segunda-feira, dezembro 15, 2008
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Séries: Post-it
sábado, dezembro 06, 2008
someone's movie
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Séries: fotografia, imagens que se colam ao peito
terça-feira, novembro 04, 2008
Notinha breve e ufanista
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Séries: cinema
segunda-feira, outubro 13, 2008
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Séries: Post-it
sexta-feira, outubro 03, 2008
As Matriarcas (11)
- O que houve? E o que você faz aqui, Tiziu?
- Não está lembrada, D. Olívia? A gente estava andando de bicicleta lá pras bandas do Largo da Esperança quando a senhora passou mal e desmaiou. Acho que foi o sol. Estava quente por demais e a senhora não deve de tá acostumada.
- Não deve estar acostumada!
- Pois não foi o que eu disse? Então, voltei correndo na bicicleta, busquei a charrete e o Nhô Agenor para ajudar.
- Ah, sim! Agora estou me lembrando... Diga-me, faz muito tempo que estou dormindo?
- Não. Coisa de meia hora.
- E você ficou aqui esse tempo todo, velando meu sono?
Acho que a comoção na minha voz o deixou enrubescido.
- É. Queria saber se a professora tava bem – disse um Tiziu todo envergonhado.
- Estou ótima, Tiziu. Agora você pode ir. Descanse um pouco e faça seus deveres de casa. Mas antes, pegue ali a minha bolsa.
Ele foi pegá-la, todo preocupado.
- Aqui está o seu pagamento.
- Não, D. Olívia. Não precisa pagar. A gente nem chegou a fazer o passeio direito.
- Pegue. Esse é o combinado. Além do mais, você ainda teve o trabalho de voltar para buscar ajuda. Vamos, vamos. Pegue.
Relutante, ele esticou a mão para receber o dinheiro. Eu o puxei e disse-lhe:
- Muito obrigada. O dinheiro é seu para comprar o que quiser, mas não vá gastar com bobagens, sim?
- Pode deixar, D. Olívia.
Quando Tiziu bateu a porta, fiquei lembrando-me de tia Margarida, da procissão, de seus surtos, de sua dor.
A primeira vez que vi tia margarida se descontrolar foi na morte da bisa Lola. Mais tarde, na procissão e depois disso, ela nunca mais foi a mesma.
Antes de tudo isso começar, ela dava aula no Grupo Escolar. Era uma excelente professora. As crianças adoravam-na. Lembro de tia Guidinha sempre perfumada, usando saias esvoaçantes. Ela tinha pernas escandalosas. Ela gostava de poesia e me fez ter gosto por literatura. A primeira vez que li Bandeira, deparei-me com um poema seu que dizia assim:
A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna
Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos era muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do
Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.
Disse a ela que achei Tereza a sua cara e que mesmo sem conhecê-la, Manuel Bandeira escrevera aqueles versos para ela. Ela divertia-se com essa minha idéia.
Quando tia Margarida surtava, escutar a mim declamando esse poema era uma das poucas coisas que a acalmava.
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Séries: As Matriarcas
segunda-feira, setembro 22, 2008
Confessionário (53)
Durante este fim de semana pensei tanto no que me liga a ti, no amor que nos une, na serenidade da certeza de saber-te meu, no que há de genuíno em deixar-se amar por alguém sem avarezas.
Há dias que não sei se desejo voltar ao estado anterior em que não tinha certeza de existir, em algum lugar deste Universo, uma alma afim... há dias, meu Vítor, que desejo novamente não sabê-lo, porque me pergunto que bem há em saber que ela existe, sim, mas vive distante a tantos mares, a tantas ausências sentidas, a tanta falta de abraço.
Tenho na memória guardada toda lembrança dos dias rápidos em que estivestes aqui, ao meu lado, ao alcance da mão. Retenho então em mim o abraço apertado, o olhar cúmplice, a face do reconhecimento, a felicidade de saber que sou par, que outros da minha espécie existem. Só suporto tamanha saudade e falta de afago porque há quem viva mil anos sem jamais experimentar aquilo que sentimos. Viveria toda uma eternidade novamente somente para desfrutar do nosso encontro.
Na concha das minhas mãos, entrego-te minha partilha, meu coração contrito e a minha esperança de vê-lo em melhores dias.
Meu Vítor, eis aqui a chave que abre os portões de Amboise. Toma-a.
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Séries: confessionário
segunda-feira, agosto 25, 2008
Das sincronicidades
Lembro-me que foste tu o culpado. Foram tuas mãos que me levaram aos versos intensos de Fiama Hasse Brandão.
Hoje estava aqui em casa lendo alguns de seus poemas e, por curiosidade, fui ao google procurar outras referências a respeito de sua obra. Ao pesquisar, caiu-me no colo este vídeo lindo da Adriana Calcanhotto que, como tu bem sabes, é minha cantora favorita.
Compartilho contigo os versos e a música para que te enterneças tanto quanto eu.
Beijo saudoso,
Tua Lu
Poética do eremita
(Fiama Hasse)
No deserto estão secas
as pedras que no mar se molhavam
a semelhança confunde o eremita que solitário demais
passou o tempo entregando-se à solitária memória
aqui a pedra seca
para o eremita não perdeu
a qualidade húmida de poder
ter estado ao pé do mar.
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Séries: Sincronicidades
segunda-feira, agosto 18, 2008
Homenagem a Dorival Caymmi (1914-2008)
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Séries: in memoriam
terça-feira, agosto 12, 2008
no seguimento do post anterior: beatriz (é música e poema)
'Beatriz' de Edu Lobo e Chico Buarque
na versão de Maria João e Mário Laginha
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Séries: I-pod, le cume des jours
segunda-feira, agosto 11, 2008
Prosa, verso ou música?
Wally Salomão
Fronteira pouco nítida
O que o Chico Buarque diz não importa, ele é poeta sim. Muitas das letras dele têm qualidade superior a grande parte do que se encontra na literatura. Esta semana eu peguei um texto de Chico intitulado "Canção que existe", que me lembrou muito Dante em A Divina Comédia. E se você ler este texto, classifica-o como poesia tranqüilamente.
A Língua Portuguesa tem tradição na fusão entre a poesia e a letra de uma música. Existem sutis diferenças entre as duas, claro, mas elas estão muito próximas. Não há uma regra definida para o que pode ou não ser poesia. Eu não aceito quando alguns professores de Português, estrategicamente, tentam fazer uma separação entre as duas áreas. A única coisa que eles conseguem dizer é que poesia é aquele texto que se sustenta na página. Para mim, este argumento não faz o menor sentido. Lógico que existem pontos característicos de cada um destes mistérios. Um pernambucano, João Cabral de Melo Neto, disse em Duas Águas que existem poesias para serem ditas em voz alta e em voz baixa. Ou seja, há diferenças entre música e poesia, mas a fronteira entre elas não é tão nítida. Quando eu faço um texto sabendo que este vai ser musicado, o processo de criação não é o mesmo. Por exemplo, Maria Betânia me pede uma letra, eu penso já na voz dela. Porém, ao mesmo tempo, eu posso fazer uma letra nem pensando em musicá-la e acaba acontecendo, como Mel, que só depois de pronta, foi trabalhada por Caetano Veloso.
A poesia já tem um ritmo próprio. A história dos poemas prova isto, quando estes eram recitados por menestréis ou em jograis pelos povos mouros. Até hoje, percebendo o texto de Garcia Lorca, esta influência do canto popular está bem clara. Então, como a poesia tem um ritmo próprio, não há rigidez no que pode ou não ser musicado.
Wally Salomão é poeta e letrista
Jacy Bezerra
Canções que resistem
Em alguns casos, eu concordo que uma letra de música pode ser considerada poesia, como no Concretismo, por exemplo. Existem letras que sobrevivem independente de serem enquadradas como música. "Águas de Março" de Tom Jobim é para mim um grande poema. Outros artistas fazem trabalhos além da música também, como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque.
Eu já vi algumas entrevistas com Chico na qual ele afirma não ser poeta e acho que em certo ponto tem até razão. Eu acho interessante quando ele diz que faz primeiro a música e depois a letra. Em todo caso, Chico Buarque deve ser considerado principalmente e essencialmente músico, mas algumas de suas letras podem facilmente ser classificadas poesias, como "Carolina" e "A banda". Estas canções resistem no papel independentemente de serem cantadas ou não.
Jacy Bezerra é poeta
Sebastião Vila Nova
Duas coisas diferentes
A letra de uma música é uma coisa bastante diferente de um poema. Em princípio uma letra deve ser submetida à música. Quando uma letra supera uma canção, não há uma boa canção. Quando um ouvinte escuta uma música prestando atenção primeiramente à sua letra, não é um bom ouvinte. Uma canção deve ser lembrada inicialmente por sua melodia. A poesia e a música têm relação por suas origens. Elas nasceram juntas e é por isso que a poesia tem um certo ritmo. É o que Ezra Pound chama de “melopéia do poema”. Porém, depois a música e a poesia se separaram e tomaram rumos diferentes. Eu penso como Thomas Mann escreveu no romance Doutor Fausto: “Um poema não deve ser bom demais para servir de material para uma boa canção. A música se sai muito melhor na tarefa de dourar a mediocridade”. Ou seja, ele diz que uma canção pode ter uma letra pobre e, mesmo assim, ser uma bela canção. Por outro lado, eu admito que excepcionalmente alguns artistas conseguem se superar e fazer letras poéticas independente da música. Chico Buarque, por exemplo, em "Brejo da Cruz". Essa letra pode ser lida no papel como um poema. Caetano Veloso também atinge isso quando faz letras experimentais. E isto é perigoso para o artista. Quando se faz letras como essas, a música não funciona e não pega.
Sebastião Vila Nova é sociólogo e músico
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Séries: resenha literária
imagens que se colam ao peito (28)
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Séries: fotografia, imagens que se colam ao peito
VI
que segredos esconde
o pássaro da manhã
sobre aquela janela?
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Séries: sonho
poemas (1)
Canção de Embalar
Apoia a tua cabeça adormecida, amor,
Tão humana sobre o meu braço descrente;
O tempo e a febre consomem
A própria beleza das
Pensativas crianças, e o túmulo
Mostra que a criança é efémera:
Mas, nos meus braços, até ao romper do dia
Deixa que a viva criatura jaza
Mortal, culpada, mas que para mim
É toda a beleza.
A alma e o corpo não têm limites:
Para os amantes quando jazem
Sobre o seu permissivo e encantado declive
Num habitual desfalecimento,
Grave é a visão que Vénus envia
De uma sobrenatural compaixão;
Amor universal e esperança;
Entretanto, uma visão abstracta desperta
Entre os glaciares e as rochas
O êxtase carnal do eremita.
A segurança e a fidelidade
Passam ao bater da meia-noite
Como as vibrações de um sino
E aqueles que são elegantes e loucos erguem
O seu pedante e enfadonho apelo:
A mais pequena moeda devida,
Tudo o que as temidas cartas auguram,
Há-de ser pago, mas desta noite
Nem um murmúrio, nem um pensamento,
Nem um beijo nem um olhar se hão-de perder.
A beleza, a meia-noite, a visão que morre;
Que os ventos da madrugada ao soprarem
Suaves em redor da tua cabeça sonhadora
Mostrem um dia de boas-vindas
Que o olhar e o coração palpitante abençoem,
Que achem suficiente o nosso mundo mortal;
Que meios-dias de aridez te encontrem alimentada
Por poderes involuntários,
Que noites de afronta te deixem passar
Vigiada por todos os amores humanos.
Janeiro 1937
W.H. Auden
Diz-me a verdade acerca do amor
Trad. de Maria de Lourdes Guimarães
Relógio d´Água
1994
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Séries: poemas
sábado, agosto 09, 2008
resposta ao comentário anónimo do post de 6 de agosto:
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Séries: Post-it
'even if the door is open, the person you're looking for may not be there'
My Blueberry Nights, 2007, Wong Kar Way
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Séries: cinema, imagens que se colam ao peito
quinta-feira, agosto 07, 2008
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Séries: Post-it
quarta-feira, agosto 06, 2008
imagens que se colam ao peito (27)
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Séries: imagens que se colam ao peito, Post-it
V
uma vida igual
à mulher da somália
tal como canta a música
um deserto de carne
os pés em ferida
e de novo o viajante
o eterno viajante
que apaga o rasto de sangue
do ventre das dunas
como quem esconde o destino
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Séries: sonho
terça-feira, agosto 05, 2008
sublinhado (71)
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Séries: sublinhado
sexta-feira, agosto 01, 2008
IV
o rádio toca
e a estrada em fuga
reflecte o que já sabemos:
no vapor do alcatrão
entre o negro do solo
e o azul do céu
há mortos que vivem
e vivos que se esforçam
por morrer
e nada disso importa
porque a eternidade
nasce no segundo cruel
onde a ínfima partícula da alma
se faz verdade
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Séries: sonho
sublinhado (70)
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Séries: sublinhado
quinta-feira, julho 31, 2008
III
tudo parece uma rota indefinida
não existem mapas
e as estrelas
não funcionam como dantes
um viajante
que vive a modos
do entardecer
na certeza de que o sol
morre todos os dias
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Séries: sonho
imagens que se colam ao peito (26)
últimos seis minutos 'Six Feet Under', 2005, Alan Ball
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Séries: imagens que se colam ao peito
II
não há fantasia
nas horas que separam
o vivo do morto
apenas gumes
facas e bifaces afiados
dentes de tubarão
e um abdómen rompido
onde nem a dor transborda
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Séries: sonho
terça-feira, julho 29, 2008
As matriarcas (10)
Somente as crianças – que não compreendiam bem o que de fato acontecia – romperam o silêncio daqueles rostos estáticos, quando resolveram se juntar ao bailado de tia Margarida. Aproveitaram seu desvario como desculpa para tomar banho de chuva, fazer algazarra e brincar de ciranda em torno de uma tia Margarida em êxtase.
Ninguém as impediu. Creio mesmo que nem notaram a presença delas, tamanha estupefação. Pareciam hipnotizados, em transe coletivo, num misto de horror e incredulidade diante da cena. Nenhum suspiro, nenhum “oh!” nem menear de cabeças. O único gesto (mecânico) que notei foi o de Pe. Miguel se benzendo com o sinal da cruz como se testemunhasse uma possessão, mas minha memória me dizia que a interpretação da criança que fui era outra. Naquele dia achei que Pe. Miguel abençoava tia Margarida, livrando-a de toda mácula, pecado ou doença, tal como Jesus fizera com Maria Madalena. Pensei que ali, naquele momento, ao ver tia Margarida rodopiar e sorrir, presenciara um milagre.
Eu mal sabia que era o começo do fim.
Tia Margarida deu um berro e desmaiou. Corri em sua direção ao mesmo tempo em que procurei mamãe com os olhos, mas ela amparava nos braços uma vovó Totonha desfalecida.
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Séries: As Matriarcas
segunda-feira, julho 28, 2008
Confessionário (52)
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
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Séries: confessionário
I
entra pela mesma porta
pousa a cabeça na soleira de granito
e espera que o sonho chegue
há um degrau sobre o corpo
e um farol no horizonte
nas mãos crescem-lhe estátuas
de homens que nunca viu
músculos assimétricos
cabelos violentos
há um anjo vermelho
que tece uma manta de celofane
e há um outro
que embrulha um coração
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Séries: sonho
terça-feira, julho 22, 2008
a estrada
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Séries: I-pod, le cume des jours
quarta-feira, junho 25, 2008
Confessionário (51)
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Séries: confessionário





