quinta-feira, maio 04, 2006

Confessionário (20)

Meu amigo,

Como sinto-me reconfortada por saber que ainda posso juntar letras e construir discursos não lineares! Como é bom poder voltar a esse espaço e dividir contigo experiências variadas.
Ainda estou longe de sair do olho do furacão. Ainda sinto náuseas fortes pelo rodopiar vertiginoso. Estou no ápice dos círculos e tudo é um constante 360°.
Abandonei-me à mercê dos ventos, Vítor. Parei de tentar escapar, de fazer esforços. Simplesmente entreguei-me ao balé do ar. Leva-me, leva-me, leva-me onde quiseres, digo eu. E subitamente parei de sofrer demais, de me cansar demais, preocupar-me demais... eu sou e isso me basta.
Ao ouvir tua última confissão senti minha garganta estreitar-se e doer.
Lembrei-me que em uma de nossas cartas, falei da receptividade e compreensão que tens sobre a minha pessoa e acabei externalizando isso com algo do tipo: como alguém tão mais novo blá blá blá.
Conheces-me tão bem, Vítor! Minha referência a este fato é uma admiração em ao uma crítica porque a idade cronológica pode ser uma tremenda armadilha.
Há pessoas que nunca crescem, jamais serão contemporâneas de seu tempo; teimam em ser menos, em se infantilizar. Não há nada mais ridículo do que uma pessoa adulta que age como se fosse um bebê.
Recusar-se a aceitar o tempo é recusar-se a viver e eu quero tudo da vida, Vítor. Quero reter nas mãos o sabor de todas as idades. Sim, quero conservar a juventude, mas de outra forma.
Quero uma mente jovem, um espírito inquebrantável, uma alegria pueril, a esperança, mas isso não exclui a experiência de viver as fases, todas elas.
Desprezar a experiência de alguém – tenha ele 20 ou 80 anos – é negar sua capacidade criadora.
Estou concluindo a leitura de Todos os homens são mortais, da Simone de Beauvoir. Os livros nos escolhem, meu amigo e ler este livro no momento dessa conversa é uma dádiva maravilhosa!
O argumento do livro não é novo nem criativo. Simone relata a vida do imortal conde Fosca que se recusou a aceitar o tempo e extrair o melhor dele. Sua arrogância e inexperiência fizeram que desejasse a imortalidade. Tanto fez que conseguiu e o que deveria ser um dom tornou-se maldição. Viu tudo e todos passarem e só ele ficou. A vida tornou-se monótona e sem atrativos, uma vez que não tinha mais expectativas. Ele sempre sabia como as coisas seriam. O nascer e o pôr-do-sol eram-lhe maçantes. O amor uma fraqueza, não havia mistérios nem novidades. Essa sucessão interminável das horas era pesada demais.
Sabe, Vítor, fico imaginando um mundo sem poesia, palavras, romance, crianças... mesmo nas maiores adversidades há uma razão para se viver, para prosseguir.
Eu insisto, meu amigo. Eu insisto em ser feliz em todas as idades, mas sem pensar muito nisso.
Não pense demais nos rótulos que tentam nos definir, eles são sempre muito menos do que nós. Os potes são menores do que nosso tamanho, oprimem nossa alma imensa e livre e freqüentemente nos tornam infelizes.
Que venham os furacões, Vítor!

2 comentários:

Vítor Leal Barros disse...

é bom ter-te de volta!

CeciLia disse...

clap, clap, clap.

Eu não diria isso melhor. Ainda bem que há a Lu e a Simone.

Beijos na alma.