*
até Outubro
X. é uma mulher de 40 anos. Saiu de casa duas horas antes de entrar ao trabalho impecavelmente vestida como de resto é seu hábito. Não demora mais do que vinte minutos no trajecto e os colegas fartam-se de perguntar por que raio sai ela de casa tão cedo não tendo filhos para levar à escola e marido a quem dar o nó da gravata… X. esboça um sorriso e diz-lhes ‘quem me tira o prazer de um pequeno-almoço tranquilo na frescura da manhã, tira-me tudo’. Mas hoje bem poderia ter saído de casa quatro ou seis horas antes, visto nenhuma das bombas que tomou para adormecer ter surtido efeito.
X. foi sempre motivo de orgulho para os pais. Nunca lhes causou qualquer embaraço, nem mesmo nas idades em que seria normal fazê-lo. Sempre a melhor aluna da escola, estudiosa e aplicada, filha amiga e companheira, profissional exímia, mulher generosa capaz de tudo pelos amigos, enfim, o desejo de qualquer casal… qualidades que, associadas a uma beleza fina e delicada e a um trato de uma simpatia só, faziam a mãe perguntar-se de onde na família teria sido ressuscitada tal combinação genética. Nunca foi necessário exigir-lhe nada, os seus actos nasciam antes de serem pedidos. Uma filha que nunca deu trabalho.
Sentou-se como sempre na mesa ao lado da janela e agradeceu num bom-dia cúmplice o café e o pão com manteiga que o senhor Y. prontamente preparou assim que viu X. apontar à porta. Enquanto o aroma do café lhe conquistava lentamente a boca o seu olhar perdia-se na luz da manhã. A cidade acordava lentamente. Do outro lado da rua, uma garotinha de 6 ou 7 anos caminhava de mochila às costas em direcção à escola. Deteve-se nela por um instante e uma lágrima de rímel desceu-lhe involuntariamente pelo rosto… murmurou: ‘minha querida, não exijas de ti mais que o coração ou nenhum se deitará contigo por amor’.
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Séries: janelas abertas
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Séries: Arquitectura
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Séries: fotografia, imagens que se colam ao peito
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Séries: confessionário
a (não) reacção à morte de Luciano Pavarotti por parte da blogosfera lusa é sintomática...
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Séries: nota do dia
Minha Lu,
aproveito a graça de uma tarde menos agitada para desenvolver contigo um assunto que tem criado um enorme zum zum nos blogues que leio habitualmente, refiro-me à famigerada corrente dos ‘10 livros que não mudaram as nossas vidas’ iniciada pelo Manuel A. Domingos. Bem sei que o tema se desvia do carácter intimista que atribuímos a esta série, mas tu terás, por certo, a mesma necessidade do que eu de dissecar o imbróglio.
Muita coisa tem sido escrita sobre a dita lista; já lhe chamaram passatempo de ociosos, já perguntaram se um livro possui realmente a capacidade de mudar a vida de alguém, já se publicaram dezenas de listas e respectivas reacções mais ou menos indignadas consoante o maior ou menor grau de belisco às obras tidas como consensuais pelo ‘cânone’, palavra que me custa imenso utilizar. Enfim, não sei se tiveste oportunidade de passear pela blogosfera lusa ultimamente, se o fizeste verás que o que escrevi é apenas um resumo desajeitado de tudo o que foi dito, face à quantidade de opiniões que têm sido divulgadas.
Quando elaborei a minha lista houve dois critérios que estabeleci como primordiais: o primeiro mencionei-o na pequena introdução que fiz e incidia na relação dos livros com a memória; o segundo não foi mais do que uma resposta objectiva à pergunta independentemente daquilo que ainda guardasse da leitura. Por exemplo, a escolha de ‘A Jangada de Pedra’ do Saramago ou de ‘Austerlitz’ de Sebald respondem inteiramente a este segundo critério – são livros que apesar de presentes na minha memória, pura e simplesmente não mudaram a minha vida, ainda que possa achar muito interessante o ensaio de Saramago sobre a ideia de uma Ibéria mais próxima de uma sensibilidade afro-americana do que europeia e de ter criado empatia com o personagem de Sebald cujas incongruências da memória o levam Europa fora à procura de um passado e de uma identidade. Há mesmo em ‘Austerlitz’ algumas passagens que nunca me saíram da cabeça, uma delas é a descrição minuciosa que Sebald (neste caso Austerlitz) faz da nova Biblioteca Nacional de França do Dominique Peurrault, lembro-me de estar na cama e de ter tido um hilariante ataque de riso enquanto lia essas páginas, nenhum crítico de arquitectura o teria feito melhor. O prazer da leitura não é suficiente para que um livro nos mude a vida, para que tal aconteça é necessário que o livro se imiscua no nosso pensamento e se torne uma parte de nós. Isso não me aconteceu com esses dois livros. É preciso que um livro nos proporcione mais do que prazer para que nos transforme a vida. Para aligeirar a coisa, e porque quero desde já dizer-te que faço esta análise do ponto de vista do leitor comum (até porque não tenho conhecimentos académicos para discutir o assunto cientificamente) proponho uma analogia meio despropositada mas que resume num ápice o que estou para aqui a dizer: tive imenso prazer a ver o ‘Shreek’, sim, o filme de animação, mas em nada mudou a minha vida ou a minha forma de pensar a vida, o mesmo não poderei dizer de filmes como ‘Elephant Man’ ou ‘Schindler’s List’ que me fazem reflectir continuamente sobre o que é realmente ser humano, o que é esta treta de ser um homem. Que fique bem claro que não estou a meter o ‘Shreek’ e ‘Austerlitz’ no mesmo saco, não vá a coisa começar a descambar…
Mas continuando com a minha lista e falando agora dos livros que não me deixaram marcas na memória e que constituem a grande parte dos títulos que escolhi. Por exemplo, se me pedisses para te falar sucintamente sobre ‘Nenhum Olhar’ do José Luís Peixoto, de ‘Quartéis de Inverno’ do Osvaldo Soriano, de ‘A Princesa’ do D.H. Lawrence ou de ‘Olhos Azuis, Cabelos Pretos’ da Marguerite Duras, eu, pura e simplesmente, seria incapaz de o fazer. A minha memória apagou-os completamente, ou quase completamente, eu próprio me questiono se realmente os li. O certo é que o fiz e a prova está em algumas linhas sublinhadas com que me deparo ao folheá-los. Fazendo um esforço para te poder dizer algo sobre esses livros, a minha memória não me diz mais do que isto: o livro do Peixoto tem uns personagens insólitos que me fizeram lembrar o Gabriel Garcia Marquez; ‘Quartéis de Inverno’ passa-se durante o período da ditadura militar na Argentina, de ‘A Princesa’ não ficou absolutamente nada e de ‘Olhos azuis, cabelos pretos’ da Duras guardo uma única imagem, uma imagem bela por sinal, mas que não consigo fixar ou relacionar com a acção do romance… é a imagem de um quarto virado para o mar, varrido pela luz de poente, quente e suave, cujos raios quase paralelos à terra acariciam dois corpos que se estendem nus num lençol branco… e há uma janela aberta, uma janela que permite esse cenário, uma janela alta e vertical de caixilho branco em madeira como algumas que encontramos nas casas de estilo colonial no Mindelo ou
Não queria terminar esta conversa sem mencionar os restantes títulos. O que os une? O facto de serem os únicos livros que nunca consegui terminar até hoje; dois por puro aborrecimento (‘A Sibila’ e ‘O Vermelho e o Negro’) e o outro que, por incapacidade minha, falta de inteligência ou de sensibilidade ou de sei lá bem o quê, nunca consegui entrar realmente na lógica por muito que tenha tentado e esforçado, a saber ‘O Inominável’ do Beckett. Ao contrário de todos os outros e furtando-me ao critério que usaste para elaborar a tua lista (os livros que não tens vontade de reler), ‘O Inominável’ de Beckett é um livro ao qual pretendo regressar, acho que houve ali uma incompatibilidade qualquer que ficou por resolver e duvido que tenha sido uma resistência minha, a ver vamos…
Tenciono continuar este diálogo, escrevendo-te sobre os outros livros, os que me acompanham diariamente, explicando-te em que medida mudando-me, eles acabaram por mudar a minha vida.
O teu,
Vítor.
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Séries: confessionário
já passaram três meses e a minha soph vai amanhã embora... esta casa vai ficar sem luz.
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Vítor Leal Barros
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Séries: nota do dia
por ordem de enamoramento:
1. 'As Ondas', Virginia Woolf*
2. 'Alexis', Marguerite Yourcenar*
3. 'Livro do Desassossego', Bernardo Soares (Fernando Pessoa)
4. 'O Estrangeiro', Albert Camus
5. 'Os Passos em Volta', Herberto Helder
5. 'Espera de Deus', Simone Weil
6. 'Elogio da Velhice', Hermann Hesse*
7. 'Sinais de Fogo', Jorge de Sena
8. 'Em Busca do Tempo Perdido' (7 vols.), Marcel Proust
9. 'Quarteto de Alexandria' (4 vols.), Lawrence Durrell
10. 'Se Isto é um Homem', Primo Levi*
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Séries: literatura
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Luciana Melo
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Séries: literatura
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Séries: literatura
passamos a vida a subestimar os outros. ninguém sabe o que vai dentro da cabeça de cada um...
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Séries: nota do dia
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Séries: imagens que se colam ao peito
L. é um homem de 55 anos. Há quinze anos que está reformado por invalidez psicológica, a família preferiu assim. Nunca casou e desde a morte dos pais passou a viver na casa do irmão mais velho que lhe arranjou um biscate onde se vai entretendo e juntando mais uns tostões à magra reforma que recebe do estado.
L. quase não fala. Até um ‘bom dia’ é coisa difícil de se lhe arrancar dos lábios. Não se sabe ao certo se vive de acordo com a sua vontade; nunca abriu a boca para dizer o que queria assim como nunca se queixou do destino que a família lhe escolheu. Vive hermeticamente dobrado sobre si próprio e os seus olhos negros terrivelmente brilhantes e irrequietos como o voar de uma mosca parecem ganhar alguma tranquilidade apenas quando o vemos regressar das longas caminhadas que faz todos os dias.
Na família não há memória de alguma vez L. ter tido amigas ou amantes. Pelos trinta e poucos, as irmãs, substituíram-se à sua extrema timidez e fizeram-lhe um arranjinho com a solteirona lá do bairro. Era vê-los todos os domingos sentados no banco de pedra em frente ao café, ele sem abrir a boca debruçado sobre os joelhos e ela tagarelando a tarde inteira fazendo as perguntas e respondendo por ele. Mas nem a anafada da J. resistiu a tanta apatia e continua até hoje sozinha à espera de arranjar marido. Anos mais tarde, o primo M., que tem fama de gabiru, pegou nele e levou-o às putas, mas L. nem uma nem duas, voltou de lá sem saber o que a coisa era.
A família de L. há muito tempo que não questiona a sua estranha existência. Dão-lhe cama e roupa lavada e lá deixam o homem viver à sua maneira. Das longas e misteriosas caminhadas adivinham apenas que regressa feliz.
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Séries: janelas abertas
estou parvo... soube agora mesmo da morte do Eduardo Prado Coelho e é coisa que não me entra... que me parece absolutamente irreal.
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Séries: in memoriam, Post-it
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Séries: resenha literária
sem título, serigrafia, Noronha da Costa
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Séries: imagens que se colam ao peito
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Séries: Post-it
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Séries: nota do dia
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Séries: O diário de G.H
ontem foi um dia perfeito.
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Séries: nota do dia
primeiro Bergman, depois Antonioni... (será que por lá eles se chamam uns aos outros?)
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Séries: nota do dia
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Séries: in memoriam
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Séries: info
obrigado amiga pelo cartão. foi o mais bonito que recebi até hoje. sabes que estou sempre contigo.
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Séries: nota do dia
Devido aos últimos acontecimentos (escândalos, corrupção, crise ética, desvio de dinheiro, violência, ...) na terrinha, senti vontade de ouvir essa "musiquinha". Quem sabe assim eu me recorde que apesar de tudo ainda é bom ser brasileira.
Hino Nacional do Brasil
(Joaquim Osório Duque Estrada - Francisco Manuel da Silva)
I
Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
De um povo heróico o brado retumbante,
E o sol da Liberdade, em raios fúlgidos,
Brilhou no céu da Pátria nesse instante.
Se o penhor dessa igualdade
Conseguimos conquistar com braço forte,
Em teu seio, ó Liberdade,
Desafia o nosso peito a própria morte!
Ó Pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!
Brasil, um sonho intenso, um raio vívido
De amor e de esperança a terra desce,
Se em teu formoso céu, risonho e límpido,
A imagem do Cruzeiro resplandece.
Gigante pela própria natureza,
És belo, és forte, impávido colosso,
E o teu futuro espelha essa grandeza
Terra adorada,
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada, Brasil!
II
Deitado eternamente em berço esplêndido,
Ao som do mar e à luz do céu profundo,
Fulguras, ó Brasil, florão da América,
Iluminado ao sol do Novo Mundo!
Do que a terra mais garrida
Teus risonhos, lindos campos têm mais flores;
“Nossos bosques têm mais vida",
“Nossa vida" no teu seio "mais amores".
Ó Pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!
Brasil, de amor eterno seja símbolo
O lábaro que ostentas estrelado,
E diga o verde-louro desta flâmula
- Paz no futuro e glória no passado.
Mas, se ergues da justiça à clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte.
Terra adorada
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada, Brasil!
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Séries: Radiola
não sinto necessidade de outra forma de publicação que não esta.
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Séries: nota do dia
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Séries: Post-it
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Séries: confessionário
O teatro da repetição opõe-se ao teatro da representação, como o movimento se opõe ao conceito e à representação que o relaciona com o conceito. No teatro da repetição experimentamos forças puras, traçados dinâmicos no espaço que, sem intermediário, agem sobre o espírito, unindo-o directamente à natureza e à história; uma linguagem que fala antes das palavras, gestos que se elaboram antes dos corpos organizados, máscaras antes das faces, espectros e fantasmas antes das personagens - todo o aparelho da repetição como «potência terrível».
Différence et Répétition, Gilles Deleuze
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