sexta-feira, junho 29, 2007

Na estante (10)

Meu Vítor,

Trouxe um pouco de Lady Lazarus para dialogar com Woolf. Eram, certamente, almas afins.

Achava que não podia ser magoada
(Sylvia Plath)

Achava que não podia ser magoada;
achava que com certeza era
imune ao sofrimento —
imune às dores do espírito
ou à agonia.

Meu mundo tinha o calor do sol de abril
Meus pensamentos, salpicados de verde e ouro.
Minha alma em êxtase, ainda assim
conheceu a dor suave e aguda que só o prazer
pode conter.

Minha alma planava sobre as gaivotas
que, ofegantes, tão alto se lançando,
lá no topo pareciam roçar suas asas
farfalhantes no teto azul
do céu.

(Como é frágil o coração humano —
um latejar, um frêmito —
um frágil, luzente instrumento
de cristal que chora
ou canta.)

Então de súbito meu mundo escureceu
E as trevas encobriram minha alegria.
Restou uma ausência triste e doída
Onde mãos sem cuidado tocaram
e destruíram

minha teia prateada de felicidade.
As mãos estacaram, atônitas.
Mãos que me amavam, choraram ao ver
os destroços do meu firmamento.

(Como é frágil o coração humano —
espelhado poço de pensamentos.
Tão profundo e trêmulo instrumento
de vidro, que canta
ou chora.)

4 comentários:

Vítor Leal Barros disse...

minha querida, eu adoro a sylvia plath... arrisco mesmo a dizer que com uma obra muito menos extensa e uma vida muito mais breve do que a do seu companheiro, ted hughes, ela conseguiu igualá-lo, se não superá-lo na força e na qualidade da poesia...

um beijo enorme... minha querida

adelaide amorim disse...

Oi, Lu! Amo Sylvia Plath, é um prazer encontrá-la aqui.

Então você e o Sandman são amigos? E será que ele é o personagem do conto de Andersen? Espero que não seja o homem de areia de Hoffmann
=o- nem aquele da história do homem-aranha...
Pelo que vejo dele, acho que é um personagem "do bem".
Beijo pra você e pra ele :)

Luciana disse...

Meu Vítor, concordo com você. Sylvia Plath tem uma obra inquietante porque refletia suas angústias, seu mundo interior. E quanto erupção havia nesse mundo!
Outro beijo, meu querido.

Oi Dade. Espero que esteja melhor, minha flor.
Eu também gosto muito da Sylvia Plath. Sua abordagem poética é de uma intensiva vibrante.
Sim, somos bons amigos. O Sandman é uma pessoa muito querida e suuuuper do bem :))
Acho que como nós ele comunga de umas leituras, digamos, diferentes... ele é um gauche e como tal sabe apreciar o lado gauche da vida.
Acrescente à lista uma boa dose de Cioran.
Outro beijo, querida.

Vítor Leal Barros disse...

amiga decidi que vou continuar o de génese... vou fazê-lo aqui no sincronicidade... será uma nova série que inicio.

vou passar um texto por semana...revisto. enquanto não chegam os textos novos que estou a escrever entretanto, o pessoal terá oportunidade de reler os anteriores.

o porquê de fazer isto agora?... bem... o de génese nunca foi de A.G., foi sempre de VLB, ainda que seja a parte mais fantasiosa e inconsciente deste teu amigo...

beijo grande