terça-feira, janeiro 29, 2008

Reencontros

No romance Avalovara, Osman Lins apropria-se de uma figura mítica hindu (Avalokitesvara) para representar as possíveis narrativas que dão significado à vida. O autor tenta representar a totalidade da vida (as paixões, o tempo, a cosmogonia...) pela fabricação do romance ficcional.
Desde que li tal livro, nunca mais fui a mesma. Osman Lins fez uma revolução na minha maneira de encarar a criação artística. Não há criação literária sem que o artista viva intensamente a sua época, sem que se misture a toda sorte de experiências. Mais do que uma arte pura, a criação literária é um processo que se dá por contágio. “Busco as respostas dentro da noite e é como se estivesse nos intestinos de um cão. A sufocação e a sujeira, por mais que procure defender-me, fazem parte de mim – de nós. Pode o espírito a tudo soprepor-se? Posso manter-me limpo, não infeccionado, dentro das tripas de um cão?”
Eis como Osman recria o seu Avalorava:
“Ataviado com todas as cores dos pavões, o Avalovara lembra um manuscrito iluminado. Nele, quase é possível ler. A cauda é longa e curva, com reflexos de cobre. As asas, seis, de um tom verde celeste quando repousadas, ostentam na face interna, quando abertas, círculos de muitas cores, dispostos com simetria sobre fundo escarlate”.
O pássaro mítico do romance é formado por milhares de outros pássaros, renasce no betume e é livre da mudez e da imobilidade.

Nada é por acaso

Há muito tempo prometo-me a leitura de A viagem de Théo, de Catherine Clément, mas nunca conseguia cumprir o desejo.
Durante minha viagem, então, resolvi levá-lo na bagagem. Foi uma grata surpresa! Como eu costumo dizer para o meu amigo Vítor, repito aqui: são os livros que nos escolhem e eles se nos apresentam no momento certo.
Publicado em 1997, muitos anos após o Avalovara. Pela ordem cronológica e do meu desejo, deveria tê-lo lido, mas não o fiz. Foi preciso primeiro conhecer o pássaro de Osman, para mais tarde, reencontrá-lo:
“No inicio dos tempos, segundo os ensinamentos budistas, um grande macaco quis se converter graças às lições de um santo bodhisattva de nome complicadíssimo, Avalokitesvara. O santo mandou-o para as neves do Tibete, porque quanto mais perto do céu, melhor a gente se concentra. Enquanto o macaco meditava sobre a compaixão, passou uma cuca que se apaixonou loucamente por ele e assumiu a forma de mulher. Preso pelo voto de castidade, o macaco repeliu as investidas da cuca, mas ela soube suplicar tão bem que ele consentiu em dormir ao lado dela. Ainda não bastava. Como o macaco resistisse, a cuca ameaçou dar nascimento a monstros que devorariam a raça humana.”
Avalokitesvara aconselhou que o macaco se casasse com a cuca, por compaixão. Avalokitesvara é a mais popular das deidades budistas. Ela tem como promessa escutar a súplica daqueles que estão em dificuldade no mundo, ajudando-os a alcançar a iluminação. Ela é a emanação da compaixão. Avalokita é aquele que escuta os sons do mundo; svara é o senhor. Então, Avalokitesvara é o senhor que tudo ouve.

No romance, Osman funda reinos através da palavra, onde esta é o instrumento que tece a vida.
Clément diz, através da história das religiões, que o homem nu é o homem sem palavra; quando ele fala, ele se veste.
A relação da tessitura dos textos com os mitos? A Religião, mais do que mi(s)ticismo, é o universo da fundação dos reinos, da congregação de significados unificantes. Da mesma forma, o texto redefine o papel do homem enquanto criador. A busca pelo texto perfeito assemelha-se à busca da Jerusalém prometida, ou seja, é um ideal, o ato de redenção. Nesse sentido, religião e criação literária oferecem ao homem a possibilidade de ser demiurgo, porque estabelece-se o complexo jogo do divino e do profano.
Mircea Eliade, em O sagrado e o profano já dizia:
“Uma criação implica superabundância de realidade, ou por outras palavras, uma irrupção do sagrado no mundo. Segue-se daí que toda a construção ou fabricação tenha como modelo exemplar a cosmogonia.”
Ou ainda, segundo Gusdorf em A palavra:
“Chegar ao mundo é tomar a palavra, transfigurar a experiência em um universo do discurso."

Confessionário (50)

Meu querido amigo,

Voltei! E estar de volta, no meu caso, comporta muitos significados.
Aos poucos retomo leituras esquecidas ou simplesmente empoeiradas pelas cinzas das horas. Já sinto vontade de brincar com o papel e a caneta; permito-me à contemplação silente das idéias que vêm e vão sem qualquer avidez ou aflição, elas já possuem novamente total liberdade para adentrar meus espaços e se ficam ou partem, o fazem sem cerimônias.
Guarda este dia, meu Vítor. Hoje voltei a mim; hoje, me reconheço novamente pessoa. Sei que houve um grande intervalo, um lapso pesado no qual toda e qualquer comunicação foi rompida, mas foi o tempo necessário. Sou uma criatura de longos invernos porque devoro a vida até me fartar, absorvo toneladas de sentimentos de tal forma que a obesidade é inevitável. E não é fácil perder peso, esvaziar-se das experiências vividas.
Digo-te com imensa serenidade: estou livre! Ao escrever-te isso, sinto os olhos turvos, meu amigo, mas são lágrimas repletas de paz, livre de todo peso e dor que carreguei nos (quase) dois últimos anos.
Eu hoje celebro a vida, meu Vítor! E este renascimento é quase místico. Sinto-me como o herói que cumpriu sua tarefa ou ainda como uma carpideira que, após cumprir seu ritual de luto, acorda purificada pelas águas que verteu.
Há tanto o que dizer, Vítor. Ao mesmo tempo, não sinto nenhuma necessidade de explicação. Eu sei que tu me entendes e isso é um delicioso alento.
Estive viajando nas duas últimas semanas. Fui a Florianópolis, local que tenho forte relação afetiva e onde se deu a grande ruptura do processo que vivo. Foi lá o começo da minha fragmentação.
Tinha uma pessoa a quem amava muito e que era um grande companheiro intelectual. Compartilhávamos mútua admiração pelo exercício poético e pela crítica. Lembro que foi o período em que mais produzi poemas, trabalhei com imagens e cores, sentia-me respaldada no amor pelas palavras e vivi, no tempo da madureza, uma relação platônica no seu sentido mais amplo.
Meu querido, entendi que um ciclo se fechou. Compreendi que preciso ser estimulada constantemente por pessoas que comunguem da grande orgia palavrosa que é a vida. Sem isso, não há graça, não há renovação e continuidade.
Meu Vítor, um novo ciclo começou quando entraste na minha vida. Contigo não me sinto só.
Lembras que uma vez disseste-me que a nossa alma gêmea não precisa ser necessariamente a pessoa com quem nos relacionamos amorosamente? Isso faz todo o sentido para mim, agora. Para que eu seja inteira, não basta somente o amor. A completude da minha alma passa pela troca dialógica, pelo exercício da oratória, pela cosmovisão e nessa perspectiva, nunca estive tão bem acompanhada. Tu és minha alma gêmea sem qualquer sombra de dúvida. Eu celebro esse encontro raro e feliz.
Tintim!

terça-feira, janeiro 08, 2008

nota do dia (26)

marquei há dois dias uma viagem, a primeira que farei absolutamente sozinho, sem família, sem amigos ou amantes. será curta, uma semana apenas, mas não será a última... talvez daqui a um ano uma outra viagem possa estender-se por um mês, talvez outra posterior possa estender-se por um ano, talvez um dia vá e nunca mais volte... testemos então a coragem...

segunda-feira, janeiro 07, 2008

o Sincronicidade faz hoje dois anos... menos activo que no passado mas com muita vontade de existir... será interessante no futuro, olhar para trás e perceber que este caderno partilhado foi capaz de traduzir os nossos próprios ritmos: as vezes em que quase sufocámos de tanto querer dizer e as outras, onde o silêncio talvez tenha comunicado mais do que as palavras... continuemos portanto.

quinta-feira, dezembro 27, 2007

«Merry Christmas and a Happy New Year»


'Merry Christmas and a Happy New Year', Lambda print, 2005, Maja Bajevic

sexta-feira, dezembro 21, 2007

Lançamento

O senhor das Horas
(Autran Dourado)



UM
O coronel Domingos Monteiro, agora na sala de estar, olhava o grande e trabalhado relógio-armário, que comprara de espólio de João Capistrano Honório Cota. Pensava na fatalidade do destino, na proximidade da morte, no fino e lento escoar das implacáveis areias do tempo, no vagaroso escorrer das fatais ampulhetas, nos cada vez mais precisos instrumentos com os quais os homens, através do tempo e na sua angústia, procuram domesticar as horas, para enterrá-las no sarcófago do tempo. Assim ficou ele detrás das pálpebras semicerradas, pensando no sem-fim do tempo.

Sua filha Lúcia se aproximou dele, dizendo – dormindo, papai? Ele disse não, estava apenas pensando na fatalidade das horas, no sem tempo de Deus. O coronel Domingos Monteiro era o seu tanto retórico. Cogitava no destino, nas horas, nos deuses lutando contra as potências do Mal, disse ele.

Ela abriu o piano e começou a dedilhar uma das noveletten de Schumann, que era a obsessão absurda do pai, afogado no ventre do tempo. Ele só se interessava por aquela peça de Schumann, às outras noveletten era indiferente, apenas as ouvia sem o maior interesse.

Todas as noites uma de suas filhas acompanhava a mãe à reza na Igreja do Carmo. Agora as três filhas e a mulher, Carmela, estavam na sala. O coronel perguntou quem iria aquela noite com a mãe à reza na Igreja do Carmo, nada dela ir sozinha. Ninguém falou nada, apenas Lúcia, rebelde, que acabou dizendo ontem era meu dia de folga, e eu fui. Quando devia ser o meu, disse Mirtes, e começaram a discutir. O coronel disse não importa de quem era, eu escolho para hoje Lúcia, a fim de recomeçar a contagem. Pois eu não vou, disse ela. Como não vai?!, disse o coronel enraivecido. Mas se quer assim, que assim seja. Em compensação não vai comer à nossa mesa durante cinco dias, mas na cozinha, com os empregados, que é para você aprender a obedecer às minhas decisões. Lúcia, a predileta do pai, olhou espantada para ele. Não esperava jamais aquela reação dele.

Ele não era como um daqueles coronéis do interior, grossos, incultos e mandões. Um homem fino, de boa leitura, fez seus versos, estudou em São Paulo, não chegando a concluir o curso de direito, ficou no terceiro ano porque, filho único, com a morte do pai, foi chamado pela mãe para tomar conta da fazenda e do armazém de beneficiar café. Na faculdade, sem interessava mais pelas letras do que pelas leis. Freqüentava as roas literárias, chegou mesmo a publicar uns poucos versos dos muitos que tinha escrito. A idéia de voltar para Duas Pontes, com o seu ambiente acanhado, não lhe agradava. Duas Pontes era só para as férias, quando freqüentava poucos os letrados da cidade.

Ele meteu o chapéu na cabeça e foi para o armazém. Por lá costumavam passar os seus amigos mais chegados. Conversavam vagos assuntos, mais para enrolar o tempo, jogar conversa fora.
Pouco antes da hora de fechar o armazém, o filho Abel disse vamos embora, papai, está na hora de encerrar o expediente. O velho não disse nada, apanhou o chapéu e foi para casa.

Ele chegou em casa, foi lá dentro falar com a mulher, depois dirigiu-se à sala de estar, se sentando na sua poltrona habitual. Aí ouviu os primeiros acordes de uma das noveletten de Schumann, que o emocionava e prendia, era o absurdo. Daí a pouco veio Mafalda, depois Mirtes, e começaram a conversar sobre coisas do dia-a-dia. Papai, o Juvêncio, filho de seu Gaudêncio, está querendo freqüentar a nossa casa, para namorar, o senhor concorda?, disse Mafalda. Não faço a menor objeção, tenho até muito prazer, o Gaudêncio é boa gente, meu amigo, disse o coronel.

Os acordes da música cessaram, dona Carmela disse a si mesma é mais uma das muitas esquisitices do senhor meu marido. Não faço nenhuma oposição, disse ele. Se é filho do Gaudêncio, tenho até gosto, e pensou a menina está carecendo mesmo é de casar, tem trinta anos. Lúcia se levantou da banqueta, foi-se embora. Ele ficou, os olhos semicerrados, gozando a fresca da tarde. Acabou por adormecer, teve um sonho horroroso, era mais um pesadelo. E o tempo, travestido em gente, mordia-lhe um dos braços e lambia o sangue que escorria da sua boca.

Ele sentia uma dor terrível. Mesmo assim, apesar dos rugidos do tempo, se esforçava para acordar, não conseguia. O coronel não acreditava muito no Deus distante. Mesmo assim, tentava se lembrar das palavras das orações que uma preta velha lhe ensinara, ele menino. Não conseguia, misturava agora as palavras. "Ave Maria, cheia de graça, rogai por nós", "que estais no Céu, santificado seja o vosso nome", "por que me abandonaste, Senhor?" "Se sabias que eu não era Deus?" Não, isso não é oração, é poesia, se disse ele. O que peço, Senhor, é muito pouco – apenas acordar. Mas me livrai dos dentes do tempo, da sua boca sanguinolenta. Acordei, gritou. Agradeço-vos, Senhor, por ter atendido à minha prece. Cansado, suspirava ofegante. Por que aquela obsessão com o tempo? Por quê, Senhor, a fixação, naqueles terríveis pesadelos? Lhe devo alguma coisa além dos meus muitos pecados? Desde menino sou assim, os meus absurdos pesadelos. Só que os meus pesadelos eram outros, não tinham a voracidade do terrível Tempo. Para ele a consciência do tempo, apesar da sua pouca idade, ainda não existia. Só apareceria mais tarde, com o branco dos seus cabelos. No espelho do quarto é que via a sua idade.

terça-feira, dezembro 11, 2007

sublinhado (69)

Encontrando-me para lá de Ciudad Real, pus-me a pensar na magia das despedidas radicais, no encanto das despedidas radicais dessas pessoas que tanto admiramos quando vimos a saber que foram capazes de mandar tudo para o diabo, que bateram com a porta e se foram embora, não sem antes dizer fiquem aí, seus cabrões.
Quando ouvimos contar que alguém deixou toda a gente pendurada, nós em silêncio, com raiva contida, aprovamos esse audaz, purificador, elementar impulso. Como não haveríamos de aprovar se todos odiamos o nosso domicílio, o lar nos aborrece, ter de estar nele? Eu, pelo menos, já as tinha começado a jurar ao meu domicílio. Era um entusiasta da Teoria de los abandonos, um poema de Philip Larkin: «Todos odiámos a nossa casinha, / ter de viver nela: / eu detesto o meu quarto, / os seus trastes especialmente escolhidos, / a bondade dos livros e a cama / e a minha vida perfeitamente em ordem.» (pág. 42)
Doutor Pasavento (Teorema), Enrique Vila-Matas

domingo, dezembro 09, 2007

nota do dia (25)

os Nouvelle Vague convenceram-me... o concerto de Guimarães foi realmente bom.

quinta-feira, dezembro 06, 2007

nota do dia (24)

Hoje, um senhor com os seus sessenta e muitos anos abordou-me na rua com um papel na mão, entregou-mo e disse-me 'leia-o e guarde-o consigo. Assim que tenha oportunidade fotocopie-o e entregue uma cópia a outra pessoa tal e qual o estou a fazer agora... muito obrigado e tenha um bom dia.' O papel dizia isto:

Um Sorriso
Um sorriso não custa nada e produz muito. Enriquece quem o recebe sem empobrecer quem o dá. Ninguém é tão rico que não precise dele e ninguém é tão pobre que não o possa oferecer. Um sorriso dá repouso ao cansaço e ao desânimo, renova a coragem, e é consolação na tristeza. Ninguém necessita mais de um sorriso do que aquele que não sabe sorrir.

Eu sorri... e darei resposta ao pedido do senhor simpático que me presenteou e transformou o meu dia. Muito obrigado.

sublinhado (68)

Pensei na quantidade de escritores que apareciam na minha vida, nos meus sonhos, mos meus textos. Embora a grande maioria deles costume ser gente vaidosa e mesquinha, há uma estranha secção minoritária de escritores que têm anjo e que são muito mais fascinantes do que o resto dos mortais, pois são capazes de nos conduzir com assombrosa facilidade a outra realidade, a um mundo com uma linguagem distinta. (pág. 12)
Doutor Pasavento (Teorema), Enrique Vila-Matas

quarta-feira, novembro 14, 2007

Por que o ser humano, às vezes, é tão cruel?

A pergunta acima não pretende alcançar respostas socio-políticas ou de qualquer outra natureza. Ela é mais "refrão" de indignação até porque não acredito em nenhuma resposta que me convença ou minimize a dor das pessoas envolvidas.
O que eu acho triste mesmo é a empáfia com que o Homem se diz superior a toda a natureza ao seu redor, o modo como se vangloria da sua inteligência, mas foi estúpido o suficiente para acreditar no maior conto da carochinha jamais inventado: o da cor da pele.
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Shooting Dogs, 2006.
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Hotel Rwanda, 2004.

segunda-feira, novembro 05, 2007

'para ouvir ... e ver'

uma amiga enviou-me este vídeo, como ela bem dizia no e-mail, para ouvir... e ver:


In the Mausoleum, Beirut

quinta-feira, novembro 01, 2007

halloween

"They were both experienced in such affairs, and powerful with the spade; and they had scarce been twenty minutes at their task before they were rewarded by a dull rattle on the coffin lid. At the same moment Macfarlane, having hurt his hand upon a stone, flung it carelessly above his head. The grave, in which they now stood almost to the shoulders, was close to the edge of the plateau of the graveyard; and the gig lamp had been propped, the better to illuminate their labours, against a tree, and on the immediate verge of the steep bank descending to the stream. Chance had taken a sure aim with the stone. Then came a clang of broken glass; night fell upon them; sounds alternately dull and ringing announced the bounding of the lantern down the bank, and its occasional collision with the trees. A stone or two, which it had dislodged in its descent, rattled behind it into the profundities of the glen; and then silence, like night, resumed its sway; and they might bend their hearing to its utmost pitch, but naught was to be heard except the rain, now marching to the wind, now steadily falling over miles of open country."
The Body-Snatcher, 1884, Robert Louis Stevenson

sábado, outubro 20, 2007

"Já comia qualquer coisa", disse Monsieur de Chupe-la-Pisse, lambendo os beiços e esfregando a barriga. De uma maneira geral, Monsieur de Chupe-la-Pisse não é esquisito. O empregado trouxe a ementa e Monsieur escolheu o seu prato de eleição: mil folhas de pombo. "Infelizmente, acabamos de servir o último", disse o empregado, desculpando-se com uma negra rugazinha na testa.
Monsieur de Chupe-la-Pisse pediu então folhado de froie gras. Mas, pelos vistos, também tinha acabado. Também já não havia vianinhas, rúcula com roquefort, robalo com cogumelos, rodovalho com espargos, batatas recheadas, bife alemão, pernil no forno com maçã, carré de borrego, fricassé de raia, lombo de abrótea com algas, tártaro de salmão com vinagreta de cassis e alheira de chaves.
Nesse dia, como de costume, Monsieur de Chupe-la-Pisse não comeu.

domingo, outubro 07, 2007

nota do dia (23)

O que mais me custa quando regresso de uma viagem não é o recomeço do trabalho nem da rotina diária normal. É antes a sensação de que vivo numa cidade que morre a cada dia que passa. Deprime-me caminhar no Porto às dez horas da noite. Em qualquer outra cidade europeia, à mesma hora, eu seria mais um elo na longa e agitada corrente de vida humana, aqui não passo de um dos quatro ou cinco fantasmas que assombram os Aliados.

sexta-feira, outubro 05, 2007

Bravo! Bravíssimo!

Ela, a eloqüente Camila foi uma das dez finalistas do Concurso de Contos da Revista Bravo.
Parabéns, minha flor!


for ever:

* por Camila Magalhães Pereira Mendonça

!

ela vem tentando ler os mesmos livros de sempre. aqueles mal acabados. foi largando pela metade na prateleira. há muita dificuldade em encarar os fins.

tentou convencê-lo a instalar um ventilador de teto no quarto. fez ameaça de leve - aqui não trepo mais. credo cruz três vezes. coitada. tão falha. e mal se resolveu o papo, até que virou briga. agora estão emburrados. coisa chata de se ver.

mas se amam bonito. esse amor piegas dos apaixonados. amor-paixão. coisa de filme. coisa que ninguém acredita. tinha aquele papo de amigos. e toda a evolução homem e mulher que se sabe quando se trata de sexo sem sentimentos. mas tudo embola, tudo complica. ela sempre se envolve e não tem jeito.

andou ouvindo um cara australiano. mas não tem certeza. venezuelano? neo-hippie de barba coisa e tal. disse que era leve e fazia bem ao corpo. quando tocava no rádio ela fazia uns movimentos estranhos. coisa de yoga. uma acrobacia aeróbica disfarçando um efeito zen.

ele ficava parado no canto, encostado na parede, vendo ela deitada no tapete; porque na sala tinha o tal ventilador de teto. são casal de pouco, juntado a tempo curto. lua de mel ainda. pouca grana e muita alegria. apesar das brigas.

falta um ar condicionado. resolveria metade e meia das questões.

o calor estressa até a raiz, ela diz. a raiz dos pentelhos. e crescem loucos. tem alergia a gilete. mas depilar é um sofrimento sem fim. tem sempre a ditadura tortuosa da beleza. ser mulher não é uma tragédia, mas é um drama, ela bem sabe. e ele entende. porque é dos melhores homens do mundo. cabe aqui aquela pieguice inicial.

é quase dezembro. e não se esquece a trajetória desesperada desses dias abafados. mas desta vez vai. pensam num destilado. coisa bem gelada. para descer bacana. e vão agradecendo. quase ninguém acredita; há que se repetir. ele tem certeza dos mitos da predestinação. "maktub", diria aquele mago nojento na sua coluna diária do jornal. mas a gente sabe que não é bem assim. se era para ser, metade transpira a outra inspira. é sempre o esforço. é sempre o impulso de acreditar que vale firme.

ontem ela ligou para o ex, confirmando os seus caprichos particulares- olha, meu bem, você me superou. pronto e tchau. era um desabafo franco de meia palavra. bastou fundo. ele entendeu. mesmo naquele suspiro. é que o ex havia mandado um cartão para ela. desses cafonas de fim de ano. falava de amor, de ressentimento, de perdão e graça. foi dado o recado. e ela que estima tanto esses sutis discursos; respeitou. guardou na caixa de cartas. talvez ainda releia algumas vezes. para acreditar. remorso de quem perde. e reflexão de quem foi perdido. mas então já era. e foi. mas mesmo assim ela ligou. tinhosa. as últimas palavras são sempre dela.

o prédio onde moram tem os enfeites natalinos de sempre. o elevador da garagem permanece enguiçado. de praxe. sobem de escada, respirando fundo, passos largos. apesar da yoga, ela tem asma. voltou a roer as unhas, mas mantém a tal da paz de espírito - é muita concentração, diz.

colocou na varanda um bonsai, veio com uns papos orientais, um misticismo estranho. não cabia, claro. logo se esqueceu, mas ficou lá a árvore mini de apetrecho. o apartamento tem as cores dela. e ele até gosta. disse que ela deu vida, deu harmonia. aquela coisa toda.

a gente nunca sabe até quando vai. e se vai.

tinha sempre em mente um trecho de um livro que ele leu gaguejando no início do romance. era nervosismo. tinham acabado de transar. e ele disse que queria ler algo. estava emocionado ainda. gozo, declaração, olho no olho - é atestado; gozar de olhos abertos apaixona, ou dá início à; fato concreto - então começou a ler baixinho enfatizando as expressões portuguesas. era uma maneira de alfinetá-la, claro. lembrando seu passado lusitano. e ele morria de ciúmes do tal português. mas apesar da provocação ela gostou. achei bonito. o trecho era bom. se emocionou de leve. mas preferiu tomar banho em seguida. nada de emoções as claras, era só o começo.
ela tem mania de sair arrumando as coisas. levanta catando as roupas, jogando a sujeira no lixo. uma chata completa. adorável perfeccionista.

e a gente continua sem saber até onde vai. se vai.

já pôs o venezuelano para tocar. é venezuelano? diz que teve influência do caetano veloso. este ela odeia com força. mas ele comprou o cd. ele sabe que no fundo ela gostou de três, quatro músicas.

e lá foi ela deitar cheirando a vick. aqueles ritos que trouxe de casa. era coisa da mãe. seres humanos, mais freudianos do que podem assumir.

dormiam numa cama média. aquela entre solteiro e casal. dizem que é cama de viúva. de viúvo. é o que se tornaram depois de tantos relacionamentos desgastados, arruinados, fracassados. viúvos. agora é king size. amém desse jeito. sem aliança. sem burocracia religiosa. mas ela disse que quer assinar papelada no cartório. nada de mudar nome. só uma coisa mulherzinha. ele acha desnecessário. mas se é por ela - e é por nós, ele também sente, sensível- disse que sim repetidas vezes para ela saber valia.

mas é fim de ano. há que se lembrar. e ela não gosta de fins, se sabe. retornou aos livros de sempre. faz calor. a pressão não tolera esses dias. é quase inferno astral, viu um astrólogo dizendo na tv. não acredita. mas tem lá suas tensões propícias ao período. ter fé. ver coragem no amor. isso já foi frase de música.

dessa vez eles se salvam.

sexta-feira, setembro 14, 2007

A arte literária de Badida

Declarando seu amor primordial pela literatura, a pintora Badida constrói universos fantásticos que transpassam a tela e entram na sua vida.


*Por Mariana Oliveira

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Usualmente, os escritores são amantes da literatura, as atores da encenação teatral, os músicos da música, os pintores das artes plásticas. Mas o que dizer de uma pintora que se revela, antes de tudo, uma apaixonada pela literatura? Pois esse é o caso raro da pintora Marisa Moreira da Costa Campos, Badida, que tem uma devoção toda especial à literatura. E o que faz ela entre tintas e pincéis ao invés de rodear-se de papéis para escrever? Seu severo senso crítico não lhe permitiu, ainda, alçar vôo no ramo das letras, mas sua habilidade como pintora lhe deu a possibilidade de reinventar suas próprias histórias e as histórias dos outros.
Filha de Moreira Campos, um dos maiores escritores cearenses, Badida, também natural do Ceará, construiu sob a influência do pai seu apreço pelas artes literárias. Com tanta responsabilidade transferida por esse parentesco, ela até hoje não se sente à vontade para publicar seus escritos, que estão muito bem–guardados, em sua casa. “Eu costumo dizer que a minha grande paixão é a literatura, infelizmente meu vôo é rasteiro para escrever, mas para ler eu sou fascinada. Minha obra sempre esteve inspirada na literatura, que, para mim, é a arte maior, até porque eu tive um pai que era um grande escritor. Como eu não escrevo, é como se eu fizesse meus contos, minhas crônicas, através da pintura. Eu até já tentei desassociar, mas não consigo.”
Os últimos trabalhos de Badida têm inspiração declarada no trabalho do poeta e roteirista italiano Tonino Guerra, a quem a pintora foi apresentada por um documentário de TV. Desde então, ela implementou uma busca por alguma publicação do poeta. Demorou, mas uma amiga lhe presenteou com um exemplar de O Livro das Igrejas Abandonadas, editado em Portugal. As palavras do poeta italiano agora inspiram suas mais recentes obras, que devem fazer parte de uma exposição individual programada para novembro. Enquanto isso, quatro trabalhos dessa série podem ser vistos dentro da exposição "Delas por Elas", no espaço cultural da Le Lis Blanc, em Casa Forte, junto com obras de Guita Charifker, Maria Carmem e Marianne Peretti, com curadoria de Pedro Frederico.
Em paralelo às leituras de Tonino Guerra, Badida pinta ainda o poeta Ledo Ivo, sem esquecer suas lembranças junto ao “paizinho” e a “mãezinha”, ainda no Ceará. A sua única neta, Bárbara, é sempre ouvida pela avó, tanto que em uma das suas últimas exposições os quadros expostos foram titulados por Bárbara, antes mesmo de serem pintados.
Apesar dos rasgos surrealistas saltarem aos olhos, ela prefere definir-se como simbolista (apesar da diferença ser sutil), alegando que em suas obras há sempre, ao final, a moral da história. Perguntada sobre a pintura no mundo contemporâneo é categórica, afirmando que a pintura não morreu, não vai morrer, e que há espaço para todo mundo. “O problema da arte contemporânea, da arte conceitual, é que o conceito está vindo sem a obra”, explica, lembrando a história A roupa nova do rei, como uma metáfora da situação das artes na atualidade. “No lugar da obra está o conceito, o conceito dizia que a roupa era lindíssima, tudo bem, mas cadê a roupa? Aí a criança, um ser de pureza total, que ainda não se limitou na vida, diz: o rei está nu. Evidente que há grandes artistas conceituais, basta um Cildo Meireles, mas há muitos equívocos, na minha ótica.”
Pintando um quadro por vez e também lendo um livro por vez, Badida, que iniciou como uma diletante, vendeu todas as obras expostas na sua primeira exposição individual em Fortaleza, e conseguiu sobreviver através da arte, acredita que a felicidade do artista legítimo é expor. Este ano, por fim, depois de um longo período habitando a fronteira com o mundo da imaginação, Badida aterrissa outra vez no Recife (esquecendo seu pavor de voar, felizmente) para apresentar seu universo fantástico, criado e recriado através das suas fábulas e das fábulas dos outros.

* Mariana Oliveira é jornalista e editora da Continente Multicultural.

quinta-feira, setembro 13, 2007

FÉRIAS
*

até Outubro

quarta-feira, setembro 12, 2007

janelas abertas (5)

X. é uma mulher de 40 anos. Saiu de casa duas horas antes de entrar ao trabalho impecavelmente vestida como de resto é seu hábito. Não demora mais do que vinte minutos no trajecto e os colegas fartam-se de perguntar por que raio sai ela de casa tão cedo não tendo filhos para levar à escola e marido a quem dar o nó da gravata… X. esboça um sorriso e diz-lhes ‘quem me tira o prazer de um pequeno-almoço tranquilo na frescura da manhã, tira-me tudo’. Mas hoje bem poderia ter saído de casa quatro ou seis horas antes, visto nenhuma das bombas que tomou para adormecer ter surtido efeito.
X.
foi sempre motivo de orgulho para os pais. Nunca lhes causou qualquer embaraço, nem mesmo nas idades em que seria normal fazê-lo. Sempre a melhor aluna da escola, estudiosa e aplicada, filha amiga e companheira, profissional exímia, mulher generosa capaz de tudo pelos amigos, enfim, o desejo de qualquer casal… qualidades que, associadas a uma beleza fina e delicada e a um trato de uma simpatia só, faziam a mãe perguntar-se de onde na família teria sido ressuscitada tal combinação genética. Nunca foi necessário exigir-lhe nada, os seus actos nasciam antes de serem pedidos. Uma filha que nunca deu trabalho.
Sentou-se como sempre na mesa ao lado da janela e agradeceu num bom-dia cúmplice o café e o pão com manteiga que o senhor Y. prontamente preparou assim que viu X. apontar à porta. Enquanto o aroma do café lhe conquistava lentamente a boca o seu olhar perdia-se na luz da manhã. A cidade acordava lentamente. Do outro lado da rua, uma garotinha de 6 ou 7 anos caminhava de mochila às costas em direcção à escola. Deteve-se nela por um instante e uma lágrima de rímel desceu-lhe involuntariamente pelo rosto… murmurou: ‘minha querida, não exijas de ti mais que o coração ou nenhum se deitará contigo por amor’.

segunda-feira, setembro 10, 2007

sábado, setembro 08, 2007


da série 'Books', 'Dictionary', 1994, Abelardo Morell

Confessionário (49)

Meu querido Vítor,

Esse confessionário talvez fique um bocado confuso, sabe? É que antevejo o festival de fragmentos que vou esboçar para ti, sem, contudo, concluí-los por completo.
Quero começar dizendo que eu amei, simplesmente amei ser despertada por um telefonema teu. Quase pude tocar-te novamente num afetuoso abraço, como aquele abraço que guardo com tanto carinho no dia em que dissemos “até breve”, diante do Hotel.
A sensação fez-me lembrar – e com isso não quero reduzir o assunto, porque ele é demais complexo – que sentimos solidão quando nos isolamos da vida, forçada ou circunstancialmente, mas basta que estabeleçamos os laços para que o mal-estar de ser/estar só evapore. Continuo acreditando que o afeto nos salva de nós mesmos.
Quero que saibas que me sinto mais fortalecida, serena com o restabelecimento da minha sintonia. Lembras das bonequinhas russas, aquelas que foram tema de uma das correspondências entre A. e V., meu querido? Sinto que estou quase chegando à primeira boneca, à minha gênese. É só o primeiro passo, mas tem sido como tocar “os frutos rubros e selvagens” da minha existência. Espero que tudo isso faça um pouco de sentido para ti, porque para mim tem feito uma grande diferença.
Sobre silêncios... não, não ando passeando pela blogosfera, nem lusa nem brasileira. Ando um pouco farta de tudo isso... não sei te explicar, mas é sintomático que preciso de um tempo, de umas férias desse mundo, talvez por isso ando tão pouco presente.. Tenho avaliado a continuidade do Glossolalias e do Sincronicidade, sobre a relevância do que escrevo, penso, reflito... outro dia, eu reli um post teu sobre a importância desse nosso espaço a despeito de tudo que se espera de um blogue: visitas, participação, interação, interesse ou falta de...
Ambos são espaços muito distintos. Um representa uma possibilidade de ser ouvida, de ter e dar voz a uma persona pouco conhecida até pelos que convivem comigo; o outro representa a beleza de uma amizade, a concretização de uma confiança que eu pensava não ter mais lugar no nosso mundo apressado e plastificado. Estou te falando tudo isso para saber o que vai dentro de mim.
Ultimamente só ligo o computador para ver e-mails e fazer minhas pesquisas, nada mais.
Estou há dias para escrever sobre o Drummond, sobre a saudade que sinto desse poeta, da forma simples e direta que tinha de dizer as “verdades” da alma. Há 20 anos perdemos Drummond e era sobre isso que queria falar, mas não consigo verbalizar. Não queria publicar nada “acadêmico”, cheio de maneirismos, queria que fosse tal qual ele uma vez o disse: “um dia cometi a empáfia de dizer: mundo, mundo, vasto mundo, mais vasto é o meu coração”.
Também tive vontade de escrever sobre a Feira do Livro de Brasília. Quer dizer, o desastre que foi a abertura, a maneira amadora e desrespeitosa com que a organização tratou o público e o convidado homenageado Ariano Suassuna. Do barraco que fiz, das reclamações e da cara daquela gente apática e imbecilizada de aceitar ser tratada como lixo. E do absurdo maior que era ler em seus rostos a perturbação, o distúrbio que eu e mais algumas poucas pessoas indignadas estávamos causando.
Eu fiquei cansada só de pensar em argumentar que reclamar era nosso direito, mas aqui, quem exerce seus direitos é visto como chato e encrenqueiro. E eu, meu Vítor, não quero convencer ninguém de nada. Quer ser gado? Boa sorte! Mas não me peçam para juntar-me à manada.
Luciano Pavarotti. Sinto, lamento profundamente pela sua morte. Apesar da “crítica especializada” achar uma ofensa a popularização da ópera, um desperdício de tempo oferecer à gentalha o espetáculo destinado aos eruditos, eu adorava ver aqueles mega-eventos que ele proporcionava. Os “intelectuais” ainda acreditam que a massa não é digna de cultura, pelo menos não a verdadeira cultura ou a verdadeira arte.
Nesse sentido, acho que o texto do Carey – que eu citei naquele paper sobre a Clarice Lispector – extremamente atual, mas isso é conversa longa.
Sobre os livros. Eu não sou lá muito fã de listas, você bem sabe, meu Vítor. Contudo, eu adoro um veneninho, adoro brincar de advogado do diabo e a idéia de remexer no baú de orgulho e vaidade do cânone é uma delícia irrecusável.
Reforço novamente o que disse no meu comentário. Não precisavas te explicar. Não existe muita lógica – não a lógica que a racionalidade nos exige – a respeito do que nos toca ou não a alma. Os afetos estão no campo intuitivo e ponto. Pode ser uma comparação infeliz, mas nós sabemos que existe sexo e existe amor. Quando os dois caminham juntos, putz, é maravilhoso. Penso que o mesmo se dá com os livros. Existe o prazer e existe – vamos chamar – conhecimento. Se ambos vêm no mesmo exemplar, maravilha!
Quando digo que não suporto o Ulisses é porque o acho chato, enfadonho, redundante, cansativo. Antes de concluí-lo (o que eu considero um feito heróico), eu recomecei inúmeras vezes a leitura, e não fluía. E como você, sou incapaz de recordá-lo tamanha exaustão que me provocou. Mas não sou louca de não reconhecer a importância dessa obra para os estudos literários, tanto de crítica quanto de análise. Mas pessoalmente, esse livro é um raro caso que não me proporcionou nem prazer nem conhecimento.
Jorge Amado é considerado um grande escritor. Eu pessoalmente o acho pouco denso e bastante repetitivo. Passei pelos seus livros sem ser tocada, sem sentir mudanças. Sua literatura não alcançou minha memória, não me trouxe identificação ou reconhecimento com seu universo. Acho a Zélia Gattai, sua viúva, muito mais interessante.
O Nelson Rodrigues é outro nome que as pessoas enchem a boca para se referir. A mim, não me causa sequer cócegas. Tem dois textos deles que eu gosto muito. Vestido de Noiva e Toda nudez será castigada, todo o resto eu dispenso completamente. Na minha estante não tem um livro dele ou do Jorge Amado.
Macunaíma é um marco para o movimento modernista no Brasil, mas eu simplesmente não concordo com a abordagem do Mário sobre o estereótipo do brasileiro. Aquilo me incomoda. Diferente do Nelson Rodrigues e do Jorge Amado, essa obra permite um ótimo diálogo, um grande exercício de interpretação, mas não mudou minha vida, não me acrescentou em nada.
A casa dos budas ditosos, do João Ubaldo Ribeiro, foi para mim um total desencanto. É um livro encomendado, comercial e que não convence. A editora juntou grandes nomes para escrever sobre os sete pecados capitais. João Ubaldo ficou com a luxúria e meteu os pés pelas mãos. Criou uma personagem feminina que de feminino só tem o nome e o sexo, mas é de um machismo ridículo. Faltou sensibilidade para enxergar nosso olhar sobre a questão. E como entre erotismo e pornografia existe uma separação tênue... o livro é absolutamente tedioso. Na lista de desespero, esse seria o último item que eu usaria para excitar alguém. Mas para quem escreveu Viva o povo brasileiro, esse pecado já foi perdoado.
Querido, já é tarde. Depois continuamos a conversa.
Beijo imenso,

Tua Lu

sexta-feira, setembro 07, 2007

nota do dia (22)

a (não) reacção à morte de Luciano Pavarotti por parte da blogosfera lusa é sintomática...

confessionário (48)

Minha Lu,

aproveito a graça de uma tarde menos agitada para desenvolver contigo um assunto que tem criado um enorme zum zum nos blogues que leio habitualmente, refiro-me à famigerada corrente dos ‘10 livros que não mudaram as nossas vidas’ iniciada pelo Manuel A. Domingos. Bem sei que o tema se desvia do carácter intimista que atribuímos a esta série, mas tu terás, por certo, a mesma necessidade do que eu de dissecar o imbróglio.

Muita coisa tem sido escrita sobre a dita lista; já lhe chamaram passatempo de ociosos, já perguntaram se um livro possui realmente a capacidade de mudar a vida de alguém, já se publicaram dezenas de listas e respectivas reacções mais ou menos indignadas consoante o maior ou menor grau de belisco às obras tidas como consensuais pelo ‘cânone’, palavra que me custa imenso utilizar. Enfim, não sei se tiveste oportunidade de passear pela blogosfera lusa ultimamente, se o fizeste verás que o que escrevi é apenas um resumo desajeitado de tudo o que foi dito, face à quantidade de opiniões que têm sido divulgadas.

Quando elaborei a minha lista houve dois critérios que estabeleci como primordiais: o primeiro mencionei-o na pequena introdução que fiz e incidia na relação dos livros com a memória; o segundo não foi mais do que uma resposta objectiva à pergunta independentemente daquilo que ainda guardasse da leitura. Por exemplo, a escolha de ‘A Jangada de Pedra’ do Saramago ou de ‘Austerlitz’ de Sebald respondem inteiramente a este segundo critério – são livros que apesar de presentes na minha memória, pura e simplesmente não mudaram a minha vida, ainda que possa achar muito interessante o ensaio de Saramago sobre a ideia de uma Ibéria mais próxima de uma sensibilidade afro-americana do que europeia e de ter criado empatia com o personagem de Sebald cujas incongruências da memória o levam Europa fora à procura de um passado e de uma identidade. Há mesmo em ‘Austerlitz’ algumas passagens que nunca me saíram da cabeça, uma delas é a descrição minuciosa que Sebald (neste caso Austerlitz) faz da nova Biblioteca Nacional de França do Dominique Peurrault, lembro-me de estar na cama e de ter tido um hilariante ataque de riso enquanto lia essas páginas, nenhum crítico de arquitectura o teria feito melhor. O prazer da leitura não é suficiente para que um livro nos mude a vida, para que tal aconteça é necessário que o livro se imiscua no nosso pensamento e se torne uma parte de nós. Isso não me aconteceu com esses dois livros. É preciso que um livro nos proporcione mais do que prazer para que nos transforme a vida. Para aligeirar a coisa, e porque quero desde já dizer-te que faço esta análise do ponto de vista do leitor comum (até porque não tenho conhecimentos académicos para discutir o assunto cientificamente) proponho uma analogia meio despropositada mas que resume num ápice o que estou para aqui a dizer: tive imenso prazer a ver o ‘Shreek’, sim, o filme de animação, mas em nada mudou a minha vida ou a minha forma de pensar a vida, o mesmo não poderei dizer de filmes como ‘Elephant Man’ ou ‘Schindler’s List’ que me fazem reflectir continuamente sobre o que é realmente ser humano, o que é esta treta de ser um homem. Que fique bem claro que não estou a meter o ‘Shreek’ e ‘Austerlitz’ no mesmo saco, não vá a coisa começar a descambar…

Mas continuando com a minha lista e falando agora dos livros que não me deixaram marcas na memória e que constituem a grande parte dos títulos que escolhi. Por exemplo, se me pedisses para te falar sucintamente sobre ‘Nenhum Olhar’ do José Luís Peixoto, de ‘Quartéis de Inverno’ do Osvaldo Soriano, de ‘A Princesa’ do D.H. Lawrence ou de ‘Olhos Azuis, Cabelos Pretos’ da Marguerite Duras, eu, pura e simplesmente, seria incapaz de o fazer. A minha memória apagou-os completamente, ou quase completamente, eu próprio me questiono se realmente os li. O certo é que o fiz e a prova está em algumas linhas sublinhadas com que me deparo ao folheá-los. Fazendo um esforço para te poder dizer algo sobre esses livros, a minha memória não me diz mais do que isto: o livro do Peixoto tem uns personagens insólitos que me fizeram lembrar o Gabriel Garcia Marquez; ‘Quartéis de Inverno’ passa-se durante o período da ditadura militar na Argentina, de ‘A Princesa’ não ficou absolutamente nada e de ‘Olhos azuis, cabelos pretos’ da Duras guardo uma única imagem, uma imagem bela por sinal, mas que não consigo fixar ou relacionar com a acção do romance… é a imagem de um quarto virado para o mar, varrido pela luz de poente, quente e suave, cujos raios quase paralelos à terra acariciam dois corpos que se estendem nus num lençol branco… e há uma janela aberta, uma janela que permite esse cenário, uma janela alta e vertical de caixilho branco em madeira como algumas que encontramos nas casas de estilo colonial no Mindelo ou em Salvador. A imagem que guardo na minha cabeça é tão bela que hesitei em colocar o livro na lista, mas na altura voltei a fazer a pergunta, será que este instante de beleza mudou a minha vida? Não, não mudou, deu-lhe cor unicamente.

Não queria terminar esta conversa sem mencionar os restantes títulos. O que os une? O facto de serem os únicos livros que nunca consegui terminar até hoje; dois por puro aborrecimento (‘A Sibila’ e ‘O Vermelho e o Negro’) e o outro que, por incapacidade minha, falta de inteligência ou de sensibilidade ou de sei lá bem o quê, nunca consegui entrar realmente na lógica por muito que tenha tentado e esforçado, a saber ‘O Inominável’ do Beckett. Ao contrário de todos os outros e furtando-me ao critério que usaste para elaborar a tua lista (os livros que não tens vontade de reler), ‘O Inominável’ de Beckett é um livro ao qual pretendo regressar, acho que houve ali uma incompatibilidade qualquer que ficou por resolver e duvido que tenha sido uma resistência minha, a ver vamos…

Tenciono continuar este diálogo, escrevendo-te sobre os outros livros, os que me acompanham diariamente, explicando-te em que medida mudando-me, eles acabaram por mudar a minha vida.

O teu,

Vítor.

quarta-feira, setembro 05, 2007

nota do dia (21)

já passaram três meses e a minha soph vai amanhã embora... esta casa vai ficar sem luz.

já agora, e porque nunca o fiz no Sincronicidade, os 10 livros mais importantes da minha vida

por ordem de enamoramento:

1. 'As Ondas', Virginia Woolf*
2. 'Alexis', Marguerite Yourcenar*
3. 'Livro do Desassossego', Bernardo Soares (Fernando Pessoa)
4. 'O Estrangeiro', Albert Camus
5. 'Os Passos em Volta', Herberto Helder
5. 'Espera de Deus', Simone Weil
6. 'Elogio da Velhice', Hermann Hesse*
7. 'Sinais de Fogo', Jorge de Sena
8. 'Em Busca do Tempo Perdido' (7 vols.), Marcel Proust
9. 'Quarteto de Alexandria' (4 vols.), Lawrence Durrell
10. 'Se Isto é um Homem', Primo Levi*

e vou ter que fazer batota, adicionando 4 livros que também foram extremamente importantes para mim.

11. 'Se Numa Noite de Inverno um Viajante', Italo Calvino*
12. 'As Horas', Michael Cunningham
13. 'A Paixão Segundo G.H.', Clarice Lispector*
14. 'Sob o Olhar de Medeia', Fiama Hasse Pais Brandão

*destes autores escolho apenas o livro que mais me marcou do conjunto das suas obras... caso contrário a lista passaria para vinte títulos e uma batota não chegaria...

passo a palavra aos mesmos amigos dos 10 menos.

terça-feira, setembro 04, 2007

Ai que adoro falar mal da vida alheia... hahaha

Meu Vítor, eis aqui a minha lista. Ela está incompleta, tentei encontrar dez títulos, mas só consegui nove. Se no decorrer da semana eu me lembrar de mais algum, prometo incluir. Estes aqui são aqueles que não me despertam a menor, a mais ínfima vontade de uma segunda leitura. Isso não significa que não foram importantes para minha vida. Foram. Eles me ensinaram que o cânone literário não é um dogma religioso e que eu sobrevivo – muito faceira, por sinal – aos olhares congelantes e narizes tortos dos sábios acadêmicos.
Queridão, isso podia virar uma série chamada "Veneninho literário". Hahaha!

And the Oscar goes to:

1. O chatíssimo Ulisses, James Joyce;
2. Dona Flor e seus dois maridos, Jorge Amado*;
3. A dama do lotação, Nelson Rodrigues;
4. Macunaíma, Mário de Andrade;
5. As geórgicas, Claude Simon;
6. Um céu de estrelas, Fernando Bonassi;
7. Eurico, o presbítero, Alexandre Herculano;
8. A casa dos budas ditosos, João Ubaldo Ribeiro;
9. O apanhador no campo de centeio, J.D. Salinger.

* - Para mim, só se salvam do Jorge Amado, Capitães de Areia e A morte e a morte de Quincas Berro D’água.

segunda-feira, setembro 03, 2007

10 Livros que Não Mudaram a Minha Vida

O Manuel A. Domingos iniciou uma corrente intitulada 'os 10 livros que não mudaram a minha vida'. O desafio ainda cá não chegou, mas achei o exercício tão interessante e tenho tanta curiosidade em saber qual será a lista da Lu que resolvi antecipar-me. Falamos sempre dos livros que nos marcaram, que mudaram as nossas vidas, mas, talvez por pudor, nunca referimos os livros que nos aborreceram de morte... o meu barómetro para classificar um livro como 'bom' ou 'mau' é a memória, os 'bons' moram nela para sempre, ressurgindo passagens ou detalhes a todo o momento, os 'maus' caem completamente no esquecimento e só a estante me diz que um dia estiveram nas minhas mãos. Alguns poderão achar um crime, mas cá vai então a lista dos 10 livros que não mudaram a minha vida:

(nesta lista incluo apenas ficção)

1. 'A Sibila', Agustina Bessa-Luís
2. 'O Inominável', Samuel Beckett
3. 'Nenhum Olhar', José Luís Peixoto
4. 'O Vermelho e o Negro' (2 vols.), Stendhal
5. 'A Jangada de Pedra', José Saramago
6. 'Quartéis de Inverno', Osvaldo Soriano
7. 'Austerlitz', W.G. Sebald
8. 'A Princesa', D.H. Lawrence
9. 'Olhos Azuis, Cabelo Preto', Marguerite Duras
10. 'Paris é uma Festa', Ernest Hemingway

Lu, fico à espera da tua lista... estou curioso em relação às escolhas do Carlos, do António Ferro, da Fátima e da Sandra Costa.

quinta-feira, agosto 30, 2007

nota do dia (20)

passamos a vida a subestimar os outros. ninguém sabe o que vai dentro da cabeça de cada um...

quarta-feira, agosto 29, 2007

imagens que se colam ao peito (25)

Georgia O'Keeffe, 1918, Alfred Stieglitz