quarta-feira, abril 04, 2007

Na estante (9)

Por mais familiar que seja seu nome, o narrador não está de fato presente entre nós, em sua atualidade viva. Ele é algo distante, e que se distancia ainda mais (...). Uma experiência quase cotidiana nos impõe a exigência dessa distância e desse ângulo de observação. É a experiência de que a arte de narrar está em vias de extinção. São cada vez mais raras as pessoas que sabem narrar devidamente. Quando se pede num grupo que alguém narre alguma coisa, o embaraço se generaliza. É como se estivéssemos privados de uma faculdade que nos parecia segura e inalienável: a faculdade de intercambiar experiências.
Umas das causas desse fenômeno é óbvia: as ações da experiência estão em baixa, e tudo indica que continuarão caindo até que seu valor desapareça de todo. Basta olharmos um jornal para percebermos que seu nível está mais baixo que nunca, e que da noite para o dia não somente a imagem do mundo exterior mas também a do mundo ético sofreram transformações que antes não julgaríamos possíveis. Com a guerra mundial tornou-se manifesto um processo que continua até hoje. No final da guerra, observou-se que os combatentes voltavam mudos do campo de batalha não mais ricos, e sim mais pobres em experiência comunicável. E o que se difundiu dez anos depois, na enxurrada de livros sobre a guerra, nada tinha em comum com uma experiência transmitida de boca em boca. Não havia nada de anormal nisso. Porque nunca houve experiências mais radicalmente desmoralizadoras que a experiência estratégica pela guerra de trincheiras, a experiência econômica pela inflação, a experiência do corpo pela guerra de material e a experiência ética pelos governantes. Uma geração que ainda fora à escola num bonde puxado por cavalos se encontrou ao ar livre numa paisagem em que nada permanecera inalterado, exceto as nuvens, e debaixo delas, num campo de forças de torrentes e explosões, o frágil e minúsculo corpo humano.

"O narrador" in Obras escolhidas: magia e técnica, arte e política. Walter Benjamin

3 comentários:

adelaide amorim disse...

sempre boas imagens e bons textos, Lu. muito bom. Beijo e boa Páscoa

Vítor Leal Barros disse...

actualmente são muitos os avós que não têm histórias para contar aos netos... temos todos os minutos programados por uma rotina que não escolhemos e em relação a isso não há nada a fazer. a loucura poderá ser o único escape, exigindo experiências cada vez mais improváveis e bizarras e o desiquilibrio será tão certo como estarmos vivos neste momento

Luciana Melo disse...

Dade, uma feliz Páscoa pra você também, querida. Esse espaço de sons, palavras e imagens é, indubitavelmente, a Pasárgada de nossos sonhos - meus e do Vítor.
Beijos

Meu querido, eis um fato irrefutável, mas ainda contornável. A Olívia continua a soprar em meus ouvidos histórias de casas velhas e e sentimentos eternos. Em breve espero poder contar mais um pedaço.
Acho que sou muito afortunada, meu amigo, ainda tenho avós maternos vivos e eles são quase um livro da carochinha, tantas são as histórias que me contam.
Beijo