segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Metapoemas (4)

BRECHÓ

“Uma boneca de trapos
Não se parte se cair.
Fizeste-me a alma em farrapos...
Bem: não se pode partir”
Fernando Pessoa
A palavra é feita de farrapos.
Por que temer, se ela cair?
De tão usada se torna trapo,
Esgarça o tecido – fiapo por fiapo.
Mas quebrar?! Como, se não se pode partir?

Palavra guardada é fruta mofada.
Perde o viço, o brilho sedoso do cetim.
Palavra bela é palavra usada,
Gasta, catada no chão, no jardim.

O perigo da palavra
Não é utilizá-la nem deixá-la cair,
E, sim, que sua lâmina afiada
Corte a carne de quem a quer polir.
(Luciana Melo – 09/02/02)

3 comentários:

Sandman of the Endless disse...

Muito belo o poema Lu. Mostra a força que impinge algo aparentemente tão simples: um mecanismo da comunicação humana. Mas como tal, não está a palavra isenta de perigos; pode ela ferir, cortar, matar. Tudo depende, Lu, da destreza de quem a maneja. ;)

CeciLia disse...

Eu não sei, Lu e Vítor, como posso passar tanto tempo sem vir aqui. Sempre que volto fico me perguntando como, assim, a gente se permite não ferir-se das palavras de vocês?

Beijos, leio devagar, ferida de morte e de vida.

Lu disse...

Ed querido, se tem algo que a palavra não tem, esse algo chama-se isenção. Todo discurso é um discurso comprometido e eu gosto disso.
Beijos

Minha Lia, saudades de você, guria querida! Muitas!
A vida é assim mesmo, não é? Incontrolável.
A mim basta saber que da ferida brota a vida, o resto a gente inventa.
Beijo na alma.