terça-feira, outubro 17, 2006

sublinhado (44)

A sentimentalidade sofreu o mesmo destino que a morte; torna-se incomodo exibir os próprios afectos, declarar ardentemente o fogo íntimo, chorar, manifestar com demasiada ênfase os impulsos internos. Tal como a morte, a sentimentalidade tornou-se embaraçosa; é preciso ser-se digno em matéria de afecto, quer dizer: o «sentimento interdito» é um efeito do processo de personalização, que trabalha aqui na irradicação dos signos rituais e ostentatórios do sentimento. O sentimento deve chegar ao seu estádio personalizado, eliminando os sintagmas inteiriçados, a teatralidade melodramática, o kitsch convencional. O pudor sentimental é exigido por um princípio de economia e de sobriedade, constitutivo do processo de personalização. Deste modo, é menos a fuga perante o sentimento que caracteriza o nosso tempo do que a fuga perante os signos da sentimentalidade. (pág.73)
A Era do Vazio (Relógio d'Água), Gilles Lipovetsky

1 comentário:

luciana MELO disse...

ai ai, olha aí de novo, Vítor: a tal da s i n c r o n i c i d a d e.
Publiquei o confessionário antes de ler o sublinhado, mas que diferença isso faria?
:o)