quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Metapoemas (3)

AS FASES DE UM POEMA

Acordo!
Imagens distorcidas,
Bocas estarrecidas
Apresentam o poema-farrapo.

Acordo!
Palavras esboçadas,
Rimas fatigadas
Turvam o poema-miragem.

Acordo!
Idealizo a arquitetura,
Costuro a urdidura.
E nasce o não-poema.

(Luciana Melo 20/11/01)

terça-feira, fevereiro 06, 2007

IVG

Vera Drake, Mike Leigh

É nossa prerrogativa no Sincronicidade não abordar política, foi um dos primeiros itens acordados entre mim e a Luciana quando decidimos criar este blogue. No entanto, sinto-me impelido e moralmente obrigado a manifestar a minha opinião quanto ao referendo que votaremos no próximo domingo sobre a interrupção voluntária da gravidez.
Antes de mais quero deixar claro que o que nos perguntam é: “Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?”. A pergunta parece-me suficientemente clara. Existe uma lei que criminaliza a mulher que por sua opção decide interromper uma gravidez que não deseja e a pergunta que nos fazem é tão e somente se, até às dez semanas de gravidez e nas condições que nos são apresentadas (estabelecimento de saúde legalmente autorizado), deveremos ilibar a mulher desse crime ou continuar a penalizá-la. Ninguém nos pergunta se somos ou não contra o aborto, ninguém nos pergunta qual o nosso conceito de vida intra-uterina, nem o valor que a vida tem para cada um de nós. Dizem-nos: existe um crime e o que queremos saber é, se nestas condições, esse crime deverá continuar a ser ou não considerado pela lei. Tenho ouvido ao longo da campanha opiniões que ponderam a objectividade da pergunta, honestamente, ela parece-me muito evidente.
Não há para mim valor mais fundamental do que o direito há vida e tenho certeza de que a maioria dos portugueses que vão votar no referendo o defendem com igual convicção. Agora eu pergunto-me, votando NÃO à pergunta estarei eu a contribuir para a erradicação do aborto? A resposta parece-me clara como a água: não. Indiferentes ou indignados, a favor ou contra a nossa vontade, o aborto continuará a ser uma realidade como sempre o foi até agora. É um facto que mulheres abortam e continuarão a abortar pelas mais diversas razões, sejam elas mais ou menos legítimas, tenham para nós maior ou menor justificação. São as suas razões e ponto final. Concorde eu ou não com a sua opção não me sinto no direito de julgá-las. O actual quadro legal pune a mulher que decide interromper uma gravidez que não deseja, facto que muitos defensores do Não apresentam com elemento dissuasor. Eu acho de uma ingenuidade incrível esse argumento, como se uma mulher decidida a fazer um aborto não encontrasse formas de o levar a cabo. O que a lei actual potencia é tão e somente o aumento dos abortos clandestinos, executados sabe-se lá em que condições e que vão enriquecendo os bolsos de alguns habilidosos sem qualquer tipo de qualificação cientifica para o acto. Votando Não, estaremos simplesmente a deixar as coisas como estão: aumento dos abortos clandestinos com consequências graves para a saúde das mulheres, desaconselhamento, falta de informação e de alternativas, criminalização com todo o peso moral que ela acarreta. O Não venceu o último referendo e temos visto o que as coisas têm mudado!
Votando SIM à pergunta do referendo ninguém vai erradicar o aborto (da mesma forma que não o erradicaríamos votando NÃO) mas vamos pelo menos adquirir algum controlo sobre a situação. Asseguraremos que as mulheres que decidem voluntariamente interromper uma gravidez indesejada não serão perseguidas pela justiça e terão oportunidade de ser esclarecidas e aconselhadas por profissionais competentes sobre o que têm intenção de fazer.
Um cartaz de uma das campanhas pelo Não pergunta qualquer coisa como isto: ‘Os seus impostos para financiar clínicas de aborto?’ ao que eu respondo: antes os meus impostos a salvar vidas de mulheres que decidiram abortar do que outros a ganharem dinheiro com essas mortes.
Para mal, um mal menor. Eu voto SIM.

domingo, fevereiro 04, 2007

Babel

As críticas que li sobre o filme ‘Babel’ do mexicano Alejandro González Iñárritu (o mesmo realizador de ’21 gramas’) são, na sua grande maioria, muito más (no sentido de desfavoráveis ao filme) e consensuais entre os críticos da imprensa portuguesa. Transversalmente, os argumentos de uns e outros tocam-se, muito resumidamente: abordagem pouco pertinente relativa aos malefícios da globalização, três histórias paralelas que se entrelaçam muito forçadamente, lugares comuns e estereotipados de cenários e personagens (parafernália asiática, folclore mexicano, exibicionismo barato, os árabes ‘bonzinhos’, a repressão policial ocidental, etc etc), uma série de outros argumentos que não adianta agora estar aqui a enunciar… ainda assim corri o risco de ir ver o filme.
Ao sair do cinema e apesar do aviso dos críticos relativamente à mensagem política sobre os malefícios da globalização, apresentada por eles como uma visão panfletária e pouco imaginativa por parte do realizador, eu não vi mais para além de uma narrativa que questiona sobretudo a problemática da Comunicação ou da falta dela. Mais do que um choque entre sociedades e culturas intrinsecamente diferentes eu deparei-me com personagens bloqueados em si mesmos, sozinhos, e com imensa dificuldade em fazerem-se comunicar àqueles que lhes são mais próximos apesar de partilharem o mesmo código social e cultural: dois irmãos que não comunicam por disputarem liderança no seio da família, um pai que não sabe como chegar ao coração da filha que se afunda em solidão por não conseguir comunicar os seus impulsos e desejos às pessoas da mesma geração, um casal que procura restabelecer contacto numa viagem exótica, um patrão que não aceita o pedido da empregada para assistir ao casamento do filho, um sobrinho que por medo não escuta a tia… É certo que Babel tem como pano de fundo o choque entre culturas distintas acelerado pelos efeitos da tecnologia e da globalização, mas creio que Iñárritu quer sobretudo fazer-nos reflectir sobre a falta de comunicação a uma escala, digamos, mais doméstica: quando não escutamos e não somos escutados pelo nosso interlocutor mais próximo como poderemos nós compreender alguém com origens e valores completamente distintos dos nossos? Se repararmos no acontecimento que desencadeia toda a narrativa, o disparo contra o autocarro, ele nasce exactamente da falta de comunicação entre os dois irmãos marroquinos que lutam entre si por uma espécie de liderança moral da família e não de um simples ‘entretenimento’ de crianças aborrecidas com o trabalho de levar as ovelhas a pastar para a montanha como nos faz crer Mário Jorge Torres no Público. É a partir desse episódio e das sucessivas falhas de comunicação entre personagens que os acontecimentos atingem a proporção desequilibrada que assistimos ao longo da história, ampliada na mesma medida em que a distância cultural se vai impondo e fazendo sentir.
Durante o filme lembrei-me muitas vezes de ‘O Estrangeiro’ de Camus (ainda de leitura fresca), tudo parece apresentar um grau de casualidade absurda: um impulso momentâneo tem força suficiente para condenar uma vida (no caso do filme, muitas vidas).
‘Babel’ não é um filme excelente, mas também não é a narrativa simplista e demagógica que apregoam. É preciso ler nas entrelinhas.

Adriana Barraza, 'Babel' (2006), Alejandro González Iñárritu

sublinhado (52)

«Não, meu filho», disse ele, pondo-me a mão no ombro. «Estou consigo. Mas não o pode saber, porque o seu coração está cego. Rezarei por si.»
Então, não sei porquê, qualquer coisa rebentou dentro de mim. Pus-me a gritar em altos berros, insultei-o e disse-lhe para não rezar e que, mesmo que houvesse um inferno, não me importava, pois era melhor ser queimado no fogo do que desaparecer.
Agarrara-o pela gola da sotaina. Atirava para cima dele todo o fundo do meu coração com impulsos de alegria e de cólera. Tinha um ar tão confiante, não tinha? Mas nenhuma das suas certezas valia um cabelo de mulher. Nem sequer tinha a certeza de estar vivo, já que vivia como um morto. Eu parecia ter as mãos vazias. Mas estava certo de mim mesmo, certo de tudo, mais certo do que ele, certo da minha vida e desta morte que se aproximava. Sim, não sabia mais nada do que isto. Mas, ao menos, segurava esta verdade, tanto como esta verdade me segurava a mim. Tinha tido razão, tinha ainda razão, teria sempre razão. Vivera de uma dada maneira e poderia ter vivido de outra dada maneira. Fizera isto e não fizera aquilo. Não fizera uma coisa e fizera outra. E depois? Era como se durante este tempo todo tivesse estado à espera deste minuto... e dessa madrugada em que seria justificado. Nada, nada tinha importância, e eu sabia bem porquê. Também ele sabia porquê. Do fundo do meu futuro, durante toda esta vida absurda que eu levara, subira até mim, através dos anos que ainda não tinham chegado, um sopro obscuro, e esse sopro igualava, na sua passagem, tudo o que me propunha nos anos, não mais reais, em que eu vivia. Que me importava a morte dos outros, o amor de uma mãe, que me importava o seu Deus, as vidas que se escolhem, os destinos que se elegem, já que um só destino podia eleger-me a mim próprio e, comigo, milhares de privilegiados que, diziam como ele, serem meus irmãos? Compreendia, compreendia o que eu queria dizer? Toda a gente era privilegiada. Só havia privilegiados. Também os outros seriam um dia condenados. Também ele seria um dia condenado. Que importava se, acusado de um crime, era executado por não ter chorado no enterro da minha mãe? O cão de Salamano valia tanto como a mulher dele. A mulher-autómato era tão culpada como a parisiense com quem Masson se casara, ou como Maria, que queria que eu me casasse com ela. Que importava que Raimundo fosse meu amigo, ao mesmo título que Celeste, que valia mais do que ele? Que importava que Maria oferecesse hoje a sua boca a um novo Meursault? Compreendia, compreendia ele este condenado? E que, do fundo do meu futuro... Quase atabafava, ao gritar estas coisas. Mas já me arrancavam o padre das mãos, já os guardas me ameaçavam. Foi ele, no entanto, quem os acalmou. Olhou-me uns instantes em silêncio. Tinha os olhos cheios de lágrimas. Voltou-se e foi-se embora.
Sentia-me agora outra vez calmo. Estava estafado e deixei-me cair sobre a cama. Julgo que dormi, pois acordei com estrelas sobre o rosto. Subiam até mim ruídos campesinos. Aromas de noite, de terra e de sol refrescavam-me as têmporas. A paz maravilhosa deste Verão adormecido entrava em mim como uma maré. Neste momento, e no limite da noite, soaram apitos. Anunciavam possivelmente partidas para um mundo que me era para sempre indiferente. Pela primeira vez, há muito tempo, pensei na minha mãe. Julguei ter compreendido porque é que, no fim de uma vida, arranjara um «noivo», porque é que fingira recomeçar. Também lá, em redor desse asilo onde as vidas se apagavam, a noite era como uma treva melancólica. Tão perto da morte, a minha mãe deve ter-se sentido liberta e pronta a tudo reviver. Ninguém, ninguém tinha o direito de chorar sobre ela. Também eu me sinto pronto a tudo reviver. Como se esta grande cólera me tivesse limpo do mal, esvaziado da esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu abria-me, pela primeira vez, à terna indiferença do Mundo. Por o sentir tão parecido comigo, tão fraternal, senti que fora feliz e que ainda o era. Para que tudo ficasse consumado, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muito público no dia da minha execução, e que os espectadores me recebessem com gritos de ódio. (págs. 117 e 118)
O Estrangeiro (Livros do Brasil), Albert Camus

Fogueira de vaidades

O que estaria por detrás da crítica azeda do grande prosador brasileiro ao seu contemporâneo português
Por Cláudio Mello e Souza*

Num intervalo de duas semanas, dias 16 e 30 de abril de 1878, Machado de Assis publicou dois artigos sobre Eça de Queirós, na imprensa da corte. Em forma polida e elegante, como lhe era natural, mas com vigor insuspeitado em homem que, tal como o Conselheiro Aires, padecia de “tédio à controvérsia”, desfecha sobre o autor de O Crime do Padre Amaro e O Primo Basílio duas acusações de arremedo literário e outra de inconsistência e puerilidade dramáticas.

O Crime, afirmou Machado, seria imitação de La Faute de l'Abée Mouret, de Zola. E O Primo não passaria de cópia malfeita de Eugénie Grandet, de Balzac. O terceiro erro de Eça, erro “grave, gravíssimo”, teria provindo do uso do acaso para acionar e sustentar o entrecho dramático de O Primo. Estranho que Machado tenha embirrado com essa travessura do destino, ele que pediu ao acaso que pusesse, numa mesma hora de um mesmo dia, num mesmo vagão de trem, a bela Sofia e o arrebatado Rubião. Sem falar em outros providenciais acasos de seus romances e contos, das Primas de Sapucaia às Memórias Póstumas.

Deixemos de lado acasos e inconsistências. Tornemos ao plagiato. As críticas de Machado fizeram furor e devotos. Ainda hoje servem de motivo para especulação maliciosa e julgamentos imprudentes. Eça de Queirós tomou conhecimento dos furores machadianos. Não lhes quis dar importância, porém. Durante dois anos, guardou silêncio, parente próximo do desdém. Fingidamente ou não, pareceu desinteressado de tão miúda polêmica.
Ao lançar a segunda edição do Crime, dois anos depois, tratou de precedê-la de uma nota em que, finalmente, respondia aos críticos. Mais exatamente ao crítico, o bruxo do Cosme Velho, que por essa época ainda não havia sido batizado de maneira tão ternamente lúgubre. Com a ironia de praxe, mas com impaciência e certa ponta de azedume, Eça desabafou:

“Os críticos inteligentes (epa!) que acusaram O Crime do Padre Amaro de ser apenas uma imitação da Faute de l'Abée Mouret não tinham infelizmente lido o romance maravilhoso do Sr. Zola, que foi talvez a origem de toda a sua glória. A semelhança casual (desconfio desse casual) dos dois títulos induziu-os em erro. Com conhecimento dos dois livros, só uma obtusidade córnea ou má-fé cínica poderia assemelhar esta bela alegoria idílica, a que está misturado o patético drama duma alma mística, ao Crime do Padre Amaro que, como podem ver neste novo trabalho, é apenas, no fundo, uma intriga de clérigos e de beatas tramada e murmurada à sombra duma velha Sé de província portuguesa.”
Concordo, incomodado, com a reação de Eça. Quanto ao Crime do Padre Amaro, Machado errou gravemente ao aproximá-lo de La Faute, de Zola. As semelhanças entre os dois livros são poucas, aparentes e enganosas. Tenho hoje a certeza de que são nenhumas, excetuadas certas breves passagens que devem ter marcado fundamente Eça de Queiroz, e que ele na verdade copiou, por não ver nisso nada de mal. Foi resultado de apaixonada admiração. Ou decorrência do contaminatio que deixou Virgílio levar-se pelos ventos da Odisséia ou pelos ecos da Ilíada.

Acho boa razão para explicar as implicâncias de Machado. A de ter sido ele um crítico conservador; pior, moralista. Quem leu a sua pequena obra crítica deve ter chegado logo à conclusão a que cheguei. Toda essa visão conservadora, visão de seguidor de Fichte, está mais sucinta e obviamente resumida num artigo que leva o título de “Notícia da atual literatura brasileira – Instinto de nacionalidade”.

Na parte em que ele trata do romance brasileiro, ao lado de preferência de gosto discutível, compensada por observações de fina sagacidade, há uma espécie de declaração de princípios, em que ressalta uma tomada de posição preconceituosa em relação às novas influências vindas da França: “As tendências morais do romance brasileiro são geralmente boas. Nem todos eles serão, de princípio a fim, irrepreensíveis; alguma coisa haverá que uma crítica poderia apontar e corrigir. Mas o tom geral é bom. Os livros de certa escola francesa (grifo meu), ainda que muito lidos entre nós, não contaminaram a literatura brasileira, nem sinto nela tendências para adotar as suas doutrinas, o que já é de notável mérito”. Machado de Assis recusava-se, com fingida indiferença, a referir-se à escola realista. Tem reação de ofendido pudor.

A relação de Machado com Eça começou por escrito e começou mal. O ciúme levou-os à inveja; a inveja, à impaciência; a impaciência, ao azedume. Com relação ao azedume, restou-me a impressão de que, chegados os dois à velhice, os atritos hajam sido atenuados por obra devota dos amigos. Concluí assim, depois de reler a carta que Machado escreveu a Henrique Chaves, na qual lamentou o fato de a morte suprimir talentos que ainda teriam muito a criar. Como foi o caso de Eça, que Machado definiu como “o melhor da família, o mais esbelto e o mais valido”. E Machado prossegue, ao falar da morte de grandes talentos:

“Onde ela é sem compensação é no ponto da vida em que o engenho subido ao grau sumo, como aquele de Eça de Queirós, – e como o nosso querido Ferreira de Araújo, que ainda ontem fomos levar ao cemitério – tem ainda muito que dar e perfazer. Em plena força da idade, o mal os toma e lhes tira da mão a pena que trabalha e evoca, pinta e canta, faz todos os ofícios da criação espiritual. Por mais esperado que fosse esse óbito, veio como repentino. Domício da Gama, ao transmitir-me há poucos meses um abraço de Eça, já o cria agonizante. Não sei se chegou a tempo de lhe dar o meu. Nem ele, nem Eduardo Prado, seus amigos, terão visto apagar-se de todo aquele rijo e fino espírito, mas um e outro devem contá-lo aos que deste lado falam a mesma língua, admiram os mesmos livros e estimavam o mesmo homem”. Não me lembro, em literatura brasileira, de necrológio mais comovido e verdadeiro. Creio até que sincero.

Manuel Bandeira, no artigo que escreveu para o Livro do Centenário, lembra que no dia 24 de agosto de 1900, dias depois da morte de Eça e de Ferreira de Araújo, a Gazeta de Notícias deu “toda uma página de colaboração em homenagem ao grande romancista: artigos de Araripe Júnior, Machado de Assis, Henrique Neto (...), versos de Osório Duque-Estrada, Luís Guimarães Filho e César Monteiro; ilustrações de Julião Machado (retrato de Eça e algumas figuras do Primo Basílio)”. Concluiu com a seguinte frase: “Machado de Assis dizia, lembrando-se sem dúvida de si próprio e de sua severa crítica ao Primo Basílio: ‘Tal que começou pela estranheza, acabou pela admiração’ ”.

A pena que criticou Eça foi a mesma que dele se despediu com admiração e encanto.
Árcades ambos.
*Jornalista, poeta, escritor e autor de Helena de Tróia – O Papel da Mulher na Grécia de Homero.

sábado, fevereiro 03, 2007

As matriarcas (4)

Estar de volta a São Pedro da Missões trazia-me antigas recordações. Não a mim exatamente, mas à Olívia da minha infância, a menina que testemunhou diversas histórias sem entendê-las muito bem.
Havia mais do que as lembranças de vestidos e passeios, das mãos hábeis de vovó Totonha e de sua força. Havia também a “loucura” de tia Margarida, a fragilidade das figuras masculinas – vovô Nico, tio Tatá e o meu próprio pai.
Ah, tinha também D. Lola, minha bisa! O ano que morei em São Pedro foi o primeiro e último do nosso convívio. Eu lembro-me tão bem de seus cabelos de nuvem – branquinhos e longos, muito longos. Eu passava a tarde a penteá-los e depois os trançava. Ela dormia na cadeira de balanço enquanto eu fiava suas madeixas. Bisa Lola estava quase sempre dormindo, rezando ou comendo. Quando morreu, pesava mais de cem quilos e tinha uns noventa anos.
Certo dia, vovó Totonha pediu que eu a acordasse para lanchar. Chamei e ela não respondeu. Brinquei nas suas tranças e ela lá, imóvel. Cutuquei e seu corpo estava gelado. Não demorei a perceber que o sono que dormia não era somente profundo, mas eterno. Foi então que descobri que a morte é fria e silenciosa.
Gritei por mamãe e vovó. Pedi que acudissem. Até tia Margarida veio ver o motivo de tanto barulho. Ao perceber o que acontecia ficou trêmula num cantinho da sala, repetindo sem parar, numa voz débil e baixa: “deixem a mamãe dormir”.
Vovô não estava em casa. Mamãe e vovó carregaram a bisa até o quarto. Foi grande a confusão. Mamãe não sabia o que fazer primeiro e numa rapidez incrível, deu o remédio de tia Margarida e depois fez com que deitasse; puxou minha mão e disse-me para subir na bicicleta e trazer ajuda.
Vovó Totonha não verteu lágrima, ficou firme o tempo todo. Com a ajuda de mamãe deu banho e vestiu a mortalha na bisa, puxou a reza, encabeçou o cortejo até o cemitério. Mais atrás, as mulheres carpideiras seguiam os homens. Foram necessários seis deles para carregar o caixão.
Depois de tudo, três coisas nunca saíram da minha memória: o cheiro de lavanda na casa, Tia Margarida na chuva e claro, a primeira vez que vi Vovó Totonha chorar.

terça-feira, janeiro 30, 2007

confessionário (40)

Crimes de la Commune: Le Massacre des dominicains d'Arcueil, le 25mai 1871,
Photomontage destiné à la propagande Versaillaise,
Eugène Appert

Minha querida, no último e-mail que me enviaste, a certa altura dizias que tinha sido uma sorte termo-nos encontrado e que uma amizade sincera poderia nascer e sustentar-se através de um meio cada vez mais perigoso onde o indivíduo real parece ter sido substituído por personagens talhados à medida das conveniências, dos medos, dos anseios e das fobias. Não quero cair no erro de tecer juízos de valor em relação a pessoas que não conheço ou basear a minha opinião em narrativas mais ou menos indignadas que vou lendo em blogues que visito diariamente. O que me preocupa realmente não é o maior ou menor grau de sordidez das novelas blogosféricas mas o que elas determinam como consequência. Entra-se num mundo onde a desconfiança se impõe como a única arma usada em legítima defesa na relação com o outro. Confiar torna-se um risco e confiar mal uma factura com preço demasiado alto a pagar. ‘Don’t trust nobody!’ como dizia o Henrique noutro dia no Insónia parece-me ser a atitude mais sensata a adoptar nos dias que correm. É triste que se entreponha esse ‘don’t trust’ naquilo que nos liga ao outro mas talvez seja a única forma de salvaguardarmos o que ainda resta em nós de integridade, dignidade e amor-próprio.
A Maria João tem levantado muitas questões pertinentes nos textos da série ‘Perguntar Ofende?’. O último questionava o poder das imagens e da sua manipulação. Transcrevo: “A primeira vez que observei as fotografias deste livro, fiquei cheia de medo; porque foi possível apagar pessoas de fotografias, retocando-as manualmente com tinta de forma a que elas continuassem a ter uma certa verosimilhança, com meios rudimentares.”; foi possível perverter a História, reconstruir os factos ainda que momentaneamente, já que as falsificações não conseguiram apagar os crimes que Estaline impregnou na pele daquela gente. Os ditadores soviéticos não foram os únicos a usar o seu poder para reescrever a história. A falsificação de imagens é quase tão antiga como a própria história da fotografia. A primeira fotografia reconhecida é uma imagem de Niépce de 1825. Em 1871, ou seja 46 anos depois, é publicada por Eugène Appert uma série de imagens manipuladas anti-communards intitulada ‘Crimes de la Commune’. A mais célebre dessas imagens retrata o 'massacre' (se é que foi realmente um massacre) levado a cabo pela Comuna contra os dominicanos de Arcueill a 25 de Maio de 1871. A pedido de Thiers, Appert fez multiplicar os elementos da Comuna na imagem e inseriu alguns frades em súplicas mártires de forma a dramatizar a cena e evidenciar o carácter sanguinário dos communards. Todos estes acontecimentos desenvolveram-se numa época em que as técnicas e os instrumentos eram rudimentares e pouco verosímeis. Imaginemos o que não se poderá passar hoje em dia com a capacidade técnica que possuímos.
Ao olharmos essas imagens enchemo-nos do medo que a Maria João falava. No entanto, e apesar da perversidade contida nesses actos, mais perversas e absurdas são as suas consequências sobre todos nós. Ao descobrirmos que essas forjas aconteceram sistematicamente ao longo da História, perceber que apurámos a verdade não é mais do que um presente envenenado: o medo e a incredibilidade de olharmos um documento falsificado transforma-se no medo da repetição, perguntamo-nos se neste momento somos vítimas do mesmo ou se o provaremos num futuro próximo. O medo da estupefacção transforma-se no medo de acreditar, no medo de dar o benefício da dúvida.
Sobrevoando o século XX apercebemo-nos que apesar da indignação e da revolta em relação às vicissitudes dos tempos, os pensadores, artistas e escritores modernos acreditavam na construção de um novo mundo. Apesar dos regimes totalitários, das guerras, da fome, da exploração, havia no que acreditar. Por outras palavras a fé ainda não tinha sido condenada. Após a Segunda Grande Guerra parece que todos os valores ruíram. Havia demasiado lixo debaixo do tapete, tanto que ainda hoje nos sentimos sujos. Nos dias que correm acreditar é um risco: o homem perdeu por completo a capacidade de confiar em si próprio. Não acreditamos nos políticos nem nas religiões, não acreditamos na economia nem no progresso, não acreditamos sequer no nosso vizinho do lado, nem em Deus acreditamos. Vivemos permanentemente sem saber como e no que acreditar. Este é o nosso drama.
Detemos todos demasiado poder, minha amiga, da maior à menor escala. É tão fácil e acessível ao governo dos Estados Unidos da América (ou de outro país qualquer) reescrever a história ao sabor das suas ambições, como é para nós, com exacta facilidade, forjarmos a nossa identidade e fazermos de nós mesmos o personagem que mais nos aprouver. Tudo é demasiado virtual e já ninguém tem fé em absolutamente nada. ‘Don’t trust nobody!’ não te esqueças. Sem ponta de ironia é o melhor conselho que te posso dar, ainda que contra mim fale.
Para finalizar: Lu, tem sido muito gratificante correr o risco de confiar em ti. Tem sido muito gratificante correr o risco de confiar em mais quatro ou cinco pessoas. Alimenta-me a fé… quase moribunda.

sublinhado (51)

Havia pessoas mais infelizes do que eu. Acabamos por nos habituar a tudo, gostava a minha mãe de dizer. (pág. 84)
O Estrangeiro (Livros do Brasil), Albert Camus

Metapoemas (2)

SANTO OFÍCIO

Inicio minha rotina:
Prostro-me sobre o papel
Arrisco algumas palavras
Que nada traduzem,
Só me servem de broquel.

Recomeço tudo de novo.
Faço esforço, me contorço
E uma minúscula gota de seiva
pinga. Verto sangue
E consigo a base do poema.

Busco acessórios, complementos.
Eles não combinam...
Torço a pena,
Espremo o bagaço da tinta.
E uma nova palavra ilumina
Meu poema tosco.

Invento sentidos para o que me consome.
O vazio arde de dia
E à noite, ele fica insone.
Modelo a estrutura
Da tessitura do verso inconsútil.
Mas ela não se revela,
Permanece rija e pura.

Cedemos ao cansaço
do nosso embate diário.
Permitimo-nos o silêncio e
a pausa para o abraço.

Mais tarde, porém,
A luta recomeça.
Eu tento domá-la - a palavra;
Ela reage, possessa.

(Luciana Melo 27/12/01)

segunda-feira, janeiro 29, 2007

a solidão e as narrativas góticas de Bill Henson

Untitled #22, 2006, Bill Henson

Ontem, depois de publicar 'a história que te conto', vinham-me sucessivamente à cabeça os personagens das narrativas de Bill Henson. Quando olhamos os rostos pálidos iluminados ao jeito de Caravaggio e perdidos no meio da escuridão, cresce-nos uma sensação de alienação, de deriva, de seres errando absolutamente sós. Na primeira vez que me deparei com as imagens do artista australiano foi esse cenário cinematográfico que me ficou na memória: rapariguinhas frágeis e desprotegidas, alienadas, entregues à sorte que a noite na sua perversidade fosse capaz de lhes oferecer. Olhava-as como se a sua solidão tivesse sido obra do destino, casual, como se ao final da tarde errassem o caminho de regresso a casa e a noite as engolisse e as levasse para a escuridão do bosque. Via-as perdidas, desprotegidas, expostas a penas e perigos que rapariguinhas daquela idade não podem suportar. Depois de escrever o último texto lancei-me ao site para rever as imagens e apercebi-me de que a minha primeira análise estava completamente errada. A solidão daquelas rapariguinhas assemelha-se muito à ideia de solidão que eu queria fazer transparecer naquele texto. Não é uma solidão alienada, aterrorizada, que transforma em vítima quem, ou o que se perdeu. É antes uma solidão activa, assumida, de alguém que entra na noite à procura de se redescobrir, de testar em si a amplitude dos seus próprios limites. Não é uma mulher abusada entregue ao desespero e à solidão que vejo na imagem em baixo, mas antes uma outra, que na sua solidão deseja o abuso e o desespero. O desenho dos seus lábios parece dizer-me que se trata de uma escolha tranquila.

Untitled #7, 2005/06, Bill Henson

a história que te conto (3)

falas-me no tom correcto
quando afirmas que esta
história tem o cheiro das
palavras em despedida.
no fundo é de um adeus
que se trata. não há mais
nada para além de uma mão
que acena (sem lenço branco)
à crença de que um homem
possa ser maior do que a
solidão. e quando te falava
do lugar de onde todos viemos
e ao qual regressamos sempre,
não era vontade minha ser
cruel, nem tão pouco absorver
o mundo com desesperança.
haja ou não fé, carregamos
quotidianamente o estigma
do ilhéu e não há amor que
nos salve… a não ser que o
mesmo amor possa existir
independente e se aproxime
daquilo que o homem provou
quando inventou a liberdade.
não é de ti que me despeço,
nem de mim, nem do meu
amor. despeço-me da ideia
de não existir só. apenas.
a poeta dizia que a ‘arte da
natureza pede o amor em
dois olhares.’ e não poderia
tê-lo dito mais correctamente:
a natureza pede o teu olhar
e pede o meu olhar. o meu
amor por ti exige-me que
eu possa olhar o mar contigo,
ainda que o meu mar seja
verde e o teu mar seja azul.
e verde seja a cor da minha
solidão e azul a cor da tua.

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Salve Maestro!

Photobucket - Video and Image Hosting

Se ele ainda estivesse entre nós, completaria 80 anos, mas um Sabiá travesso ou qualquer outro Passarim amigo seu veio buscá-lo para um passeio pelos céus.
Antônio Carlos Jobim, além das saudades, deixou um vasto repertório e uma contribuição inestimável para a música brasileira.

Passarim quis pousar, não deu, voou
Porque o tiro partiu mas não pegou
Passarinho me conta então me diz
Porque eu não fui feliz
Me diz o que eu faço da paixão
Que me devora o coração
Que me devora o coração
Que me maltrata o coração
Que me maltrata o coração
E o mato que é bom, o fogo queimou
Cadê o fogo, a água apagou
E cadê a água, o boi bebeu
Cadê o amor, gato comeu
E a cinza se espalhou
E a chuva carregou
Cadê meu amor que o vento levou
Passarim quis pousar, não deu, voou
Passarim quis pousar, não deu, voou
Porque o tiro feriu mas não matou
Passarinho me conta então me diz
Porque que eu também não fui feliz
Cadê meu amor minha canção
Que me alegrava o coração
Que me alegrava o coração
Que iluminava o coração
Que iluminava a escuridão
Cadê meu caminho, a água levou
Cadê meu rastro, a chuva apagou
E o meu amor me abandonou
Voou, voou, voou,
Voou, voou, voou,
E passou o tempo e o vento levou
Passarim quis pousar, não deu, voou
Porque o tiro feriu mas não matou
Passarinho me conta então me diz
Porque que eu também não fui feliz
Cadê meu amor minha canção
Que me alegrava o coração
Que me alegrava o coração
Que iluminava o coração
Que iluminava a escuridão
E a luz da manhã, o dia queimou
Cadê o dia, envelheceu
E a tarde caiu e o sol morreu
E de repente escureceu
E a lua então brilhou
Depois sumiu no breu
E ficou tão frio que amanheceu
Passarim quis pousar, não deu, voou,
Passarim quis pousar, não deu, voou,
Voou, voou, voou, voou.

Passarim, Tom Jobim

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Metapoemas (1)

ESPECIARIAS

Compartimentalizo as salas
Sem mobílias.
Mas as mobílias,
Ah, as mobílias são as palavras!!!
Ecos de pessoas,
Vozes mudas moduladas.

(Luciana Melo 04/06/01)

Gracie #1, Cibachrome mounted to plexi , Angela West

quarta-feira, janeiro 24, 2007

a história que te conto (2)

e vivo os melhores anos
da minha vida na certeza
de que se partires haverá
sempre céu entre nós; e
quando olhar uma pedra
no chão, ou a porta bater,
ou este vento frio de inverno
me queimar a face como
o fez hoje, saberei que é
a tua boca que me beija.
se levares o teu corpo para
longe, se o roubares de mim,
a minha alma será sempre o
reflexo exagerado dos teus olhos:
se sorrirem ela dará gargalhadas,
se chorarem ela morrerá de
tristeza. antes de me seres
já o eras, e eu amava-te…
como te amava! do que é teu
só o meu amor me pertence,
nada mais. o teu corpo
não é propriedade minha,
nem o teu coração, nem
o teu amor. nem o teu amor.
se partires ficará a saudade
do teu cheiro a lembrar-me
continuamente como sou feliz.
porque amar-te é lavar-me dia
após dia a alma, mesmo que
o meu corpo não se vista de ti e
os meus olhos não te alcancem.

terça-feira, janeiro 23, 2007

*

segunda-feira, janeiro 22, 2007

sublinhado (50)

Um homem é mais um homem pelas coisas que cala do que pelas coisas que diz.

O Estrangeiro (Livros do Brasil), Albert Camus

domingo, janeiro 21, 2007

Fiama Hasse Pais Brandão: para a Eternidade

DO AMOR IV

Esta vista de mar, solitariamente,
dói-me. Apenas dois mares,
dois sóis, duas luas
me dariam riso e bálsamo.
A arte da Natureza pede
o amor em dois olhares.

Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007)
in "As Fábulas", quasi edições

sexta-feira, janeiro 19, 2007

As matriarcas (3)

Maria Antônia da Anunciação. D. Antônia. Vó Totonha. Mulher forte e homem da casa. Levava a família na rédea curta. Sempre solicitada nas horas de aflições. Criou sete filhos e alguns irmãos. Trabalhou feito louca para que nunca faltasse o necessário. Rigorosa na educação. Temente a Deus. Suas feições duras escondiam um bondoso coração. Com a chegada dos netos, o franzido da testa atenuou-se.
Ensinou-me a fazer contas. Toda a tarde tomava-me a tabuada com direito à prova dos nove. Ralhava quando me via contar nos dedos, coisa que ainda hoje faço. Ela esmerou-se, mas sempre fui péssima em matemática, não tenho a menor afinidade com os números.
Coisa que eu gostava era vê-la costurar. Fazia coisas lindas. Lembro-me de um vestido de casamento todo de organza. Sonhei com ele por muitas noites, imaginando-me naqueles saiotes rodados, flutuantes. Ele tinha flores aplicadas que ela mesma fez. Recortava os moldes, passava goma no tecido e depois metia-lhe o ferro quente para moldas as pétalas. Eu olhava tudo aquilo maravilhada, com olhos de admiração e cobiça. Um dia teria um vestido como aquele, cheio de flores e laços.
Vovó Totonha sempre fez minhas roupas. Só comecei a usar roupas de lojas no colegial, quando minha mãe comprou meu primeiro jeans. De resto, tudo era feito por vovó. As outras meninas morriam de inveja porque minhas roupas eram únicas. Nunca corri o risco de ver alguém com o mesmo modelo. Não sabia eu que a exclusividade das minhas peças não era um capricho ou vaidade, mas contenção de despesas. Melhor assim, ao invés de carregar o trauma da pobrezinha, desfilei com brejeirice o prêt-a-porter de vovó Totonha.
Ela também me ensinou a bordar, fazer crochê, capas de almofada, trabalhar com retalhos... de todas essas atividades manuais, a única habilidade que me restou foi manejar a caneta e isso também devo a ela que alternava a lição da tabuada com as aulas de caligrafia. Eu adorava desenhar as letras na pauta, vê-las transformando-se em palavras redondinhas sobre o papel.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

imagens que se colam ao peito (17)

Williamsburg, 2001, 125x165mm, Pierre Gonnord

quarta-feira, janeiro 17, 2007

a história que te conto (1)

a história que te conto
não tem o lume branco
do poema, nem a água
turva do mar alto, existe.
como se reais fossem os
sonhos que alimentam
o desejo de querer-me,
querendo-te. não falarei
de amor. não falarei de
mágoa nem de saudade
nem da curva que se ergue
sobre o teu pescoço onde
descanso todas as noites.
dir-te-ei que se partir, tu
saberás como e para onde
vou, saberás que estarei
onde sempre me achaste;
porque não se pode ser
duas vezes. não se pode
amar duas vezes quando
deus nos lava as mãos
com fogo. estarei lá, enfim,
no monte dos ascetas. o
mesmo de onde vieste,
de onde vim, de onde
viemos todos. sem medo,
pagarei com a alma e com
o corpo a solidão e o desejo
que não soubemos guardar.

Na estante (7)

Conheço as palavras pelo dorso. Outro, no meu lugar, diria que sou um domador de palavras. Mas só eu - eu e os meus irmãos - sei em que medida sou eu que sou domado por elas. A iniciativa pertence-lhes. São elas que conduzem o meu trenó sem chicote, nem rédeas, nem caminho determinado antes da grande aventura.
Sim. Conheço as palavras. Tenho um vocabulário próprio. O que sofri, o que vim a saber com muito esforço fez inchar, rolar umas sobre as outras palavras. As palavras são seixos que rolo na boca antes de as soltar. São pesadas e caem. São o contrário dos pássaros, embora «pássaro» seja uma das minhas palavras. A minha vida passou para o dicionário que sou. A vida não me interessa. Alguém que me procure tem de começar - e de ficar - pelas palavras.
Através das várias relações de vizinhança, entre elas estabelecidas no poema, talvez venha a saber alguma coisa. Até não saber nada, como eu não sei.

"Não sei nada" in Homem de Palavra[s]. Ruy Belo.


Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor que se despeja no copo da vida, até meio, como se o pudéssemos beber de um trago. No fundo,como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na boca. Pergunto onde está a transparência do vidro, a pureza do líquido inicial, a energia de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta são estes cacos que nos cortam as mãos, a mesa da alma suja de restos, palavras espalhadas num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez, esperando que o tempo encha o copo até cima, para que o possa erguer à luz do teu corpo e veja, através dele, o teu rosto inteiro.
"Plano". Nuno Júdice.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

As matriarcas (2)

- Desfaz esse bico, Tiziu! Anda, diga, o que você faz em São Pedro?
- Eu ajudo meu pai.
- E o que seu pai faz?
- Ele é ferreiro. Conserta as carroças e bicicletas de todo o povoado.
- Parece divertido.
Ele deu de ombros.
- E a escola?
- O que tem?
- Como o que tem? Você estuda, não estuda, Tiziu?
- Estudo, mas não gosto muito. Eu gosto mesmo é de correr por aí no meu cavalo.
- Uma coisa não impede a outra
Mudou de assunto:
- A dona é parente do Nhô Agenor?
- Não.
- Então o que veio fazer aqui?
- Uma pesquisa.
- Não entendi.
- Quero saber sobre algumas pessoas que viveram aqui.
- A dona é da polícia?
Não pude evitar o riso. Sua pergunta continha tanta excitação e aventura.
- Não, Tiziu. Eu conto histórias e elas viram livros.
- Ah! – exclamou todo frustrado.
Minha vez de mudar de assunto:
- Tiziu, será que seu pai me aluga uma bicicleta? Acho que vou precisar de uma.
- Claro. Depois eu levo a senhora lá na oficina para escolher uma bem bonita.
- Ótimo.
- Chegamos.
A pensão do Agenor era um casarão estilo colonial, antigo, mas bem conservado. Móveis rústicos, toalhas de linho, portas pesadas, assoalho brilhando e um cheiro forte de óleo de peroba.
- Vou pegar suas malas.
- Obrigada.
Agora que eu já recuara no tempo, deveria ir até o fim. Sabia que não se tratava de uma história qualquer.

sábado, janeiro 13, 2007

presentinho...


Radiola (6)

Porque hoje é um daqueles dias que põe a gente sentimental pra diabo sem qualquer razão aparente. É um cheiro no ar, um céu azul cobalto... e para completar, um bom vinho tinto convida Lady Day a cantar:

Strange Fruit

The Southern trees bear a strange fruit
Blood on the leaves, and blood at the roots
Black bodies swinging in the Southern breeze
Strange fruit hanging from the poplar trees

Pastoral scene of the 'Gallant South'
The bulging eyes and the twisted mouth
Scent of magnolia, sweet and fresh
Then the sudden smell of burning flesh

Here is a fruit for the crows to pluck
For the rain to gather, for the wind to suck
For the sun to rot, for the tree to drop
Here is a strange and bitter crop...