terça-feira, outubro 24, 2006

imagens que se colam ao peito (14)

O meu primeiro contacto com a obra de Helena Almeida foi um daqueles acontecimentos que nos marcam para toda a vida. Faz parte de uma das experiências académicas mais importantes e significativas da minha formação enquanto profissional e enquanto homem. Porque nem tudo no ensino é mau, e há professores que nos marcam profundamente, pessoas que graças à sua singularidade intelectual e a uma entrega apaixonada ao que realmente acreditam, exercem sobre nós um tipo de fascínio que transportamos sob forma de admiração para o resto da vida.


Tela Habitada, 1976, Helena Almeida
Início do ano lectivo. Aula de apresentação do professor e do programa da disciplina de Projecto II. A turma sentada. A banda sonora tradicional, o burburinho característico do início de aula. Poucos alunos: as aulas de apresentação são sempre fastidiosas e não passam de um pró-forma curricular, ninguém dá bola. Uma mulher dos seus trinta e picos entra na sala, dirigindo-se para a secretária junto ao quadro negro. A turma silencia, provavelmente é a professora. Um auxiliar entra na sala transportando um projector de imagens enquanto a mulher retira de uma pasta duas gavetas de diapositivos. Agradece ao auxiliar e sorri à turma enquanto este se retira. Monta o estaminé. Percorre a turma com o olhar e solta novo sorriso. Diz: “Boa tarde a todos, o meu nome é Teresa Novais, e serei a vossa professora nas aulas práticas desta disciplina.” Pede aos alunos do fundo da sala para desligar as luzes e inicia a sua apresentação. Durante cerca de uma hora toda a turma permanece em silêncio. Não há qualquer tipo de murmúrio com o vizinho do lado. Percorro a turma com o olhar e os meus colegas escutam aquela mulher com o mesmo entusiasmo e mesmo fascínio com que eu a escuto. Passam imagens de várias obras de arquitectura (a Casa de Ofir do Távora é uma das que me lembro), desenhos académicos da Alison e do Peter Smithson, uma fotografia interessantíssima da Faculdade de Arquitectura de São Paulo, em que uma multidão de alunos discute e troca argumentos sobre vários trabalhos expostos debaixo do grande átrio desenhado pelo Vilanova Artigas, passa uma imagem do estúdio da Lina Bo mais um desenho hiper rigoroso do projecto de execução do museu do Siza na Galiza, um trecho do manifesto do Gropius, fala-se de multidisciplinaridade, da importância da arte e da história, fala-se de pesquisa, de descoberta, fala-se de paixão, de entrega, explica-se e ilustra-se que não há apenas uma forma ou um caminho, potenciam-se as possibilidades desde que perseguidas de forma honesta, fala-se de rigor, de discussão, de não esconder os trabalhos dos colegas, fala-se de abertura e de coerência. A aula termina com um grito, um pedido, uma espécie de prece escrita em letras garrafais sobre um plástico que parece abafar uma mulher: OUVE-ME, diz a prece… OUVE-ME. Eu penso que ouvi e que ainda não me esqueci das palavras. Obrigado.

Nota: Esse grito, essa imagem extremamente poderosa foi retirada do filme ‘Ouve-me’ de 1979, onde Helena Almeida executa uma performance de cerca de quatro minutos. Não consegui encontrar na web uma reprodução da obra com o tamanho que pretendia, daí ter optado por ilustrar o post com a série ‘Tela Habitada’. A melhor reprodução que consegui encontrar de ‘Ouve-me’ pode ser vista aqui.

4 comentários:

AM disse...

olá vítor
e calculo que tenhas visto o documentário sobre a helena almeida que passou este fim-de-semana na rtp

Vítor Leal Barros disse...

por acaso não vi...estive fora o fim-de-semana e não vi televisão... não deixa de ser uma coincidência interessante, andava para publicar este post há imenso tempo mas nunca conseguia encontrar na net a imagem que pretendia. acabei finalmente por optar pela 'tela habitada' para acompanhar o texto, e tudo isto acontece depois do documentário da HA na dois

C.S.A. disse...

pois eu nunca fui pupilo dela, Vítor, e é como se fora. há gente que tem esse condão. tem de haver, para contrabalançar tanta outra reles como as rolhas de plástico que agora aparecem para aí a substituir a cortiça. ora um bom vinho é um bom vinho e precisa de uma boa rolha - de cortiça (entenderás o sentido todo figurado da cortiça).
abraço e beijos for Lu(zinha).

etanol disse...

Grande aula de apresentação terminando com "Ouve-me", é necesário ouvir e ver para aprender.
Maria João