quarta-feira, março 08, 2006

Ainda "Capote"...

Em relação a "Capote", penso que os dois personagens usam-se e manipulam-se mutuamente. O assassino, Perry Smith, usa Truman, de forma que, através do romance, ele possa ser visto pela sociedade com alguma humanidade e dignidade (caso contrário seria visto como um criminoso, um monstro abominável da mesma estirpe de outros serial killers que conhecemos), por sua vez Capote precisa dele para escrever o romance que o vai catapultar. Nenhum dos dois é totalmente inocente em toda a história. Cada um deu de si o que lhe interessava dar, cada um jogou de forma a obter o resultado mais satisfatório para si próprio. A mais valia do filme reside exactamente nesse ponto, ao escolherem entrar no jogo, ao aceitarem o desafio, os dois personagens não imaginam a complexidade das regras com que são obrigados a jogar – o campo das relações humanas é muito mais ambíguo do que se possa imaginar à partida e, no momento em que se estabelece um sentimento de identificação entre os dois, deixam definitivamente de ter poder e domínio um sobre o outro. No fundo, há uma espécie de “injustiça” que se arrasta continuamente sobre a história… a injustiça do passado dos dois personagens, a injustiça da família assassinada, a injustiça da condenação à morte, a injustiça transformada em remorso no peito de Truman que o impede de continuar a viver. A última frase do filme, uma citação de Capote que não consegui transcrever, dizia mais ou menos isto: “Chora-se mais depressa por uma prece atendida do que por uma não ouvida”. No fundo ele consegue dar um fim ao que se propôs, acabar “In cold blood”, e teve realmente o sucesso e o reconhecimento que projectara à partida, mas talvez o preço da ambição, o resgate da fama, tenha sido caro demais.
Quanto à interpretação e realização, o trabalho dos actores foi bastante melhor do que o do realizador. Diga-se o que se disser (ainda mais com o Oscar) Philip Seymour Hoffman é um grande actor… e não precisávamos de Capote para o provar, a sua prestação discreta em "Magnolia" era suficiente para o sabermos.
Ps. Esta fotografia é o resumo do filme, os dois representam constantemente. Apesar disso, a maldade "acordeirada" de Perry Smith e a vaidade de Truman Capote são irreversivelmente perceptíveis na imagem.

3 comentários:

frosado disse...

Mais uma vez, repito, concordo contigo e subscrevo tudo o que disseste. Philip Seymour Hoffman, é de facto um grande actor, e representa na perfeição todo o exibicionismo e representação do personagem - acho que atige o máximo qd finge chorar. É notável!

A viagem aos Açores foi muito boa! No verão espero-te lá :)...

Thaline disse...

Ainda nao pude ir ver o filme...
AMEI essa musica de fundo. Lindíssima!!!
beijoss

CeciLia disse...

Vitor,

desgraçadamente ainda não assisti Capote. Mas vou vê-lo com olhos mais agudos, depois do teu texto.

Abraço