quarta-feira, maio 03, 2006

De preferência sem palavras (3)

Disse-vos que devíamos matar as palavras, pedi até um sacrifício para que o fizéssemos. Não há mais o que escrever, o que dizer. Não há. O tempo esgotou-nos o vocabulário no dia em que aceitámos viver sem pesar o caminho do Sol, no mesmo dia em que acenámos o último adeus à alvorada e ao entardecer.
As Palavras não existem mais, não como a roldana do mundo… não como a roldana do mundo! Morreram quando a terra caiu sobre o olhar manso de Hölderlin, quando o vento apagou de Lisboa os passos de Pessoa. As Palavras morreram no dia em que o diabo lançou tempestades sobre o deserto e impediu o mundo de sentir o cheiro ácido do suor de Rimbaud. O poema morreu com elas.
Órfãos de beleza, chamamos Palavra à tira de celofane com que envolvemos o coração. E vendemo-lo depois, higienizado, com o nome de poema. Não há Palavras desde que eliminámos o hálito da terra. Não há Palavras desde que os fumos das fábricas e dos automóveis abafaram o perfume da chuva. Não há Palavras desde que deixámos de acreditar em pactos de sangue. Sem Palavras ficámos e de palavras vamos vivendo, até ao dia em que, de novo, a Ceifeira cante.

5 comentários:

CeciLia disse...

Não há palavras para vencer a incredulidade sobre as durezas que o tempo exerce. O cruel esgota a Palavra em torno à mesa de que precisamos alimento. Nenhuma Palavra a porvir.
Abraço, poeta. Forte, este teu texto.

Paulo Esteves disse...

Olá, Vítor.
Venho a despropósito para dizer que roubei o vosso modelo de "footer". Hope you don't mind.

Mais a propósito: muito boa esta celebração crepuscular das palavras a partir do que nelas já não pode vingar senão como simulacro

Rotação dos tempos disse...

Elas podem ser tudo...também...responsáveis pelos desentendimentos humanos.
Quando não precisarmos delas...como poderei ler estes teus belos posts?

Vítor Leal Barros disse...

paulo... na boa... essa coisa da exclusividade dos templates é algo que me faz um pouco de confusão...
sucesso para o novo blogue...e "Mãos na Terra" hehehe

um abraço

luís, ando a ver se escrevo um espécie de "anti-poema"... a tentar inverter o processo... a ver se consigo.... há Palavras e palavras...

um abraço

Vítor Leal Barros disse...

lia, não me esqueci de ti, e um pouco na lógica do que disse ao Luís e muito resumidamente, o que estes textos têm dito não é mais do que a existência do poema (no seu mais elevado significado) livre ou libertado das e pelas palavras. no dia em que o luís não precisar as palavras (e digo o luís porque foi ele que colocou isso em hipótese) ele não terá necessidade de ler os meus textos... terá percebido no íntimo da sua alma onde mora o poema.

eu sei que este meu raciocínio é controverso... mas está a dar-me muito gozo...

um beijo na alma