terça-feira, janeiro 29, 2008

Reencontros

No romance Avalovara, Osman Lins apropria-se de uma figura mítica hindu (Avalokitesvara) para representar as possíveis narrativas que dão significado à vida. O autor tenta representar a totalidade da vida (as paixões, o tempo, a cosmogonia...) pela fabricação do romance ficcional.
Desde que li tal livro, nunca mais fui a mesma. Osman Lins fez uma revolução na minha maneira de encarar a criação artística. Não há criação literária sem que o artista viva intensamente a sua época, sem que se misture a toda sorte de experiências. Mais do que uma arte pura, a criação literária é um processo que se dá por contágio. “Busco as respostas dentro da noite e é como se estivesse nos intestinos de um cão. A sufocação e a sujeira, por mais que procure defender-me, fazem parte de mim – de nós. Pode o espírito a tudo soprepor-se? Posso manter-me limpo, não infeccionado, dentro das tripas de um cão?”
Eis como Osman recria o seu Avalorava:
“Ataviado com todas as cores dos pavões, o Avalovara lembra um manuscrito iluminado. Nele, quase é possível ler. A cauda é longa e curva, com reflexos de cobre. As asas, seis, de um tom verde celeste quando repousadas, ostentam na face interna, quando abertas, círculos de muitas cores, dispostos com simetria sobre fundo escarlate”.
O pássaro mítico do romance é formado por milhares de outros pássaros, renasce no betume e é livre da mudez e da imobilidade.

Nada é por acaso

Há muito tempo prometo-me a leitura de A viagem de Théo, de Catherine Clément, mas nunca conseguia cumprir o desejo.
Durante minha viagem, então, resolvi levá-lo na bagagem. Foi uma grata surpresa! Como eu costumo dizer para o meu amigo Vítor, repito aqui: são os livros que nos escolhem e eles se nos apresentam no momento certo.
Publicado em 1997, muitos anos após o Avalovara. Pela ordem cronológica e do meu desejo, deveria tê-lo lido, mas não o fiz. Foi preciso primeiro conhecer o pássaro de Osman, para mais tarde, reencontrá-lo:
“No inicio dos tempos, segundo os ensinamentos budistas, um grande macaco quis se converter graças às lições de um santo bodhisattva de nome complicadíssimo, Avalokitesvara. O santo mandou-o para as neves do Tibete, porque quanto mais perto do céu, melhor a gente se concentra. Enquanto o macaco meditava sobre a compaixão, passou uma cuca que se apaixonou loucamente por ele e assumiu a forma de mulher. Preso pelo voto de castidade, o macaco repeliu as investidas da cuca, mas ela soube suplicar tão bem que ele consentiu em dormir ao lado dela. Ainda não bastava. Como o macaco resistisse, a cuca ameaçou dar nascimento a monstros que devorariam a raça humana.”
Avalokitesvara aconselhou que o macaco se casasse com a cuca, por compaixão. Avalokitesvara é a mais popular das deidades budistas. Ela tem como promessa escutar a súplica daqueles que estão em dificuldade no mundo, ajudando-os a alcançar a iluminação. Ela é a emanação da compaixão. Avalokita é aquele que escuta os sons do mundo; svara é o senhor. Então, Avalokitesvara é o senhor que tudo ouve.

No romance, Osman funda reinos através da palavra, onde esta é o instrumento que tece a vida.
Clément diz, através da história das religiões, que o homem nu é o homem sem palavra; quando ele fala, ele se veste.
A relação da tessitura dos textos com os mitos? A Religião, mais do que mi(s)ticismo, é o universo da fundação dos reinos, da congregação de significados unificantes. Da mesma forma, o texto redefine o papel do homem enquanto criador. A busca pelo texto perfeito assemelha-se à busca da Jerusalém prometida, ou seja, é um ideal, o ato de redenção. Nesse sentido, religião e criação literária oferecem ao homem a possibilidade de ser demiurgo, porque estabelece-se o complexo jogo do divino e do profano.
Mircea Eliade, em O sagrado e o profano já dizia:
“Uma criação implica superabundância de realidade, ou por outras palavras, uma irrupção do sagrado no mundo. Segue-se daí que toda a construção ou fabricação tenha como modelo exemplar a cosmogonia.”
Ou ainda, segundo Gusdorf em A palavra:
“Chegar ao mundo é tomar a palavra, transfigurar a experiência em um universo do discurso."

3 comentários:

CeciLia disse...

Demorei
de propósito
a estar
aqui.

Temia chorar
na sua ausência.

Beijos em suas almas.

Não prometo ler vocês
aos poucos.
Nunca soube
ser comedida.

Luciana Melo disse...

Puxa Lia, tanta, mas tanta saudades de ti, guria.
Beijo imenso.

Mme. A. disse...

avalovara eh a coisa mais linda do mundo. muitos livros conseguiram me emocionar, mas avalovara roubou o meu chao.