domingo, maio 07, 2006

LADO B (12)


sublinhado (30)

"Que tinha eu com aquilo tudo? Nada. Mas este nada é que era o tudo, como compreendi. O não ter-se nada em comum, senão as circunstâncias que nos juntam, é que é a verdadeira sujeição mútua. Muito maior e mais profunda que a que me ligava à família, aos companheiros de sempre, a tudo o que sempre tivera um lugar marcado e habitual na minha vida. Tudo isto não é a nossa vida, mas o pretexto em que nos refugiamos, para não sermos atacados por ela. A nossa vida é esse ataque vindo de fora, por mãos ocasionais, e que, descobrindo-nos que não somos 'nós próprios' (com tudo o que, à nossa volta, nos dá essa segurança unitária), nos obriga a reconhecermo-nos 'nós outros', 'nós multiplos', conforme as ocasiões e conforme as circunstâncias. Eu não era eu, mas o eu-Mercedes, eu-Rodrigues, eu-Macedos, eu e toda a gente que não fosse um passado sem tempo nem acontecimentos." (pág. 312)
Sinais de Fogo (Público), Jorge de Sena

sábado, maio 06, 2006

O Outro Lado (11)

quinta-feira, maio 04, 2006

Confessionário (20)

Meu amigo,

Como sinto-me reconfortada por saber que ainda posso juntar letras e construir discursos não lineares! Como é bom poder voltar a esse espaço e dividir contigo experiências variadas.
Ainda estou longe de sair do olho do furacão. Ainda sinto náuseas fortes pelo rodopiar vertiginoso. Estou no ápice dos círculos e tudo é um constante 360°.
Abandonei-me à mercê dos ventos, Vítor. Parei de tentar escapar, de fazer esforços. Simplesmente entreguei-me ao balé do ar. Leva-me, leva-me, leva-me onde quiseres, digo eu. E subitamente parei de sofrer demais, de me cansar demais, preocupar-me demais... eu sou e isso me basta.
Ao ouvir tua última confissão senti minha garganta estreitar-se e doer.
Lembrei-me que em uma de nossas cartas, falei da receptividade e compreensão que tens sobre a minha pessoa e acabei externalizando isso com algo do tipo: como alguém tão mais novo blá blá blá.
Conheces-me tão bem, Vítor! Minha referência a este fato é uma admiração em ao uma crítica porque a idade cronológica pode ser uma tremenda armadilha.
Há pessoas que nunca crescem, jamais serão contemporâneas de seu tempo; teimam em ser menos, em se infantilizar. Não há nada mais ridículo do que uma pessoa adulta que age como se fosse um bebê.
Recusar-se a aceitar o tempo é recusar-se a viver e eu quero tudo da vida, Vítor. Quero reter nas mãos o sabor de todas as idades. Sim, quero conservar a juventude, mas de outra forma.
Quero uma mente jovem, um espírito inquebrantável, uma alegria pueril, a esperança, mas isso não exclui a experiência de viver as fases, todas elas.
Desprezar a experiência de alguém – tenha ele 20 ou 80 anos – é negar sua capacidade criadora.
Estou concluindo a leitura de Todos os homens são mortais, da Simone de Beauvoir. Os livros nos escolhem, meu amigo e ler este livro no momento dessa conversa é uma dádiva maravilhosa!
O argumento do livro não é novo nem criativo. Simone relata a vida do imortal conde Fosca que se recusou a aceitar o tempo e extrair o melhor dele. Sua arrogância e inexperiência fizeram que desejasse a imortalidade. Tanto fez que conseguiu e o que deveria ser um dom tornou-se maldição. Viu tudo e todos passarem e só ele ficou. A vida tornou-se monótona e sem atrativos, uma vez que não tinha mais expectativas. Ele sempre sabia como as coisas seriam. O nascer e o pôr-do-sol eram-lhe maçantes. O amor uma fraqueza, não havia mistérios nem novidades. Essa sucessão interminável das horas era pesada demais.
Sabe, Vítor, fico imaginando um mundo sem poesia, palavras, romance, crianças... mesmo nas maiores adversidades há uma razão para se viver, para prosseguir.
Eu insisto, meu amigo. Eu insisto em ser feliz em todas as idades, mas sem pensar muito nisso.
Não pense demais nos rótulos que tentam nos definir, eles são sempre muito menos do que nós. Os potes são menores do que nosso tamanho, oprimem nossa alma imensa e livre e freqüentemente nos tornam infelizes.
Que venham os furacões, Vítor!

O diário de G.H (6)

Não pude ficar no bar. Estava excitada com a descoberta dos reflexos do espelho. Dirigi, sem direção, cortando ruas, reconhecendo avenidas, perdendo-me em becos. É que eu tenho essa mania de viajar, essa facilidade de me desligar do tempo e me descolar do espaço. Posso passar o dia inteiro debruçada numa janela observando o movimento da rua.
Lembro-me que ele espumava de ódio toda vez que me teletransportava. Podíamos estar no calor da maior discussão, mas se escutasse passos na calçada ou uma música que me tocasse, eu simplesmente não estava mais lá.
De repente, eu não estava mais lá nem aqui. Eu estava no vapor do banheiro, na palavra escrita a dedo no espelho. Era preciso voltar e descobrir não quem eu sou, mas qual delas sou eu.
Estava em casa, sentei-me diante do espelho oval adquirido num antiquário. "É um legítimo espelho da era vitoriana" - disse a vendedora toda afetada. Vitoriana era eu ali, parada, tentando reconhecer minhas verdades. E eu não queria que tais verdades fossem usadas como um pretexto para mentir. Confessar-me poderia ser uma grande vaidade e eu queria me despojar dela; queria tocar nessa coisa áspera que se oculta no breu da noite.
Essa coisa áspera era a tal AIRTEMIS? Quer dizer, SIMETRIA.
O que isso queria dizer?
Simetria seria essa minha pretensa vocação para organizar as coisas ao meu redor? Ordenar as coisas era o primeiro passo para meu processo criativo. Juntar fragmentos, liberar o caos para depois aprisioná-lo. Era como colocar os planetas em órbita. Mas a órbita de fora nada tinha de simétrica com a órbita da minha cabeça e das coisas efervescentes que agastavam meu juízo.
Foi então qu lembrei de G.H, estupefacta diante da barata.
Eu entendia seu horror e sua atração pelo inseto que sempre existira antes de toda e qualquer existência.
Suei frio só de pensar que aquela outra era imemorial. Era a matéria viva tentando rasgar minha pele morta e inexpressiva. Eu só consegueria sair vivificada se a enfrentasse e, numa atitude antropofágica, a devorasse.
Fiquei atenta aos movimentos. Era irremediável o encontro perigoso e necessário.

Confessionário (19)

Espero uma resposta tua.

nem de propósito...

Pouso "Sinais de Fogo" após o fim da terceira parte. E vem-me o pressentimento de que na poesia poderia encontrar pistas para entender a confusão que vai na alma de Jorge, o personagem. Aleatoriamente abro a "Antologia Poética" e, com surpresa, vejo legitimado o que tenho escrito em "De preferência sem palavras", um poema que remata e dá por terminada a série:
A Miséria das Palavras

Não: não me falem assim na miséria, nos pobres,
na liberdade.

Se a miséria e a pobreza
fossem o vómito que deviam ser posto em palavras,
a imaginação possuída e vomitada que deviam ser,
viria a liberdade por acréscimo,
sem palavras, sem gestos, sem delíquios.

Assim, apenas se fala do que não se fala,
apenas se vive o que não se vive,
apenas liberdade é uma miséria
sem nome, sem futuro, sem memória.

E a miséria é isso: não imaginar
o nome que nome que transforma a ideia em coisa,
a coisa que transforma o ser em vida,
a vida que transforma a língua em algo mais
que o falar por falar.

Falem. Mas não comigo. E sobretudo
sejam miseráveis, e pobres, sejam escravos,
no silêncio que à linguagem faz
imaginar-se mais que o próprio mundo.

Jorge de Sena
Obras de Jorge de Sena, Antologia Poética (Asa)

quarta-feira, maio 03, 2006

De novo Tom Hunter


The Dolphin, 2003, Tom Hunter

De preferência sem palavras (3)

Disse-vos que devíamos matar as palavras, pedi até um sacrifício para que o fizéssemos. Não há mais o que escrever, o que dizer. Não há. O tempo esgotou-nos o vocabulário no dia em que aceitámos viver sem pesar o caminho do Sol, no mesmo dia em que acenámos o último adeus à alvorada e ao entardecer.
As Palavras não existem mais, não como a roldana do mundo… não como a roldana do mundo! Morreram quando a terra caiu sobre o olhar manso de Hölderlin, quando o vento apagou de Lisboa os passos de Pessoa. As Palavras morreram no dia em que o diabo lançou tempestades sobre o deserto e impediu o mundo de sentir o cheiro ácido do suor de Rimbaud. O poema morreu com elas.
Órfãos de beleza, chamamos Palavra à tira de celofane com que envolvemos o coração. E vendemo-lo depois, higienizado, com o nome de poema. Não há Palavras desde que eliminámos o hálito da terra. Não há Palavras desde que os fumos das fábricas e dos automóveis abafaram o perfume da chuva. Não há Palavras desde que deixámos de acreditar em pactos de sangue. Sem Palavras ficámos e de palavras vamos vivendo, até ao dia em que, de novo, a Ceifeira cante.

O Outro Lado (10)

segunda-feira, maio 01, 2006

De preferência sem palavras (2)

Permanecer em surdina para ouvir o grito da poesia quando nasce. E sentir que o poema cresce por dentro. Sentir que cria raízes no sangue e nos músculos, sentir que vasculha cada canto do corpo e o percorre até às profundezas da alma. Uma viagem sem palavras, sempre sem palavras, apenas como se fosse um raio de luz… ou um cheiro, ou um arrepio, um tremor, um frio leve no peito… as substâncias verdadeiras do poema. E fazer um esforço, um sacrifício se preciso for, para matar todas as palavras. Assassiná-las sem dó nem piedade, para que o poema seja, para que o poema exista ausente às paisagens desfocadas dos signos e dos sinónimos. Porque o poema é o exacto inverso das palavras. Porque a poesia é o que as palavras não dizem, como se atrás dum espelho vivesse um pomar de magnólias.

Um Homem na Cidade

Agarro a madrugada
como se fosse uma criança,
uma roseira entrelaçada,
uma videira de esperança.
Tal qual o corpo da cidade
que manhã cedo ensaia a dança
de quem, por força da vontade,
de trabalhar nunca se cansa.
Vou pela rua desta lua
que no meu Tejo acendo cedo,
vou por Lisboa, maré nua
que desagua no Rossio.
Eu sou o homem da cidade
que manhã cedo acorda e canta,
e, por amar a liberdade,
com a cidade se levanta.
Vou pela estrada deslumbrada
da lua cheia de Lisboa
até que a lua apaixonada
cresce na vela da canoa.
Sou a gaivota que derrota
tudo o mau tempo no mar alto.
Eu sou o homem que transporta
a maré povo em sobressalto.
E quando agarro a madrugada,
colho a manhã como uma flor
à beira mágoa desfolhada,
um malmequer azul na cor,
o malmequer da liberdade
que bem me quer como ninguém,
o malmequer desta cidade
que me quer bem, que me quer bem.
Nas minhas mãos a madrugada
abriu a flor de Abril também,
a flor sem medo perfumada
com o aroma que o mar tem,
flor de Lisboa bem amada
que mal me quis, que me quer bem.

José Carlos Ary dos Santos

LADO B (11)


sublinhado (29)

"O que eu estava descobrindo era terrível, muito mais terrível do que a descoberta que o Rodrigues fizera, diante de mim, da natureza do mal, que era não existir. Os acontecimentos não tinham 'causa', as pessoas não tinham 'motivações'. Aqueles e estas recebiam uma causalidade 'à posteriori'. E, quando provocávamos, voluntária ou involuntariamente, acontecimentos, não o fazíamos por vontade própria, nem levados por uma fatalidade qualquer. Só a ideia de causalidade é que criava o dilema da autonomia ou da fatalidade. Onde não há causas, nem motivações, não há relação necessária entre o gesto que desencadeia e o processo desencadeado. Se o passado de uma pessoa a condiciona para proceder desta ou daquela maneira, nestas ou naquelas circunstâncias, condiciona-a igualmente para proceder de maneira exactamente contrária. E os acontecimentos, no seu encadearem-se, tanto podiam ser entendidos na ordem por que aconteciam, como de trás para diante. (...) Não havendo causas nem motivações de nada, tudo se passava como se cada qual fosse o responsável exclusivo de coisas que não tinha a mínima responsabilidade. E este estava sendo o sentido da vida. Daí que eu, mesmo à custa de outros, pudesse fazer dela o que me apetecesse, desde que aceitasse como parte do meu apetite as consequências dele que, imprevisivelmente, desabassem sobre mim." (pág. 236)
Sinais de Fogo (Público), Jorge de Sena

domingo, abril 30, 2006

Tom Hunter & Vermeer

Em Fevereiro, meia hora antes de nos expulsarem da National Gallery em Londres (sim, porque a delicadeza dos vigilantes acaba quando se trata de fechar o museu) tive oportunidade de ver muito rapidamente uma exposição de fotografia fantástica de um autor contemporâneo que eu não conhecia. Lembro-me que as suas imagens eram reinterpretações actuais de alguns quadros de Vermeer. Os personagens mantinham o mesmo anonimato e os rostos respiravam a mesma melancolia.
A preocupação e o interesse por cenas “simples” do quotidiano, tão acentuadamente estudadas e exploradas na arte contemporânea (especialmente na Fotografia), parecem ter nascido em Vermeer, onde, em vez de Madalenas, Cristos, navegadores ou políticos, desfilam mulheres e raparigas, por vezes alguns senhores, tudo gente anónima, em cenas aparentemente corriqueiras da vida quotidiana como verter água dum jarro ou ler uma carta em frente à janela. O modelo de Vermeer é sempre colectivo, é ele próprio e todos aqueles que se vêem representados na mesma cena. Em Vermeer a pintura só termina a partir do momento em que há um par de olhos a observá-la.
Tom Hunter, assim se chamava o artista exposto na National Gallery, parece ter encarnado o espírito de Vermeer, criando composições formais idênticas às do pintor holandês, transpondo-as para o nosso tempo. As suas imagens adquirem o mesmo grau de representatividade e os seus modelos são, eles próprios, um colectivo também.
Tudo isto porque na altura tive muita vontade de partilhar estas fotografias aqui no blogue, o problema foi que perdi o papel onde tinha apontado o nome do autor e a coisa acabou por cair no esquecimento. Ontem, porém, enquanto procurava na net alguns quadros de pintores flamengos, acabei por dar de caras com o dito senhor. Achei que ainda vinha a tempo de referenciá-lo aqui… a sua obra é digna de ser vista. Tom Hunter é representado pela galeria White Cube, a mesma que representa Nan Goldin e Gilbert & George. Se por acaso derem um saltinho a Londres, vale a pena a visita.



à esquerda: Tom Hunter, Woman reading a Possession Order, 1997.
à direita: Johannes Vermeer, A Girl Reading a Letter by an Open Window, 1647-9.

sábado, abril 29, 2006

De preferência sem palavras

Um verso escrito a lápis para que a tinta não mate o papel. E partir em direcção ao poema em segredo, como o mundo se constrói. Evitar marcar a página com o peso da mão, não vá o relevo trair-nos depois de apagada a mensagem. E não ter palavras. Desprezá-las como se despreza a morte, até que o poema nasça e corra livre como ensina o vento. Que a beleza desperte, sem palavras, e sempre sem palavras possa ela vincar o coração. Evitar tudo o que for acessório: sussurros, beijos, deuses, milagres e carícias. Porque a poesia mora tanto nas pedras como nos olhos dos amantes.

O "DE GÉNESE" MORREU.

opção ou capricho?

Siza Vieira, é talvez, o arquitecto português que mais respeito. A lógica dos seus projectos traduz-se numa narrativa poética, coerente e de um virtuosismo difícil de igualar. Por isso mesmo, há coisas que me são completamente impossíveis de compreender, como a "granitada" que vai trepando pelos Aliados acima, pontuada ao acaso por tampas de saneamento (ainda por cima feias... pergunto-me pelo rigor do projecto de execução) e a mais recente polémica sobre o abate de árvores centenárias previsto na reforma do Passeio do Prado. Há opções de projecto que, no meio de uma linguagem e discurso tão coerentes, me ultrapassam.

quinta-feira, abril 27, 2006

todas as portas se assemelham


La Femme 100 Têtes (& etc), Max Ernst

LADO B (10)


sublinhado (28)

"Mas eu penso que devemos enfrentar a verdade; e, se não temos coragem de enfrentá-la, porque nos faria sofrer muito mais no fundo de nós outros, ao menos devemos alimentar uma grande dúvida sobre as razões que nos cumprem, para não fazermos sofrer os outros." (pág. 160)
Sinais de Fogo (Público), Jorge de Sena

quarta-feira, abril 26, 2006

O Outro Lado (9)

sublinhado (27)

"Cinco axiomas para definir a Europa: o café; a paisagem a uma escala humana que possibilita a sua travessia; as ruas e praças nomeadas segundo estadistas, cientistas, artistas e escritores do passado - em Dublin, até nos terminais rodoviários se indica o caminho para as casas de poetas; a nossa descendência dupla de Atenas e Jerusalém; e, por fim, a apreensão de um capítulo derradeiro, daquele famoso ocaso hegeliano que ensombra a ideia e a substância da Europa mesmo nas suas horas mais luminosas." (pág. 44)
A Ideia de Europa (Gradiva), George Steiner
Muito resumidamente: um livro interessante, um racicíonio claro, mas muito tendencioso. Os intelectuais europeus insistem em procurar uma "Ideia de Europa" em backgrounds religiosos, quando, se há algo que pode distinguir a Europa do resto do mundo, é exactamente o distanciamento religioso conseguido pelo Humanismo e pelo Iluminismo.

segunda-feira, abril 24, 2006

"Celeste e os Cravos", a poesia da Revolução

[clicar na imagem para ampliar]

preconceitos à parte...

Um dia, houve alguém que me disse que achava a obra literária de Jorge Sena (poética e não poética) um verdadeiro tédio (para não usar um termo mais pejorativo). Não sei se os motivos que fundamentaram essa opinião incidiam sobre a obra, ou sobre a personalidade do autor. Provavelmente pelas duas razões. O certo é que essa opinião influenciou-me, e criou em mim um preconceito em relação à obra de Sena. Pus de lado os poemas e arrumei na estante a ficção (as perto de seiscentas páginas de “Sinais de Fogo” são desencorajadoras!)
Há poucos dias, quando terminava a leitura das memórias de Yourcenar, esse título, “Sinais de Fogo”, surgiu-me na cabeça como leitura a iniciar. Confesso que me senti traído pela intuição; normalmente os livros que me convidam a ser lidos, são aqueles cujas referências dadas foram boas. Preconceitos à parte, resolvi iniciar a leitura. Bastou o primeiro capítulo para me apaixonar completamente pela obra. A curiosidade pela poesia de Sena voltou com essa leitura. Conclusão, tenho a dizer que, quem me deu as piores referências sobre a obra de Jorge de Sena, nunca o leu, ou é, na melhor das hipóteses, um valente idiota.

domingo, abril 23, 2006

sublinhado (26)

"Mas aquele gesto de quem se apaga tinha-lhe sido familiar toda a vida. (...) Um rosto vestido de humildade, diz Dante. Mas a humildade, que é a atitude que todo o homem reflectido adopta face à sua vida, é mais do que um traje." (pag. 205)

O quê? A Eternidade (Difel), Marguerite Yourcenar

Terminada a leitura de “O quê? A Eternidade” fica-nos a sensação de eterna curiosidade sobre a vida e as vidas de Yourcenar. Como tinha posto em hipótese anteriormente (1), a narrativa ficou-se mais pelos personagens simbólicos da sua vida (Michel, Jeanne e Egon) do que pelas suas próprias experiências. Yourcenar parece ter privilegiado a sua vocação de romancista – dos três livros de memórias conhecemos melhor os seus personagens do que a si própria, o que nos deixa seguramente insatisfeitos. O nosso instinto voyeur e a curiosidade sobre a vida da mulher que fez falar Adriano, não se perderam, e parecem ainda mais aguçados quando terminarmos o terceiro livro de memórias. Cronologicamente, Yourcenar deixa-nos em plena adolescência quando a Primeira Grande Guerra se esticava a leste, substituindo o sangue imperial pelo sangue revolucionário. Ao longo dos três livros dá-nos pistas que nos levam até aos seus 25 anos, idade em que perde o pai, Michel. Daí para a frente sabemos muito pouco, um ou dois episódios americanos isolados e o resto é silêncio: nada sobre quem amou, nada sobre com quem viveu, nada sobre uma Europa novamente em ruptura e muito pouco sobre o mundo do pós-guerra (se exceptuarmos as suas preocupações ecológicas e ambientais, a critica à aceleração desenfreada da humanidade e algumas referências breves a alguns focos de instabilidade posteriores a 1945). Fica-nos a consolação de sabermos onde e como nasce “Alexis”, esse pequeno livro muitas vezes esquecido e considerado uma obra de juventude, que na minha opinião, é uma das obras-primas da literatura do séc. XX. Um daqueles livros que, pela sua universalidade, extravasam o contexto em que foram escritos e adquirem vida própria, independentes a gerações, tempos e costumes; um livro na mesma prateleira de “As Ondas” de Woolf ou da “Recherche” de Proust.
Uma nota do editor Yvon Bernier diz-nos que Marguerite não levou “O quê? A Eternidade” até onde pretendia, mas que pouco deveria faltar para concluir a tarefa. Podemos supor que tentaria transportar-nos até 1939, se tanto. De qualquer forma, a escritora levou-nos até onde a força a permitiu levar-nos, ofereceu-nos o que a vida lhe deu oportunidade de oferecer, já que a morte foi a única razão para que ficássemos entre 1917 e 1918. Parece com isso ter confirmado o que escreveu no final de “Arquivos do Norte”: “Se me forem dados tempo e energia, talvez continue até 1914, até 1939, até ao momento em que a caneta me cairá das mãos.”

(1) texto de 5 de Abril de 2006

sexta-feira, abril 21, 2006

um poema que não me canso de ler:

...DEPOIS DE ME PERGUNTAREM «O QUE É UM HOMEM?»,

RESPONDI.....

à maneira de Keats...

O meu filho mais velho visita-me
no hospital. Traz gigantescas
peónias e a enfermeira coloca-as
numa jarra de vidro, e elas inclinam-se serenas
sobre o parapeito da janela onde
parecem ter receio de contemplar a cidade
lá em baixo, coberta de fumo. Pergunta-me quando
irei para casa. Não sei.
Vê que há fios que se estendem
de mim para uma televisão onde
o pulsar do meu coração é o Sunday Spectacular.
Como é que estou?, pergunto. Examina
o écran e diz: Não sei.
É preciso um especialista para te dizer como
te encontras, mas ninguém o vai fazer.
Devo ter adormecido, e quando acordo
estou sozinho, e o velho
ao meu lado desapareceu, e o quarto
está a escurecer. Este é o domingo
que preencherá a promessa nunca feita
de todos aqueles domingos desaparecidos
em que uma sombra do canto
do olho se aproximou, enorme, hesitou e partiu,
e eu suspirei cansado pois sabia
que teria de viver aqui mais uma semana.
Finalmente um tempo e um lugar para morrer me
são dados, e até uma pequena justificação.
As flores voltaram-se agora, pois
as janelas já escureceram, e eu
vejo os seus rostos pálidos no espelho liso
do vidro. Não, não estão a chorar,
pois isto não é um vale de lágrimas.
Riem tranquilas como as flores
sempre fazem na companhia dos homens.
«Porque este é o lugar onde as almas
são feitas», murmura o seu riso.
Hei-de ler Keats outra vez, erguer-me-ei
e irei pelo mundo, sem fios e livre;
porque já não sou um filme,
não tenho um começo, um meio, um fim,
nem um fundo musical a realçar cada cena,
um guarda-roupa ou um técnico da cor.
Sou apenas um homem que se veste no escuro
porque é isso que é um homem -
tantas bocas cheias de riso
e outras mais, tudo que pode existir
atrás dos tristes e castanhos dorsos das peónias...

A Pura Verdade, Philip Levine

trad. colect. revista por Maria de Lourdes Guimarães
Quetzal Editores (Poetas em Mateus)