quarta-feira, setembro 05, 2007

já agora, e porque nunca o fiz no Sincronicidade, os 10 livros mais importantes da minha vida

por ordem de enamoramento:

1. 'As Ondas', Virginia Woolf*
2. 'Alexis', Marguerite Yourcenar*
3. 'Livro do Desassossego', Bernardo Soares (Fernando Pessoa)
4. 'O Estrangeiro', Albert Camus
5. 'Os Passos em Volta', Herberto Helder
5. 'Espera de Deus', Simone Weil
6. 'Elogio da Velhice', Hermann Hesse*
7. 'Sinais de Fogo', Jorge de Sena
8. 'Em Busca do Tempo Perdido' (7 vols.), Marcel Proust
9. 'Quarteto de Alexandria' (4 vols.), Lawrence Durrell
10. 'Se Isto é um Homem', Primo Levi*

e vou ter que fazer batota, adicionando 4 livros que também foram extremamente importantes para mim.

11. 'Se Numa Noite de Inverno um Viajante', Italo Calvino*
12. 'As Horas', Michael Cunningham
13. 'A Paixão Segundo G.H.', Clarice Lispector*
14. 'Sob o Olhar de Medeia', Fiama Hasse Pais Brandão

*destes autores escolho apenas o livro que mais me marcou do conjunto das suas obras... caso contrário a lista passaria para vinte títulos e uma batota não chegaria...

passo a palavra aos mesmos amigos dos 10 menos.

terça-feira, setembro 04, 2007

Ai que adoro falar mal da vida alheia... hahaha

Meu Vítor, eis aqui a minha lista. Ela está incompleta, tentei encontrar dez títulos, mas só consegui nove. Se no decorrer da semana eu me lembrar de mais algum, prometo incluir. Estes aqui são aqueles que não me despertam a menor, a mais ínfima vontade de uma segunda leitura. Isso não significa que não foram importantes para minha vida. Foram. Eles me ensinaram que o cânone literário não é um dogma religioso e que eu sobrevivo – muito faceira, por sinal – aos olhares congelantes e narizes tortos dos sábios acadêmicos.
Queridão, isso podia virar uma série chamada "Veneninho literário". Hahaha!

And the Oscar goes to:

1. O chatíssimo Ulisses, James Joyce;
2. Dona Flor e seus dois maridos, Jorge Amado*;
3. A dama do lotação, Nelson Rodrigues;
4. Macunaíma, Mário de Andrade;
5. As geórgicas, Claude Simon;
6. Um céu de estrelas, Fernando Bonassi;
7. Eurico, o presbítero, Alexandre Herculano;
8. A casa dos budas ditosos, João Ubaldo Ribeiro;
9. O apanhador no campo de centeio, J.D. Salinger.

* - Para mim, só se salvam do Jorge Amado, Capitães de Areia e A morte e a morte de Quincas Berro D’água.

segunda-feira, setembro 03, 2007

10 Livros que Não Mudaram a Minha Vida

O Manuel A. Domingos iniciou uma corrente intitulada 'os 10 livros que não mudaram a minha vida'. O desafio ainda cá não chegou, mas achei o exercício tão interessante e tenho tanta curiosidade em saber qual será a lista da Lu que resolvi antecipar-me. Falamos sempre dos livros que nos marcaram, que mudaram as nossas vidas, mas, talvez por pudor, nunca referimos os livros que nos aborreceram de morte... o meu barómetro para classificar um livro como 'bom' ou 'mau' é a memória, os 'bons' moram nela para sempre, ressurgindo passagens ou detalhes a todo o momento, os 'maus' caem completamente no esquecimento e só a estante me diz que um dia estiveram nas minhas mãos. Alguns poderão achar um crime, mas cá vai então a lista dos 10 livros que não mudaram a minha vida:

(nesta lista incluo apenas ficção)

1. 'A Sibila', Agustina Bessa-Luís
2. 'O Inominável', Samuel Beckett
3. 'Nenhum Olhar', José Luís Peixoto
4. 'O Vermelho e o Negro' (2 vols.), Stendhal
5. 'A Jangada de Pedra', José Saramago
6. 'Quartéis de Inverno', Osvaldo Soriano
7. 'Austerlitz', W.G. Sebald
8. 'A Princesa', D.H. Lawrence
9. 'Olhos Azuis, Cabelo Preto', Marguerite Duras
10. 'Paris é uma Festa', Ernest Hemingway

Lu, fico à espera da tua lista... estou curioso em relação às escolhas do Carlos, do António Ferro, da Fátima e da Sandra Costa.

quinta-feira, agosto 30, 2007

nota do dia (20)

passamos a vida a subestimar os outros. ninguém sabe o que vai dentro da cabeça de cada um...

quarta-feira, agosto 29, 2007

imagens que se colam ao peito (25)

Georgia O'Keeffe, 1918, Alfred Stieglitz

terça-feira, agosto 28, 2007

janelas abertas (4)

L. é um homem de 55 anos. Há quinze anos que está reformado por invalidez psicológica, a família preferiu assim. Nunca casou e desde a morte dos pais passou a viver na casa do irmão mais velho que lhe arranjou um biscate onde se vai entretendo e juntando mais uns tostões à magra reforma que recebe do estado.
L. quase não fala. Até um ‘bom dia’ é coisa difícil de se lhe arrancar dos lábios. Não se sabe ao certo se vive de acordo com a sua vontade; nunca abriu a boca para dizer o que queria assim como nunca se queixou do destino que a família lhe escolheu. Vive hermeticamente dobrado sobre si próprio e os seus olhos negros terrivelmente brilhantes e irrequietos como o voar de uma mosca parecem ganhar alguma tranquilidade apenas quando o vemos regressar das longas caminhadas que faz todos os dias.
Na família não há memória de alguma vez L. ter tido amigas ou amantes. Pelos trinta e poucos, as irmãs, substituíram-se à sua extrema timidez e fizeram-lhe um arranjinho com a solteirona lá do bairro. Era vê-los todos os domingos sentados no banco de pedra em frente ao café, ele sem abrir a boca debruçado sobre os joelhos e ela tagarelando a tarde inteira fazendo as perguntas e respondendo por ele. Mas nem a anafada da J. resistiu a tanta apatia e continua até hoje sozinha à espera de arranjar marido. Anos mais tarde, o primo M., que tem fama de gabiru, pegou nele e levou-o às putas, mas L. nem uma nem duas, voltou de lá sem saber o que a coisa era.
A família de L. há muito tempo que não questiona a sua estranha existência. Dão-lhe cama e roupa lavada e lá deixam o homem viver à sua maneira. Das longas e misteriosas caminhadas adivinham apenas que regressa feliz.

sábado, agosto 25, 2007

estou parvo... soube agora mesmo da morte do Eduardo Prado Coelho e é coisa que não me entra... que me parece absolutamente irreal.

Lembrando Clarice

“... é da palavra que nascem todas as idéias do Homem – no princípio era o Verbo – e, como já afirmei antes, a palavra é o átomo da alma. E a última razão é que em português, a palavra tem o dom mágico de conter nela mesma – por linda coincidência e sem qualquer implicação semântica – a matéria-prima e seu instrumento. Somente com a palavra pode-se mover a palavra, tirar dela a sua essência, tocar o próprio coração da palavra; já que ela é lavra, já que ela é pá”.
Ziraldo

I - A OBRA COSTURADA POR FORA (OU A CICATRIZ DO MUNDO).


O conjunto da obra da escritora Clarice Lispector sempre foi muito criticado por apresentar estórias e personagens etéreos e esfumaçados, com pouca clareza e difícil apreensão. A autora foi rotulada de intimista e pouco comprometida com questões sociais, ou dizendo de uma outra forma, Clarice era uma escritora não engajada.
Dessa forma, então, Clarice Lispector se lançou ao desafio de responder à crítica, ou pelo menos tentar. Quis provar que sabia (mas, por opção, não desejava) fazer diferente.
A resposta para tal embate se concretizou em A hora da estrela, essa obra avassaladora: contundente e explícita e ao mesmo tempo fluida e velada. Ponto para a crítica, ponto para Clarice.
Como A hora da Eetrela é uma obra grávida de idéias e de elementos para reflexão e análise, pode-se constatar inúmeros aspectos por ela abordados: o papel do intelectual na sociedade; a indigência do povo brasileiro representado na figura de Macabéa; a reflexão sobre a condição da mulher; a discussão sobre o exercício da linguagem/fala como forma de legitimar o discurso competente bem como da apropriação do ato de escrever e de dar/ter voz.
Ler tal obra é ser, de alguma forma, violentamente lançado nesse universo inquietante e questionador, diria mesmo que é impossível não se sentir tentado a tecer comentários sobre esses temas. Ao nos depararmos com tal quadro, desponta uma necessidade urgente, uma quase obrigação de elaborarmos algumas respostas nem que seja para nós mesmos, para não sentirmos o incômodo de parecer, em absoluto, com a personagem. Surge uma vontade de agir, como se pudéssemos gritar (e sermos ouvidos!) em bom e alto som: Reage Macabéa! Fala alguma coisa!
Mas é claro que não é tão fácil assim!!
Ter a consciência do poder da palavra é viver em suspense, porque essa consciência nos diz a todo o momento que ela é fonte de liberdade tanto quanto o é de opressão. Todo aquele que domina o instrumental técnico da linguagem e com ele constrói representações acerca do mundo, faz parte de uma pequena elite que ocupa espaço privilegiado na sociedade, posicionando-se como agente transformador do discurso, decidindo o que deve ser dito bem como seu lugar na escala de importância e competência.
Dessa forma, aquele que tem voz usufrui a liberdade de construir os símbolos e celebrar seus valores. Por outro lado, o fato se de fazer parte do grupo que domina o discurso, necessariamente confirma o seu oposto: a existência dos excluídos, dos marginais, dos impossibilitados de se fazerem representar. Os detentores do discurso “legítimo” estão sempre lembrando a esses outros de que não possuem nem espaço nem voz, logo estão condenados a não compartilhar e celebrar o código dessa minoria. De alguma forma usurpam e aviltam o ser, retirando-lhe a voz e o direito de participar efetivamente dos ritos sociais.
Levando em consideração o texto de J. Carey[1] sobre o papel dos intelectuais na sociedade, é possível observar o estreito diálogo que estabelece com o livro em questão.
Carey nos fala da resistência dos intelectuais em aceitar a presença da massa quer como consumidora de informação, formadora de uma opinião ou (pior!) produtora da cultura formal.
É possível traçar um paralelo entre a posição reivindicada pelos intelectuais representantes do movimento modernista europeu citado no texto de John Carey com os filósofos da Antigüidade, os intelectuais se assemelhariam aos escolhidos, os seres superiores que regeriam a sociedade bem ao modelo desenvolvido por Platão, n’A República[2], para dividir a sociedade grega em grupos segundo a função social que viriam a desempenhar. É a conhecida lei dos três estágios da alma.
As Almas de Bronze formavam os exércitos por estarem mais ligadas às aptidões físicas; as Almas de Prata compunham o setor mercantil e artesanal, provendo os bens necessários para a subsistência; e por fim as Almas de Ouro - aquelas poucas que ocupariam cargos públicos estratégicos ou então formariam a casta dos filósofos, “os escolhidos” pelo seu aprimorado intelecto e aptidão de trabalhar com a palavra, ou dizendo de outro modo, as Almas de Ouro eram as detentoras do discurso dominante, logo, da representação.
As Almas de Bronze morriam como tal, e assim por diante, não havendo a possibilidade de ‘invasão’ na competência dos outros e, mais importante, não ameaçando o status do sábio e propagador da cultura formal.
Carey vai mostrando, ao longo do seu texto, o comportamento desses intelectuais (não tão distante do modelo idealizado por Platão) diante da crescente transformação social: crescimento demográfico, o advento da imprensa escrita, a política de alfabetização, etc. Vendo-se impossibilitados de brecar o processo histórico, criaram um mecanismo poderoso, desenvolveram um código de escrita bastante elaborado como forma de excluir a massa e continuar lhe negando direito à voz, permitindo que a elite intelectual permanecesse dominando o discurso.
Ora, não é essa a estória da nossa heroína trágica, de Macabéa?
Hoje, já é possível aceitar o fato (ou a desculpa) de que a indigência seja pelo menos representada na literatura, mas também é sintomático que num plano de análise (que chamarei de material) essa indigência seja ironicamente representada por uma personagem como Macabéa, tão frágil, de "corpo cariado" e sem voz ou pelo menos inconsciente da sua existência.
Por mais vida, por mais sentimentos profundos e complexos que Clarice tenha dotado sua obra e sua Macabéa – mulher, feia, nordestina, semi-alfabetizada –, sua percepção e apreensão só é possível por um leitor com características opostas às da personagem. (Que contradição! Um livro escrito sobre a massa, mais especificamente sobre o povo brasileiro, “só pode ser lido [3]” pela mesma elite que dela fala!).
Se Clarice já é inerentemente uma escritora de difícil leitura e compreensão, em A hora da estrela, o universo humano ficou ainda mais particularizado, ou seja, voltado para uma elite detentora de bens simbólicos refinados o suficiente para adentrar em tão densas questões. Falando mais claramente: a massa está presente na obra com todas as implicações e ambigüidades possíveis. Mais do que isso, a massa, protagonizada por Macabéa, é elemento primordial no livro, contudo ela não tem acesso a ele e, mais importante, não foi escrito por alguém que a represente.
Recuperando o ponto onde disse haver distintos planos de análise da obra, um que chamo material e um outro de existencial, quero desde já esclarecer que são duas faces de uma mesma moeda. Esses planos formam uma díade inseparável, mas para efeito de visualização e entendimento, creio ser legítimo fazer esse recorte.
À primeira vista, é possível apontar um plano material de análise. Diria que é aquele explicitado pelo narrador-personagem, aquele que salta aos olhos, tamanha a crueza com que delineia as características de Macabéa: ela é feia, frágil, vaga, vazia, desinteressante, sem voz e “incompetente para a vida”. Não tem opinião, vive exposta ao que o acaso lhe revela e o que revela é inconteste.
A começar pelo próprio nome. MACABÉA comporta todas as implicações da ambigüidade e do paradoxo dos planos de análise. Macabéa é o feminino de macabeu. Macabeus[4] é também um livro (subdividido em duas partes) do Antigo Testamento que conta a estória do cativeiro e libertação dos judeus depois do domínio de Alexandre Magno da Macedônia. Após uma fase de gozo de liberdade religiosa, os hebreus caíram sob o jugo dos reis da Síria. Antíoco IV acentuou a luta contra os judeus quando impôs aos mesmos o helenismo como prática religiosa e punindo com pena de morte a prática da religião judaica. Alguns judeus preferiam a morte ao abandono da sua fé. Posteriormente, num movimento de resistência, foram chefiados primeiro pelo sacerdote Matatias e depois pelos macabeus: Judas, Jônatas e Simão.
Assim como os macabeus foram obrigados a se submeter a uma imposição tirana, cerceadora da liberdade religiosa, também a nossa heroína se viu obrigada a sobreviver num mundo opressor que limita sua própria liberdade de existir.
E o que tudo isso quer dizer? Macabéa traz em si mesma o germe da contradição: encontra-se encarcerada pela sua própria inadaptação à sociedade de valores capitalistas (plano material) ao mesmo tempo em que tudo explicitamente negativo que possui representa a liberdade plena do mundo a ser vivido (plano existencial).
O corpo, a fragilidade da heroína sem voz é o cativeiro que a aprisiona, gritando muito alto para o mundo que ela é incapaz de reproduzir o sistema no qual está imersa. Em tal mundo ela não se encaixa, tanto que no fim ela morre (talvez como aqueles macabeus que preferiam a espada a negar suas crenças). A sociedade alardeia: Macabéa, não existe lugar para você nesse mundo! Em contrapartida, sua liberdade, sua redenção se localiza num outro plano: o da afetividade. A sua incompetência para viver (os valores pequeno-burgueses) é refletida na sua incompetência para enganar, ambicionar ou ferir o outro. Apesar de ser (aparentemente) vazia e estúpida, Macabéa, à la Sartre, dialoga exaustivamente consigo mesma, se confronta, questiona a si e a tudo o tempo todo quando duvida das coisas. E se há algo que a ‘velha Maca’ possui são dúvidas: não tem certeza de quem é, do que faz, da dor e do amor que sente.
Será coincidência que a construção dessa personagem apática abrigue em si mesma a desgraça e a força do poder de resistência de um povo?


II - A OBRA COSTURADA POR DENTRO (OU A OBRA POR ELA MESMA).


Notemos que as interpretações e correspondências estabelecidas entre a obra e a lógica do tempo e do espaço do mundo ‘real’ (contemporaneidade), podem também ser feitas nos limites do próprio livro que nesse sentido é atemporal, porque levanta questões de ordem internas (diálogo de si sobre si mesmo), como as questões de estética, de estilo, de linguagem e da própria relevância da obra como tal.
Por exemplo, impossível deixar de perceber o diálogo e os paralelismos que se estabelecem entre Clarice Lispector e Machado de Assis, no que diz respeito ao estilo.
O primeiro ponto que salta aos olhos é a questão da onisciência/onipresença do autor/narrador/personagem com os narradores de Machado. Rodrigo S.M. possui a virulência e a sutileza nas/das palavras e reflexões sobre o destino da personagem. Assim como os narradores de Machado, ele não se restringe a narrar fatos. Na verdade, ele está tão entrelaçado na vida da heroína que por vezes fica difícil reconhecer de quem são os sentimentos e impressões do mundo e das coisas. Na instância humana do romance, ele conhece tão bem sua personagem que chegam a se confundir, são antípodas de uma mesma relação.
Ao mesmo tempo, (numa outra instância que reconhecemos enquanto exercício da linguagem) demarca o abismo que se estende entre os dois. Ele é o detentor da fala, do discurso. Várias vezes se gaba do estilo metalingüístico e do domínio do seu instrumento de trabalho – a palavra!
Um segundo ponto é a prevalência da análise psicológica (rica nas obras de Machado) que ganha grande destaque como questionadora do ser humano e do seu papel social, da relação metafísica entre o Deus criador e a Existência tal como se apresenta: o intelectual tem esse caráter divino de criar vida, inventar um mundo próprio, agindo como um Deus no seu Universo literário. Essas inquietações são sentidas através de Clarice, Deus-mor da obra; de Rodrigo, “co-criador” de Macabéa e de sua condição (melhor seria dizer sua não-condição); e da própria Macabéa, que é incapaz de inventar um mundo próprio porque desconhece que possa fazê-lo.
O terceiro ponto é o jogo que a autora faz com o conto “A cartomante[5]”, usando exatamente os mesmos elementos contidos neste, ou seja, apresentando uma saída externa à personagem e sua trajetória frente à impossibilidade deles próprios darem uma resposta a suas angústias.
Macabéa não tem alternativas no espaço no qual está imersa e, quando surge a oportunidade de reação, ela é falseada porque não é uma ação provocada pela consciência da sua situação no mundo, qualquer que seja o plano de análise, mas induzida por uma ação salvacionista externa e superior que está além da realidade vivida.
Não podemos esquecer as pitadas de ironia com que a autora dá cor ao quadro e faz as ligações entre as duas realidades: a da ficção e da não-ficção. Clarice ‘brinca’ metafórica e simultaneamente, com os valores do universo literário e os da sociedade capitalista de consumo.
A saída apontada pela cartomante de Clarice está no encontro de um amor específico e preconceituosamente estereotipado, aceito como modelo de sucesso dentro da sociedade. A salvação de Macabéa se dá pela mão de um belo homem louro, rico e estrangeiro. Sintomático que nossa heroína seja pobre, esteticamente desinteressante e nordestina e que sua ascensão social (material) e humana (existencial) só possa se concretizar à margem do processo de tomada de consciência, da SUA consciência. Mais uma vez é marcada a incompetência de Macabéa para superar suas debilidades por ela mesma.
No fim, vence o sistema de valores capitalistas. Não há qualquer redenção para ela. Ao mesmo tempo em que seu autor/escritor (Rodrigo/Clarice) se embriaga e se confunde na existência de Macabéa, dela se diferencia enquanto ator, agente da transformação social (ele é o intelectual) quando - apesar de toda a coincidência do oco de suas vidas - ele continua a existir e tendo lugar no mundo, continua sendo aceito, continua comendo morangos. . .


[1] CAREY, J. “A rebelião das massas” in Os Intelectuais e as Massas – orgulho e preconceito entre a intelligentsia literária, 1880-1939. São Paulo: Ars Poetica, 1993.

[2] É preciso deixar claro que o princípio de seleção das almas obedece ao critério de igualdade de oportunidades. Todos os cidadãos receberiam uma mesma orientação até o teste. Os reprovados nessa primeira etapa, consequentemente paravam de receber qualquer instrução, constituindo o exército - as almas de bronze. Os aprovados prosseguiam nos estudos até o novo teste. Os reprovados formariam um segundo estamento social e os aprovados recebiam como prêmio a especialização nos estudos, logo, constituindo a elite do saber, as almas de ouro.

[3] Cabe aqui uma ressalva: quando digo que este livro só “pode ser lido por uma...” não está aqui contido qualquer espécie de preconceito. É claro que não existe um público apto para ler especificamente Clarice, João Cabral, Machado ou qualquer outro escritor. A diferença que estabeleço é de que há algumas especificidades concretas exigidas para esta leitura da obra que certamente a massa destituída de voz não consegue alcançar, pois – parafraseando Bourdieu – não tem a apropriação dos instrumentos de capital simbólico ou está fora deste determinado campo científico. Ou ainda em outras palavras, os representantes da massa não podem ser seus próprios críticos, pois não alcançam os códigos do campo literário. E isso nada tem a ver com a sensibilidade de cada leitor em relação a uma obra ou autor.
Ver BOURDIEU, P. “A produção e a reprodução da língua legítima” in A Economia das Trocas Lingüísticas. São Paulo: Edusp, 1996 e “O campo científico” in A Economia das Trocas Simbólicas.

[4] “I e II Livro dos Macabeus” in Bíblia Sagrada. Ed. Paulinas. p.1110-74.

[5] Machado de Assis. “A Cartomante” in Contos. Ed. Ática.

sexta-feira, agosto 24, 2007

imagens que se colam ao peito (24)

sem título, serigrafia, Noronha da Costa

Nunca percebi muito bem a minha relação com a pintura de Noronha da Costa, é como se ela existisse em mim antes mesmo dos meus olhos terem entrado em contacto com ela. Teria eu quinze ou dezasseis anos quando vi um quadro seu pela primeira vez, numa galeria em frente ao Itaipu na Rua da Galeria de Paris. Foi um encontro estranho e que me provocou medo... lembro-me de ter sentido um nervosismo idêntico ao que sentimos quando um amigo numa conversa informal descobre algo da nossa intimidade que queríamos muito esconder; o mesmo tipo de desconforto que se manifesta quando tentamos a todo custo esconder a nossa ansiedade e a primeira pessoa que encontramos pela frente nos diz 'que se passa contigo? pareces tenso...'. O que senti nesse dia e se repete sempre que olho um trabalho de Noronha da Costa é uma espécie de invasão da minha intimidade, como se o pintor adivinhasse o meu modo de olhar o mundo, como se ele soubesse que eu tendo a colocar entre os meus olhos e o que vejo o mesmo véu enevoado, desfocado, a mesma atmosfera densa e lúgubre que esconde e despersonaliza os sujeitos retratados nas pinturas. Ou então o processo contrário, que para mim ainda é mais assustador, ser do conhecimento dele que esse sujeito sou eu e então mostrar-me, pintar-me tal como eu me mostro e me pinto perante os outros, como um vulto, uma sombra, uma forma por detrás de uma camada de vapor espessa que me despersonaliza e desmaterializa na atmosfera e que transforma a minha identidade concreta, o meu 'eu' em apenas 'alguém'.

Viver

À medida que os anos vão passando, penso no que fica para trás como um lugar de paisagens difusas. Mas reparo também nos desleixos, na forma muito natural como fui perdendo o interesse por uma série de “coisas”. Só para dar alguns exemplos mais óbvios, verifico que praticamente deixei de comprar CDs, jornais não leio e já quase não vou ao cinema. Teatro nem se fala e exposições só muito, mesmo muito, de vez em quando, levado pelo acaso e sem qualquer intenção. Concertos? Só os do trabalho e alguns com um s no lugar do c da segunda sílaba. Concluo que a minha vida é uma sucessão de abandonos, e que cada vez gosto mais de viver.

terça-feira, agosto 21, 2007

nota do dia (19)

agosto costuma ser tranquilo. tudo pára, a cidade fica vazia. mas tal como o tempo, o meu agosto parece trocado - as férias dos outros costumam fazer crescer a acalmia, este ano fazem crescer pilhas de papéis no estirador.

quinta-feira, agosto 09, 2007

O diário de G.H (9)

Lázaro. Foi esta a palavra que ela grafou em alto relevo sobre minha pele, como o arranhão de uma fera. O nome queimava na minha superfície,e ra um braseiro vivo, um vulcão cuspindo lavas. Não importava o que ou o quanto fizesse, nada aplacaria a ardência.
Foi então que os sonhos começaram a visitar-me todas as noites, assiduamente. Eles contavam-me sobre ela de maneira enigmática e fragmentada. Era um jogo, um puzzle.
Depois os sonhos cessaram e a ardência cedeu, a pele cicatrizou e de repente uma nova descamação. A pele ressequida foi saindo e mais uma vez surgiram os olhos súplices. Eles revelaram o segredo da palavra.
Disse-me que vivia em mim já a algum tempo. Seu embrião, latente, esperava pelo momento certo de fazer-se presente. E exatamente no seu aniversário de um ano, ela abriu os olhos pela primeira vez, esticou pernas e braços procurando ajustar-se à minha forma.
Como Lázaro, ela ressuscitou.
A quantos fora dada uma segunda chance? Uma nova vida? Nascer e nascer?
Esqueceram apenas de me perguntar se eu queria, se eu estava disposta a ter dois corações a bater e, conseqüentemente, a se dilacerarem.

segunda-feira, agosto 06, 2007

nota do dia (18)

ontem foi um dia perfeito.

terça-feira, julho 31, 2007

nota do dia (17)

primeiro Bergman, depois Antonioni... (será que por lá eles se chamam uns aos outros?)

Porque os morangos serão sempre silvestres

Singela homenagem a Ingmar Bergman

Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket

domingo, julho 29, 2007

Uma dose de ópio, por favor. On the rocks!

Quatro das cinqüenta e uma medalhas de ouro que conquistamos até agora nos Jogos Panamericanos.
Tiago Pereira, natação.
Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket
Diego Hipólito, ginástica olímpica.
Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket
As meninas da ginática rítmica.
Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket
Os meninos do vôlei.
Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket

terça-feira, julho 24, 2007

nota do dia (16)

obrigado amiga pelo cartão. foi o mais bonito que recebi até hoje. sabes que estou sempre contigo.

quarta-feira, julho 18, 2007

Radiola (9)

Devido aos últimos acontecimentos (escândalos, corrupção, crise ética, desvio de dinheiro, violência, ...) na terrinha, senti vontade de ouvir essa "musiquinha". Quem sabe assim eu me recorde que apesar de tudo ainda é bom ser brasileira.

Hino Nacional do Brasil

(Joaquim Osório Duque Estrada - Francisco Manuel da Silva)

I
Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
De um povo heróico o brado retumbante,
E o sol da Liberdade, em raios fúlgidos,
Brilhou no céu da Pátria nesse instante.

Se o penhor dessa igualdade
Conseguimos conquistar com braço forte,
Em teu seio, ó Liberdade,
Desafia o nosso peito a própria morte!

Ó Pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!

Brasil, um sonho intenso, um raio vívido
De amor e de esperança a terra desce,
Se em teu formoso céu, risonho e límpido,
A imagem do Cruzeiro resplandece.

Gigante pela própria natureza,
És belo, és forte, impávido colosso,
E o teu futuro espelha essa grandeza

Terra adorada,
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!

Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada, Brasil!

II
Deitado eternamente em berço esplêndido,
Ao som do mar e à luz do céu profundo,
Fulguras, ó Brasil, florão da América,
Iluminado ao sol do Novo Mundo!

Do que a terra mais garrida
Teus risonhos, lindos campos têm mais flores;
“Nossos bosques têm mais vida",
“Nossa vida" no teu seio "mais amores".

Ó Pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!

Brasil, de amor eterno seja símbolo
O lábaro que ostentas estrelado,
E diga o verde-louro desta flâmula
- Paz no futuro e glória no passado.

Mas, se ergues da justiça à clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte.

Terra adorada
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!

Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada, Brasil!

nota do dia (15)

não sinto necessidade de outra forma de publicação que não esta.

terça-feira, julho 17, 2007

Um homem que a uma mulher cita palavras de escol com intuito encoberto de a alucinar para de seguida a foder, na realidade não quer foder a mulher, quer foder as letras que citou. E ela sabe, porque é a criadora oculta das letras citadas, o ser grotesco do verbo completo. Não por acaso ela é a mulher; ao cimo das catedrais erectas essa gárgula maldita sempre vigilante.

quinta-feira, julho 12, 2007

Confessionário (47)

Querido Vítor,

Nem me recordo a última vez que escrevi tranquilamente como agora, sentada diante a mesa com minha caneta e bloco de anotações, completamente consciente e envolvida com o ato de comunicar algo. Ultimamente era ligar o computador e escrever direto na tela, coisa que abomino. Para mim, as palavras só fazem sentido quando as rabisco. I know, I’m oldfashioned.
Além disso, estive adoentada. Estou fazendo uma série de exames, mas acho que até o final de julho termino o tratamento. Sobrei isso depois te escrevo.
Sobre Lavoisier, parece que pelas bandas de cá do Atlântico as coisas transformam-se da pior maneira possível... numa música da Rita Lee (que o meu João adora, por motivos óbvios) , tem um refrãozinho que diz assim: “tudo vira bosta”. No Brasil, os donos do poder, os reis da corrupção têm o dom de Midas às avessas: tudo o que eles tocam, salvo raríssimas exceções, vira merda. Lavoisier aqui mostra seu lado putrefato, os cadáveres, em breve, transformar-se-ão em vermes. Tomara que pelo menos nessa forma, eles tenham alguma utilidade; que sirvam, ao menos, de adubo de boa qualidade.
Tirando o caos político (será que sobra alguma coisa?), minha vida nunca foi tão monotemática. Estudo para concursos, faço uma revisão aqui, outra acolá; presto serviços a uma pequena produtora de vídeo e para um instituto de pesquisa da Universidade de Brasília. Nas horas vagas, quando vagam, aperfeiçôo meus conhecimentos culinários. Quem sabe não abro um bistrô, hã?
Ontem, eu vi Sobre meninos e lobos, do Clint Eastwood. Filme bacana, meu amigo. Existe uma leitura à la Taine de que alguns aspectos de nossas vidas são determinados (e determinantes!) por experiências marcantes. Elas aderem à nossa pele e tornam-se as digitais da nossa alma. Acho que aí está contida a idéia acerca de uma das garrafas que lancei ao mar: não existem mais borboletas a bater asas. Há coisas definitivas, meu Vítor, e esta é uma delas. Terei que aprender esta emoção de outra maneira. Quem sabe não possa ouvir o som das asas de um beija-flor?
Sabe, tenho sentido tanta falta da Clarice Lispector. Sinto que ela me chama em som absolutamente audível. Eu digo que ela me espere, que tenha paciência e uma boa dose de compaixão par com meus neurônios, mas o chamado está cada vez mais freqüente.
Ah, deixa-me dizer-te de novo que estou exultante em vê-lo às voltas com A.G. Reler o De gênese tem sido um exercício gratificante... e no principio era o medo. Ah, Vítor, sempre o mesmo medo.
Tomei uma decisão e pretendo colocá-la em prática até o fim do ano, no mais tardar. Resolvi olhar o medo nos olhos e enfrentá-lo. Acredito que essa seja a única maneira de me libertar de uma vez por todas dos meus fantasmas do passado.
Esqueci de mencionar que no mês passado ganhei o 2° lugar num concurso literário que participei na categoria poesia. Foi uma alegria incrível, uma sensação de ser ouvida e entendida. Sentir que o que escrevo desperta algum interesse é algo reconfortante.
Ando um pouco farta da falta da polifonia, da incomunicabilidade. Não percebo interesse no debate das idéias, na troca de conhecimento. O mundo anda preocupado com outras questões. Não me agrada o fato de produzir vitrines tão somente, mas isso é assunto para outra conversa.
Desculpe se o confessionário de hoje mais parece uma carta, mas ando saudosa de uma boa correspondência, como se diz por aqui, de uma boa prosa.
Desculpe também meus longos intervalos. Sei bem que não me cobrar nada nem me fazes pressão, mas sinto-me em débito.
Querido, a noite já vai alta e preciso dormir.
Beijos,
Tua Lu.

imagens que se colam ao peito (23)

Seascapes, 1980/95, Hiroshi Sugimoto

O teatro da repetição opõe-se ao teatro da representação, como o movimento se opõe ao conceito e à representação que o relaciona com o conceito. No teatro da repetição experimentamos forças puras, traçados dinâmicos no espaço que, sem intermediário, agem sobre o espírito, unindo-o directamente à natureza e à história; uma linguagem que fala antes das palavras, gestos que se elaboram antes dos corpos organizados, máscaras antes das faces, espectros e fantasmas antes das personagens - todo o aparelho da repetição como «potência terrível».

Différence et Répétition, Gilles Deleuze


sublinhado (67)

«Os hipócritas desfiguram o rosto para que os outros vejam que eles jejuam. [...] Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, para que o teu jejum não seja conhecido dos homens, mas de teu pai que está ao corrente do segredo...» (Mt., 6, 16-17).
Não estará talvez aqui o imenso e incessante convite à íntima libertação que é o esquecimento total de si, de um ego magnetizado pelos espelhos invertidos da psicologia e do social, despojamento do que engana e faz tropeçar o espírito para adquirir o pé ligeiro, o ritmo feliz, o dispensador de felicidade dos santos? Fora com as roupas, para o chão, no solo do episcopado, o amor perfeito exige plena soltura dos laços do calculável e do aparente, do passional e do aprovado, e é nem mais nem menos este o último sentido do dar o que se tem aos pobres, renegar-se a si próprio, pegar na cruz e seguir o voo daquele passo, estender a outra face e liquidar as dívidas. A ladainha famosa chamada da humildade, composta há meio século por um altíssimo dignitário da igreja romana («Do desejo de ser estimado... louvado... honrado... consultado... aprovado... do temor de ser desprezado... rejeitado... esquecido... troçado... suspeitado... liberta-me, Jesus»), deveria na realidade chamar-se ladainha da regeneração, da libertação gaudiosa, daquela santa indiferença de que a virtude central da humildade é condição e consequência, semente e fruto completo. Grande e delicada é a sprezzatura de certos mendicantes, em cujos olhos resplandece uma liberdade tão soberana que dar-lhes a oferta mais insignificante é inesperadamente um milagre que se recebe. (págs. 115 e 116)
Os Imperdoáveis (Assírio & Alvim), Cristina Campo

quarta-feira, julho 11, 2007

sublinhado (66)

Hoje a nenhum leitor é permitido ler alguma coisa sem se justificar. Mas convém-lhe, tal como àquele [o chinês da revolta dos Boxers que lia um livro enquanto esperava a guilhotina], ficar calado. Se proferisse uma só palavra sobre as razões da sua leitura, acabaria por ser, para usar um eufemismo, impedido de continuá-la. Porquê? Em primeiro lugar é um puro milagre que lhe tenha chegado às mãos aquele livro. Como diz Marianne Moore de um eminente poeta de hoje: «Ele é repreendido pela sua arte perfeita; o escritor já não pode ser excelente na sua obra sem ser como o cão de Coriolano, a quem se bate tanto por ladrar como para que o faça». (pág. 79)
Os Imperdoáveis (Assírio & Alvim), Cristina Campo

'Anger Management'

'Anger Management'... nada contra, são opiniões e o artigo até me faz algum sentido... mas no post imediatamente a seguir dizer o contrário: Um projecto para a vida que ando a desenvolver com Th.: conhecer os melhores restaurantes do mundo. ; ficamos, leitores, 'sadicamente espicaçados' na nossa 'curiosidade'! O 'cozinheiro sueco' seria uma boa alternativa...

Garrafas ao mar (4)

Engraçado... passamos mais tempo abstraindo, teorizando sobre a vida, a dor, a morte, o amor, enfim, os sentimentos, do que propriamente nos entregando a eles.

terça-feira, julho 10, 2007

um poema para Fiama

A dor é o que há de mais humano
em deus, a luz que o pontifica.
Quando crescemos no interior
de uma ausência permanente,
o sagrado que se oculta
por detrás da nossa pressa
tende a mergulhar num mar
profundo de incógnitas.
Procurar respostas é humano,
inspirar dúvidas é divino.
Mas a dor, a dor é o que há
de mais humano em deus.
Não importa quem começou o quê.
Certo é terem havido homens
mais próximos dessa condição
que dizemos sagrada,
do que todos os deuses do mundo
numa orgia de perfeição.
Sei que na dor nós vencemos
.Sei que pela dor nós crescemos
até ao mais alto dos céus: a obra
que fica na carne da língua.
Não será essa a nossa condição?
Um sacrifício de sangue, uma prisão
de desejos, uma força de criar?
Resta-nos uma vida, um adeus.

Henrique Manuel Bento Fialho,
in Um Poema Para Fiama,
coordenação de Maria Teresa Dias Furtado e de Maria do Sameiro Barroso,
Editora Labirinto,
Amarante, Maio de 2007.

de génese (1.3.)

e no corpo deus viveu dois dias alheio ao destino irrevogável do sangue. nas mãos fechadas segurava o pó com que ia lavando a face e curando a cegueira cada vez mais intensa e escura. por entre o brilho intermitente dos cabelos dourados a vida existia-lhe apenas no ventre, rubra, embalada pela melodia do duplo sexo e a carne entoava labaredas num fogo cada vez mais ardente e visceral. e nesses dias deus existia somente na doce promiscuidade do corpo e não chorava a alma porque o lume era alimento bastante. no canto do universo a alma permanecia quieta e atenta. assistia ao espectáculo orgíaco do deus-corpo em consumo e a cada rasgo de sangue, a cada lago de saliva criado nas membranas do vazio, a alma chorava-lhe a volúpia e a rendição. e eis que ao vigésimo segundo dia o deus-corpo se abafava de prazer e a pele já não respirava e o lume não regenerava e o pó já não curava e a atmosfera existia apenas sob a forma de um manto sujo que tingia de negro os cabelos de deus. deus lutava para manter o corpo vivo. gritava pelo pó e ordenava que o pó o curasse e o pó não obedecia. e foi que deus percebeu que o pó era impuro e inerte e se arrependeu e o amaldiçoou para sempre.

sexta-feira, julho 06, 2007

imagens que se colam ao peito (22)

'Gray Relief on Black', 1959, Latex paint with marble dust on canvas, MoMA, Nova York, Antoni Tàpies

quinta-feira, julho 05, 2007

"o século do medo"

Em resposta ao post de AF:

Fiquei a saber (a acreditar) que o nosso século é o século do medo. O sentimento do absurdo tem sido substituído, ou melhor, tem sido reescrito, mas permanece determinantemente no espírito dos homens. É na verdade impossível esquecê-lo. Talvez por essa razão me lembre de Camus (ou Nietzsche), quando leio Roth, ou recupere os quadros de Rothko quando me encontro com a poesia de Pessoa, ou quando leio, por exemplo, aquele poema de Hesse: «É estranho andar na neblina!/ A vida é solidão./ Nenhum de nós conhece os outros,/ Todos estamos sozinhos.» A questão do sentido é a mesma em vários autores. Não há excesso de expectativas, antes pelo contrário, de certa forma as possibilidades de cada homem diminuem e multiplicam-se as súplicas. É neste sentido que os romances de Roth se aproximam aos ensaios de Camus, (sobretudo um, «O Mito de Sísifo»), onde a vitória do rochedo, é contundente e inevitável, tal como em «Everyman», de Roth, onde o rochedo se ergue da tristeza no coração daquele homem.
O medo, é enorme, do tamanho de um rochedo, ao ponto de ser inútil o dizer, ao ponto de nada poder parar o homem absurdo. Para onde nos conduz o absurdo? Há duas vidas e duas vias que me impressionam particularmente. Duas mortes, a de Camus e a de Sándor Marai. Como se sabe, Camus, em «O Mito de Sísifo», propõe a revolta e não o suicídio, é o desprezo que vence a morte. No capítulo «O Suicídio Filosófico» essa ideia surge-nos de forma clara: «não me interesso pelo suicídio filosófico». Camus morre em 1960, ironicamente, atropelado. Marái, escritor Húngaro, autor de «As velas ardem até ao fim» (titulo também ele espantoso), foi perseguido, esteve exilado, sobreviveu à II Guerra Mundial, assistiu à morte do seu filho de poucas semanas, e da sua mulher Lola, e foi, em vida, completamente esquecido enquanto escritor. Márai suicida-se com um tiro na cabeça a 22 de Fevereiro de 1989. Se Camus estivesse vivo possivelmente diria que Márai não levou o absurdo da sua vida absurda consigo no momento da sua morte. Camus escolhe a revolta, a frustração eterna, ou a eterna vivacidade, mas não leva também o seu caminho sem saída até ao fim. Este é-lhe interrompido. Márai escolhe o suicídio, pondo termo a tudo. Com Camus percebemos essa diferença: «Tiro do absurdo três consequências, que são a minha revolta, a minha liberdade e a minha paixão. Pelo jogo da consciência, transformo em regra o que era convite à morte – e recuso o suicídio.»

Li recentemente "Todo-o-Mundo" de Philip Roth e o livro remeteu-me imediatamente para um outro autor, que também citou neste post, Herman Hesse, especificamente para um livro a que nem sempre se atribui grande importância mas que para mim será uma das suas obras mais interessantes, mais sensatas e lúcidas, refiro-me ao "Elogio da Velhice". Os dois livros falam do mesmo, embora pareçam ser a antítese um do outro. Hesse ensina a fugir da morte, apresenta a velhice como a triagem necessária à evasão do remorso. Aproxima-se de uma ideia também desenvolvida por Cristina Campo de conexão da velhice com a infância, como se nessas fases da vida tivéssemos mais claro o significado da palavra 'essência'. Roth é muito mais duro (talvez pelo olhar atento da contemporaneidade - ser velho nos nossos dias parece-me substancialmente diferente de ser velho meio século atrás) compondo-nos um retrato de medo e solidão. Toca a problemática da opção… se eu tivesse feito assim ou assado será que as coisas teriam sido diferentes?... do remorso e da ausência de paz que ele elimina numa fase da vida em que provavelmente apenas se desejaria uma quieta serenidade.
Estou completamente de acordo consigo, quando o relaciona com a ideia de absurdo das obras de Camus: não há opções certas ou erradas, há exclusivamente opções; e as segundas vias, esses ‘e se eu tivesse feito desta ou daquela maneira’ não passam de pura especulação da imaginação. Tendemos a imaginar as segundas vias, as opções preteridas, como a resolução dos problemas, mas quem nos garante que não seriam um fracasso idêntico àquelas que nos provocam o medo e o remorso? A imaginação, a fantasia é sempre muito mais generosa do que a realidade. O condicional ‘e se’ transporta a esperança que o pretérito perfeito ‘eu fiz’ mata e encerra no passado. Roth tem isso bem presente, caso contrário não nos ofereceria frases como "- Não podemos refazer a realidade - disse ao pai. - Temos de aceitá-la tal como ela vem. Aguentar firme e aceitá-la tal como ela vem." ou aquele maravilhoso último parágrafo.