domingo, fevereiro 04, 2007

Fogueira de vaidades

O que estaria por detrás da crítica azeda do grande prosador brasileiro ao seu contemporâneo português
Por Cláudio Mello e Souza*

Num intervalo de duas semanas, dias 16 e 30 de abril de 1878, Machado de Assis publicou dois artigos sobre Eça de Queirós, na imprensa da corte. Em forma polida e elegante, como lhe era natural, mas com vigor insuspeitado em homem que, tal como o Conselheiro Aires, padecia de “tédio à controvérsia”, desfecha sobre o autor de O Crime do Padre Amaro e O Primo Basílio duas acusações de arremedo literário e outra de inconsistência e puerilidade dramáticas.

O Crime, afirmou Machado, seria imitação de La Faute de l'Abée Mouret, de Zola. E O Primo não passaria de cópia malfeita de Eugénie Grandet, de Balzac. O terceiro erro de Eça, erro “grave, gravíssimo”, teria provindo do uso do acaso para acionar e sustentar o entrecho dramático de O Primo. Estranho que Machado tenha embirrado com essa travessura do destino, ele que pediu ao acaso que pusesse, numa mesma hora de um mesmo dia, num mesmo vagão de trem, a bela Sofia e o arrebatado Rubião. Sem falar em outros providenciais acasos de seus romances e contos, das Primas de Sapucaia às Memórias Póstumas.

Deixemos de lado acasos e inconsistências. Tornemos ao plagiato. As críticas de Machado fizeram furor e devotos. Ainda hoje servem de motivo para especulação maliciosa e julgamentos imprudentes. Eça de Queirós tomou conhecimento dos furores machadianos. Não lhes quis dar importância, porém. Durante dois anos, guardou silêncio, parente próximo do desdém. Fingidamente ou não, pareceu desinteressado de tão miúda polêmica.
Ao lançar a segunda edição do Crime, dois anos depois, tratou de precedê-la de uma nota em que, finalmente, respondia aos críticos. Mais exatamente ao crítico, o bruxo do Cosme Velho, que por essa época ainda não havia sido batizado de maneira tão ternamente lúgubre. Com a ironia de praxe, mas com impaciência e certa ponta de azedume, Eça desabafou:

“Os críticos inteligentes (epa!) que acusaram O Crime do Padre Amaro de ser apenas uma imitação da Faute de l'Abée Mouret não tinham infelizmente lido o romance maravilhoso do Sr. Zola, que foi talvez a origem de toda a sua glória. A semelhança casual (desconfio desse casual) dos dois títulos induziu-os em erro. Com conhecimento dos dois livros, só uma obtusidade córnea ou má-fé cínica poderia assemelhar esta bela alegoria idílica, a que está misturado o patético drama duma alma mística, ao Crime do Padre Amaro que, como podem ver neste novo trabalho, é apenas, no fundo, uma intriga de clérigos e de beatas tramada e murmurada à sombra duma velha Sé de província portuguesa.”
Concordo, incomodado, com a reação de Eça. Quanto ao Crime do Padre Amaro, Machado errou gravemente ao aproximá-lo de La Faute, de Zola. As semelhanças entre os dois livros são poucas, aparentes e enganosas. Tenho hoje a certeza de que são nenhumas, excetuadas certas breves passagens que devem ter marcado fundamente Eça de Queiroz, e que ele na verdade copiou, por não ver nisso nada de mal. Foi resultado de apaixonada admiração. Ou decorrência do contaminatio que deixou Virgílio levar-se pelos ventos da Odisséia ou pelos ecos da Ilíada.

Acho boa razão para explicar as implicâncias de Machado. A de ter sido ele um crítico conservador; pior, moralista. Quem leu a sua pequena obra crítica deve ter chegado logo à conclusão a que cheguei. Toda essa visão conservadora, visão de seguidor de Fichte, está mais sucinta e obviamente resumida num artigo que leva o título de “Notícia da atual literatura brasileira – Instinto de nacionalidade”.

Na parte em que ele trata do romance brasileiro, ao lado de preferência de gosto discutível, compensada por observações de fina sagacidade, há uma espécie de declaração de princípios, em que ressalta uma tomada de posição preconceituosa em relação às novas influências vindas da França: “As tendências morais do romance brasileiro são geralmente boas. Nem todos eles serão, de princípio a fim, irrepreensíveis; alguma coisa haverá que uma crítica poderia apontar e corrigir. Mas o tom geral é bom. Os livros de certa escola francesa (grifo meu), ainda que muito lidos entre nós, não contaminaram a literatura brasileira, nem sinto nela tendências para adotar as suas doutrinas, o que já é de notável mérito”. Machado de Assis recusava-se, com fingida indiferença, a referir-se à escola realista. Tem reação de ofendido pudor.

A relação de Machado com Eça começou por escrito e começou mal. O ciúme levou-os à inveja; a inveja, à impaciência; a impaciência, ao azedume. Com relação ao azedume, restou-me a impressão de que, chegados os dois à velhice, os atritos hajam sido atenuados por obra devota dos amigos. Concluí assim, depois de reler a carta que Machado escreveu a Henrique Chaves, na qual lamentou o fato de a morte suprimir talentos que ainda teriam muito a criar. Como foi o caso de Eça, que Machado definiu como “o melhor da família, o mais esbelto e o mais valido”. E Machado prossegue, ao falar da morte de grandes talentos:

“Onde ela é sem compensação é no ponto da vida em que o engenho subido ao grau sumo, como aquele de Eça de Queirós, – e como o nosso querido Ferreira de Araújo, que ainda ontem fomos levar ao cemitério – tem ainda muito que dar e perfazer. Em plena força da idade, o mal os toma e lhes tira da mão a pena que trabalha e evoca, pinta e canta, faz todos os ofícios da criação espiritual. Por mais esperado que fosse esse óbito, veio como repentino. Domício da Gama, ao transmitir-me há poucos meses um abraço de Eça, já o cria agonizante. Não sei se chegou a tempo de lhe dar o meu. Nem ele, nem Eduardo Prado, seus amigos, terão visto apagar-se de todo aquele rijo e fino espírito, mas um e outro devem contá-lo aos que deste lado falam a mesma língua, admiram os mesmos livros e estimavam o mesmo homem”. Não me lembro, em literatura brasileira, de necrológio mais comovido e verdadeiro. Creio até que sincero.

Manuel Bandeira, no artigo que escreveu para o Livro do Centenário, lembra que no dia 24 de agosto de 1900, dias depois da morte de Eça e de Ferreira de Araújo, a Gazeta de Notícias deu “toda uma página de colaboração em homenagem ao grande romancista: artigos de Araripe Júnior, Machado de Assis, Henrique Neto (...), versos de Osório Duque-Estrada, Luís Guimarães Filho e César Monteiro; ilustrações de Julião Machado (retrato de Eça e algumas figuras do Primo Basílio)”. Concluiu com a seguinte frase: “Machado de Assis dizia, lembrando-se sem dúvida de si próprio e de sua severa crítica ao Primo Basílio: ‘Tal que começou pela estranheza, acabou pela admiração’ ”.

A pena que criticou Eça foi a mesma que dele se despediu com admiração e encanto.
Árcades ambos.
*Jornalista, poeta, escritor e autor de Helena de Tróia – O Papel da Mulher na Grécia de Homero.

4 comentários:

Vítor Leal Barros disse...

nem de propósito, enquanto finalizava a leitura de 'o estrangeiro' de camus deparo-me com uma frase no livro que encaixa perfeitamente como comentário a este texo que publicaste:
'exageramos sempre as coisas que não conhecemos'

Luciana Melo disse...

Perfeito ;o)
Reconhecer o estranho é algo amedrontador!
Beijo

casoual disse...

Ando com muita falta de paciência, mas vou-vos lendo, na certeza de que, apesar de tudo, ainda quero acreditar que o mundo são «mundos». E leio-vos e acompanho-vos com o maior prazer. E ainda não cheguei àquele "não confiai em ningém" aqui invocado, ao qual acho que a Lu deu uma resposta possível. No dia em que isso acontecer, «bum, bum!»: não ando cá a fazer nada. De resto, não proponho nem advogo, ou por outra, advogo a palavra responsável.
Abraços.

Vítor Leal Barros disse...

acertaste no tom carlos, 'a palavra responsável'... e o 'don't trust nobody' advém da irresponsabilidade...
no final desse confessionário eu dizia que tinha sido gratificante correr o risco de confiar em algumas pessoas... caso contrário 'bum bum' também ;)

abraço