quinta-feira, maio 31, 2007

sublinhado (60)

Um pensamento independente é um lugar solitário e ventoso. (pág. 39)

A louca da casa (Asa), Rosa Montero

terça-feira, maio 29, 2007

amigos

adoro partilhar a minha casa com os amigos que visitam o porto. nas últimas duas semanas visitaram-me dois, hoje chega mais um e amanhã uma amiga do coração que vem por três meses. se há coisa que me faz feliz é ver a cozinha cheia de gente ao pequeno almoço.

Homem-Aranha

"Também conheço um homem com nome de anjo que, amiúde, morre por amar. Cada vez que ama morre. É como a aranha macho que, quase sempre, morre depois do coito. Fecunda a fêmea tecelã. Esta, depois de o prender na sua teia, devora-o. O homem-aranha, o tal que conheço, ama com abnegação. É a pior forma de se amar. Inocente, espera sempre que os outros homens o amem da mesma maneira."

segunda-feira, maio 28, 2007

imagens que se colam ao peito (20)

"Polynésie - Le Ciel", 1946, Henry Matisse

quinta-feira, maio 24, 2007

Parabéns!

O Insónia do Henrique fez dois anos. Peço desculpa pelos parabéns atrasados, mas ultimamente tem sido complicado, ainda assim e para me redimir, o Insónia é sem dúvida um dos meus blogues preferidos e que leio com muito prazer.

sublinhado (59)

"Muitas pessoas acreditam em Deus sem o amarem, mas eu amo-o sem acreditar nele." (pág. 108)

Esfolado Vivo (Difel), Edmund White

Eis a verdade: tudo não passava de uma grande mentira.
Fazia-o tanto e com tamanha presteza que virou hábito. Acreditava nas suas palavras vãs, nos seus gestos ensaiados, em seu conhecimento forjado.
Construiu enormes castelos de baralho com cartas marcadas, o texto decorado, as marcas no palco.
Foi aí que rasguei o script, troquei a mobília de lugar, soprei suavemente o valete de espadas, e então sua verdade ruiu. A casa vazia não resistiu ao silêncio... entendi que a morte possui uma vitalidade invejável.

Garrafas ao mar (2)

.

Assim deveria ser o fim.

sexta-feira, maio 18, 2007

nota do dia (9)

já não consigo contar os meus cabelos brancos.

"o barulho fere o concreto / lâmina imparcial / sobre a cidade / o barulho faz eclipses / sobre o muro-homem / o murcho homem / que incapaz de silenciar / jumenta-se"

sublinhado (58)

"O pai, os irmãos e irmãs de Luke comungavam todos de um júbilo que ele só alguns anos mais tarde aprendera a designar: Schadenfreude, o malicioso prazer sentido com a desgraça alheia. O rancor e a inveja eram os seus principais sentimentos. Se alguém caía e se magoava, eles gritavam de regozijo. O pai regalava-os com os relatos sibilidados e venenosos dos infortúnios dos seus superiores na escola." (pág. 31)
Esfolado Vivo (Difel), Edmund White

quarta-feira, maio 16, 2007

o talento de "volta"

Sou fã incondicional da Björk e a cada novo álbum confirmam-se todas as expectativas, em especial a enorme vontade de ser surpreendido. Sempre que escuto uma música desta rapariga islandesa, ela que encerra em si e na sua arte o anjo e o diabo, ocorre-me sempre o mesmo pensamento: provavelmente é a única cantora/compositora pop-rock que consegue fazer morrer de inveja muitos compositores eruditos contemporâneos. Ouçam, ouçam e ouçam que desta vez ela até convidou o Antony para um dueto… e comprem, fundamentalmente comprem, porque o prazer no ouvido deve obrigatoriamente ser pago.

terça-feira, maio 15, 2007

At last, but not least...

Para que tu saibas que andas sempre perto de mim, tão perto que poderia tocar-te a mão.
Feliz Aniversário, meu amigo.

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Confessionário (45)

Meu Vítor,
Hoje eu não te falarei a respeito do consaço e do desânimo que solapam minha esperança e fatigam meus ossos, nem muito menos falarei da incompreensão acerca da vida e de seus (des)propósitos... dei-me por vencida, querido, pois no momento em que penso ter entendido as contingências é nesse mesmo instante que dou-me conta da minha ignorância.
Então, vou te falar sobre magia, sobre uma criança audaz, voando num dragão veloz; sobre uma história encantada, dessas que lemos em livros infantis e que estão povoadas de elfos, espadas, coragem, aventuras e de um nobre objetivo.
Era uma vez um menino igual a tantos outros. Ele queria ser super herói, ter grandes poderes, viajar de sua casa para a minha num dragão valente e cruzar os céus em grande velocidade. Quando estivesse bem alto, me colocaria na garupa e rodopiaria em bravas acrobacias. Depois dessa diversão, aí me ensinaria a lutar com uma espada para enfrentarmos, juntos, grandes batalhas.
Ele falou-me de reis e eu sentia-me Sancho Panza, fiel escudeiro de D. Quixote. Deu-me um cavalo, armadura e ensinou-me a língua das fadas. Imaginei-me uma mistura de Morgana e Joana D'arc ou então um cruzamento de She-Ha com cinderela.
Fiquei tão empolgada com sua imaginação e narrativa, meu Vítor, que devo confessar: foi difícil encarar o mundo dos automóveis e da tecnologia. Mas antes de voltar, tive direito a beijo gostoso e uma soneca abraçadinha ao meu cavaleiro encantado.
Não há desânimo que não sucumba a uma boa história e um excelente rapsodo.
Beijos, meu querido.

segunda-feira, maio 07, 2007

nota do dia (8)

infelizmente cada dia tem apenas vinte e quatro horas.

sexta-feira, maio 04, 2007

Não me esqueci de semear palavras nem de regar amizades. Não esqueci, eu nunca me esqueço. Mas sabem essas fases que a vida nos engolfa? Sabem esses espaços, espamos de silêncio íngreme e tempos áridos? Ando desejosa de um oásis e esfaimada pelo ócio.
Mas também há momentos em que a vida afrouxa o laço e nesse exato momento de distração, fugi das amarras dos compromissos e fui rever antigos amigos num sarau. Declamei poemas, ouvi histórias, bebi vinho, cantei...
Numa determinada hora, dei-me conta que há tempos não escrevo um poema novo. Os amigos saudosos perguntaram-me: "por quê?", "abandonastes a poesia?".
Não, não abandonei a poesia, não concebo a vida sem ela. Incapaz de dar uma resposta objetiva - porque a poesia dispensa tal objetivismo - cheguei à única conclusão plausível. Minha não produção poética deve-se a mim mesma, à minha maneira de processar a vida. E eu não ando para versos, para a concisão.
Já tive uma fase em que me dediquei arduamente aos haicais (prefiro chamá-los de poetrix). Fui econômica, enxuta, dizia muito em apenas três versos. Depois fiz contos tradicionais, prosa poética e por fim, apropriei-me dos mini-contos. Eu vivia numa verborragia urgente. Hoje trabalho as séries que espero venham a ganhar maior fôlego e transforme-se em algo mais consistente.
Então respondi que eu era tal qual um poema de Cecília Meireles:

Lua Adversa

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

P.S.: Acho que isso também explica minha entressafra no blog.

terça-feira, maio 01, 2007

sublinhado (57)

"«Aaaah», suspirou Tommaso, «já fui rico e não o sabia!»" (pág. 258)

Uma Vida Violenta (Assírio & Alvim), Pier Paolo Pasolini

terça-feira, abril 24, 2007

nota do dia (7)

o mundo é muito pequeno.

segunda-feira, abril 23, 2007

Garrafas ao mar (1)

Porque há coisas que é melhor nem saber.

sexta-feira, abril 20, 2007

Literatura


Por Rodrigo Petronio*

Pode parecer estranho, mas há um desconhecimento mútuo entre Portugal e Brasil no que diz respeito à literatura, sobretudo à poesia. Excetuando-se alguns casos extremos, é quase inexplicável que ocorra isso com dois países que têm laços históricos seculares e para os quais não há obstáculo lingüístico. A Editora Escrituras criou um projeto que pretende atenuar essa distância. Trata-se da Coleção Ponte Velha.
Já com vários títulos publicados na área de poesia, praticamente todos de autores até então inéditos em livro no Brasil, a Ponte Velha vem demonstrar a possibilidade desse diálogo. Coordenada pelos poetas Carlos Nejar e António Osório, o diálogo com Portugal começou com as antologias deste último e da poeta, difusora de literatura e também diretora do suplemento cultural do jornal A Notícia, de Lisboa, Ana Marques Gastão, chamada A Definição da Noite. Em seguida vieram os livros de Rosa Alice Branco, Nuno Júdice e Pedro Tamen, respectivamente, Soletrar o Dia, Por Dentro do Fruto a Chuva e Caronte e Memória.
Seguiram-se os livros de Ana Hatherly, A Idade da Escrita, e de Cruzeiro Seixas, Homenagem à Realidade. São dois destaques interessantes da Ponte Velha, posto que trazem também um belo conteúdo gráfico. O primeiro, com os poemas visuais e as caligrafias de Hatherly, e o segundo com mostras da obra plástica de Seixas, que é um dos principais nomes do surrealismo português, ao lado Mário Cesariny e Antonio Maria Lisboa.
Um dos destaques também é o livro Animal Olhar, antologia poética de António Ramos Rosa. Um dos mais importantes nomes da poesia de língua portuguesa, Ramos Rosa é autor de uma obra tão vasta quanto complexa. A antologia tenta dar conta dessa grande dimensão, selecionando poemas de seus livros mais representativos. Também traz desenhos feitos pelo próprio Ramos Rosa e alguns poemas inéditos. Trata-se de um poeta de amplos vôos imaginativos e de fortes implicações filosóficas.
Recentemente, a Ponte Velha apresentou diversos títulos e algumas novidades. Dentre eles se encontram Olhares Perdidos de Nicolau Saião, Armas Brancas e Outros Poemas de Armando Silva Carvalho, Palavras Noturnas e Outros Poemas de Isabel Meyrelles e O Arco da Palavra de João Barrento, todos estes organizados por Floriano Martins. A novidade é a entrada do gênero ensaio na coleção, representada pela coletânea de ensaios de Barrento, estudioso de literatura alemã e grande tradutor de autores como Goethe, Trakl e Walter Benjamin. O livro de Meyrelles deve ser ilustrado com obras da própria autora, que é artista plástica.
Paralelamente à Ponte Velha, valem ser ressaltadas iniciativas individuais de algumas editoras de difundir essa poesia de tão boa qualidade. Além da conhecida publicação de boa parte da obra de Fernando Pessoa levada a cabo pela Companhia das Letras, recentemente a editora A Girafa publicou, do Fernando Pessoa ortônimo, Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, uma reunião de fragmentos sobre ele mesmo, vida e arte, e A Educação do Estóico, que escreveu sob o heterônimo de Barão de Teive. Também de Herberto Helder há a ótima antologia da editora Iluminuras chamada O Corpo O Luxo A Obra, com seleção e apresentação de Jorge Henrique Bastos e posfácio de Maria Lúcia Dal Farra. E, recentemente, a Azougue Editorial lançou uma belíssima edição do exuberante Os Passos em Volta, livro de contos do mesmo autor. É ler para crer.
* Rodrigo Petronio é escritor e autor de História Natural, Transversal do Tempo e Pedra de Luz, entre outros.

quarta-feira, abril 18, 2007

*

nota do dia (6)

volto ao sul, como quem tem sede de luz... vuelvo al sur, como se vuelve siempre al amor...

terça-feira, abril 17, 2007

As matriarcas (8)

Fui esperar Tiziu em frente da Escola Municipal. Pelo pouco que já conheço do moleque, cheguei com dez minutos de antecedência para não perdê-lo de vista. Levado como era, imaginei que ao primeiro toque do alarme, ele sairia voando pelo portão, doido para deixar a “masmorra” para trás. Errei. Ele nem esperou o alarme soar, cinco minutos antes do horário, Tiziu saiu pelo portão com o passo apressadinho como se não quisesse dar oportunidade de ser agarrado pelo bedel do colégio. Ele enxergou-me de longe e veio saltitando em minha direção como os olhos arregalados:
- D. Olívia!
- Tiziu!
- A professora já tinha terminado, viu? Não fugi da aula, não senhora.
- Eu não disse absolutamente nada, Tiziu.
- Mas antes que a senhora diga...
- Não estou aqui para vigiar você. Fique calmo. Vim porque combinamos um passeio de bicicleta para mais tarde, mas antes preciso ir a um lugar.
- Que lugar é esse?
- Uma casa que fica no Largo da Esperança.
- No Largo da Esperança? De quem é a casa?
- Foi da minha família: bisavós, avós, minha mãe e agora é minha. Mas ela está fechada há alguns bons anos.
- Não gosto de ir por aquelas bandas, D. Olívia.
- E por quê?
- Porque tem muita alma por lá.
- Como é, menino? Que história é essa?
- Falam que lá tem uma casa assombrada que pertenceu à D. Maria da Anunciação. Em algumas noites, uma dona doida anda pelas ruas do largo, vestida de Maria Madalena...

Minha visão ficou turva e a voz de Tiziu foi sumindo, sumindo até que não ouvi mais nada.

sexta-feira, abril 13, 2007

"Já o disse com a certeza que sempre se confere às afirmações insignificantes. A blogosfera é uma coisa medonha. Aborrece-me a maneira como a gente nela se escancara, de perna aberta, tal qual uma puta fácil, de lábios esborratados de baton carmim, partilhando intimidades, esculpindo a imagem que queremos que os outros tenham de nós. Eu, pelo menos, minto descaradamente, com os dentes todos, que é para me imaginarem interessante, escarnecer dos outros e sentir-me, insana que sou e me quero, diferente. Aborrece-me, sobretudo, a democraticidade da coisa. Qualquer intelectual de meia tigela armado ao pingarelho tem um blog. Qualquer pretenso comentador político escalpeliza, numa diarreia de textos ilegíveis, factos, histórias, notícias. Qualquer rocinante, que zurra aos quatro ventos a sua equídea natureza, largando cagalhões gigantes cor de palha, tem um blog. Qualquer miúda fantástica da Reboleira, daquelas que usam óculos escuros gigantes e, por isso, se assemelham a moscas de olhos metalizados, tem um blog. Enfim, qualquer badamerda tem um blog. Coisa triste, escrever num blog.
(Hoje, confesso, estou especialmente bem disposta. Há sol. Eu sou do sul. Alimento-me de luz e de sol.)"

nota do dia (5)

let's dance!

Ainda sobre o narrador...

Após reler o "Narrador" de Walter Benjamin, fui escolhida por um vídeo lindo, singelo, de uma delicadeza real. Trata-se de um filme grego chamado O tempero da vida (Politiki Kouzina/ A touch of spice). Há tempos não via um filme tão exuberante (como a vida é). Muitas vidas, odores, paladares se cruzam e enriquecem a experiência humana.
O avô do filme é o típico narrador proposto por Benjamin, ele tem muitas histórias a contar e as conta de um modo absolutamente poético e prático. Ele vende especiarias numa pequena loja em Istambul e sabiamente ensina ao seu neto as lições do colégio a partir do sabor dos temperos e torna-se uma referência ímpar para ele.
A culinária serve de pretexto para que questões mais profundas sejam discutidas: a identidade cultural, filosofia, política e o amor.
Mais tarde, avô e neto separam-se devido aos conflitos entre a Grécia e o Chipre. É aí então que esse menino transforma-se num homem e aprende que não é só a comida que precisa de tempero.

quinta-feira, abril 12, 2007

nota do dia (4)

nada a declarar.

quarta-feira, abril 11, 2007

assim, com a mesma impetuosidade desta querida


Love for Sale (Live at Yoshi's), Dee Dee Bridgewater

nota do dia (3)

todas as acções têm consequências. (apanhado algures no filme do David Lynch)

terça-feira, abril 10, 2007

nota do dia (2)

não há estrelas no céu do porto.