge de Sena, nunca o leu, ou é, na melhor das hipóteses, um valente idiota.
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domingo, abril 23, 2006
sublinhado (26)
"Mas aquele gesto de quem se apaga tinha-lhe sido familiar toda a vida. (...) Um rosto vestido de humildade, diz Dante. Mas a humildade, que é a atitude que todo o homem reflectido adopta face à sua vida, é mais do que um traje." (pag. 205)
O quê? A Eternidade (Difel), Marguerite Yourcenar
Uma nota do editor Yvon Bernier diz-nos que Marguerite não levou “O quê? A Eternidade” até onde pretendia, mas que pouco deveria faltar para concluir a tarefa. Podemos supor que tentaria transportar-nos até 1939, se tanto. De qualquer forma, a escritora levou-nos até onde a força a permitiu levar-nos, ofereceu-nos o que a vida lhe deu oportunidade de oferecer, já que a morte foi a única razão para que ficássemos entre 1917 e 1918. Parece com isso ter confirmado o que escreveu no final de “Arquivos do Norte”: “Se me forem dados tempo e energia, talvez continue até 1914, até 1939, até ao momento em que a caneta me cairá das mãos.”
(1) texto de 5 de Abril de 2006
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sexta-feira, abril 21, 2006
um poema que não me canso de ler:
...DEPOIS DE ME PERGUNTAREM «O QUE É UM HOMEM?»,
RESPONDI.....
à maneira de Keats...
O meu filho mais velho visita-me
no hospital. Traz gigantescas
peónias e a enfermeira coloca-as
numa jarra de vidro, e elas inclinam-se serenas
sobre o parapeito da janela onde
parecem ter receio de contemplar a cidade
lá em baixo, coberta de fumo. Pergunta-me quando
irei para casa. Não sei.
Vê que há fios que se estendem
de mim para uma televisão onde
o pulsar do meu coração é o Sunday Spectacular.
Como é que estou?, pergunto. Examina
o écran e diz: Não sei.
É preciso um especialista para te dizer como
te encontras, mas ninguém o vai fazer.
Devo ter adormecido, e quando acordo
estou sozinho, e o velho
ao meu lado desapareceu, e o quarto
está a escurecer. Este é o domingo
que preencherá a promessa nunca feita
de todos aqueles domingos desaparecidos
em que uma sombra do canto
do olho se aproximou, enorme, hesitou e partiu,
e eu suspirei cansado pois sabia
que teria de viver aqui mais uma semana.
Finalmente um tempo e um lugar para morrer me
são dados, e até uma pequena justificação.
As flores voltaram-se agora, pois
as janelas já escureceram, e eu
vejo os seus rostos pálidos no espelho liso
do vidro. Não, não estão a chorar,
pois isto não é um vale de lágrimas.
Riem tranquilas como as flores
sempre fazem na companhia dos homens.
«Porque este é o lugar onde as almas
são feitas», murmura o seu riso.
Hei-de ler Keats outra vez, erguer-me-ei
e irei pelo mundo, sem fios e livre;
porque já não sou um filme,
não tenho um começo, um meio, um fim,
nem um fundo musical a realçar cada cena,
um guarda-roupa ou um técnico da cor.
Sou apenas um homem que se veste no escuro
porque é isso que é um homem -
tantas bocas cheias de riso
e outras mais, tudo que pode existir
atrás dos tristes e castanhos dorsos das peónias...
A Pura Verdade, Philip Levinetrad. colect. revista por Maria de Lourdes Guimarães
Quetzal Editores (Poetas em Mateus)
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