terça-feira, dezembro 11, 2007

sublinhado (69)

Encontrando-me para lá de Ciudad Real, pus-me a pensar na magia das despedidas radicais, no encanto das despedidas radicais dessas pessoas que tanto admiramos quando vimos a saber que foram capazes de mandar tudo para o diabo, que bateram com a porta e se foram embora, não sem antes dizer fiquem aí, seus cabrões.
Quando ouvimos contar que alguém deixou toda a gente pendurada, nós em silêncio, com raiva contida, aprovamos esse audaz, purificador, elementar impulso. Como não haveríamos de aprovar se todos odiamos o nosso domicílio, o lar nos aborrece, ter de estar nele? Eu, pelo menos, já as tinha começado a jurar ao meu domicílio. Era um entusiasta da Teoria de los abandonos, um poema de Philip Larkin: «Todos odiámos a nossa casinha, / ter de viver nela: / eu detesto o meu quarto, / os seus trastes especialmente escolhidos, / a bondade dos livros e a cama / e a minha vida perfeitamente em ordem.» (pág. 42)
Doutor Pasavento (Teorema), Enrique Vila-Matas

3 comentários:

isadora machado :) disse...

Não gosto de passar em blogs bons e não deixar meu recado. Embora meu blog não seja focado para o público eu imagino o qüão estimulante é um simples comentário. Estou lendo o "sicron" aos poucos. Adorei o que li! Parabéns :D

Luciana Melo disse...

Meu Vítor, esse lar em que sou a senhora do castelo eu nunca me aborreço. Esse espaço íntimo que é o quarto não me amedronta; o mundo lá fora, imenso e ínfimo é que me desconcerta.
Ah, saudades tuas e de poder sentar-me para escrever aqui.
Beijo,
Tua Lu

Luciana Melo disse...

Seja muito bem-vinda, Isadora.
:o)