sexta-feira, julho 21, 2006

imagens que se colam ao peito (6)


Pormenor de "A Escola de Atenas" (Michelangelo retratado como Heráclito). 1509-10. Fresco. Stanza della Segnatura, Musei Vaticani, Vaticano, Rafaello Sanzio
Sempre me intrigou a razão pela qual Rafael escolheu Michelangelo para retratar Héraclito... nas minhas leituras nunca me apercebi do carácter misantropo e altivo do artista renascentista. Parece-me que a ponte que Rafael estabelece entre os dois reside mesmo na melancolia.
Há um outro pormenor neste fresco que me fez parar durante uns dez minutos e que não me levou a conclusão nenhuma. Porque terá Rafael pintado Hipatia como uma espécie de fantasma de rosto botticelliano que assombra todo o lado esquerdo da composição? O mais estranho é que, em toda a cena, apenas dois personagens olham directamente o observador: um é Hipatia (o vulto branco avançando como um fantasma nas costas de Pitágoras) o outro, do lado direito da composição, é o auto-retrato do pintor, o próprio Rafael... não creio que seja coincidência. Os olhares de um e de outro são de tal modo intensos que assustam o observador. Ao olhar os rostos das duas figuras senti a mesma nudez que sinto ao ser observado por pessoas que olham directamente a retina. Fartei-me de rir quando percebi que, instintivamente, me tinha protegido daqueles olhos... arregalei-lhes os meus, antes que me roubassem a alma.



à esquerda, pormenor de Hipatia; à direita, pormenor de Rafael

3 comentários:

luciana MELO disse...

Engraçados como existem olhares que nos vazam a alma... eu recentemente congelei um na minha memória, Vítor, tão difícil de esquecer... desconcertante ver o nosso reflexo no olho de outro.
Beijo

frosado disse...

O velho e obscuro Heraclito!!!: "O ser não é mais que o não-ser", nem é menos; O absoluto é a unidade do ser e do não-ser; "Tudo flui (panta rei), nada persiste, nem permanece o mesmo". E Platão ainda diz de Heráclito: "Ele compara as coisas com a corrente de um rio - que não se pode entrar duas vezes na mesma corrente"; o rio corre e toca-se outra água. Seus sucessores dizem até que nele nem se pode mesmo entrar, pois que imediatamente se transforma; o que é, ao mesmo tempo já novamente não é. Além disso, Aristóteles diz que Heráclito afirma que é apenas um o que permanece; disto todo o resto é formado, modificado, transformado; que todo o resto fora deste um flui, que nada é firme, que nada se demora; isto é, Heráclito diz: Tudo é devir; este devir é o princípio. Isto está na expressão: "O ser é tão pouco como o não-ser; o devir é e também não é". As determinações absolutamente opostas estão ligadas numa unidade; nela temos o ser e também o não-ser. Dela faz parte não apenas o surgir, mas também o desaparecer; ambos não são para si, mas são idênticos. É isto que Heráclito expressou com suas sentenças. O não ser é, por isso é o não-ser, e o não-ser é, por isso é o ser; isto é a verdade da identidade de ambos".


Que saudades do tempo em que eu tentava explicar estas coisas aos meus alunos!Vitor, desculpa a "seca" mas não resisti!

Vítor Leal Barros disse...

não é seca nenhuma fátima...;) fiquei mais esclarecido sobre Heráclito...obrigado