quarta-feira, outubro 18, 2006

penumbra

tu sabes que procuro a sombra
no trilho dos dias que correm para o mar.

esbracejando como um corpo infantil
que aprende a equilibrar-se ao som das ondas.

ou como uma borboleta em pleno outubro,
perdida na estação que nos orfanou.

estranhaste a palavra? eu sei…
mas o verbo existe e esculpiu-nos no peito

um marco de pedra que nos cospe o tempo.
diz que um ano amor, diz que orfanámos há um ano.

a vida remeteu-nos para
um endereço falso, impossível.

um lugar instável e impróprio. indigno.
um lugar covarde como a penumbra.

o espaço que eu proibiria se fosse deus.
um lugar morno, terrivelmente morno

sem sal nem suor, sem lágrimas.
nem deus desejou tanto mal a eva.

deu-lhe o mundo, amor, deu-lhe filhos
depositou-lhe o desejo nas mãos.

onde nos encarceraram amor?
fomos eternamente endereçados

à fronteira cruel que divide a sombra
do vazio preenchido pelo branco da luz.

como pude eu desejar viver nessa casa?
diz-me amor, como pude querê-lo?

estaria invariavelmente cego, distraído,
um idiota brincando como sempre, tentando

guardar as palavras onde elas não cabem
e os ódios debaixo do coração, sim,

porque nunca o romperam amor.
tu nunca o permitiste, lembras-te?

e há um ano que vagamos nesta prisão
como as sementes perdidas de caim

atiradas sobre os despojos de deus
nos lugares onde a espera é eterna.

ajudas-me a procurar a sombra?
promete-o, faz-me uma jura de sangue

e depois rega-me dele, enche-me com o sabor
da carne porque não aguento esta palidez,

esfrega-te violentamente em mim, encharca-me
para que saiba que mesmo órfão

estarei pintado de encarnado forte.
lava-me com o teu sangue, festeja,

para que a morada se desfaça e a ruína apague
a crueldade de habitar entre a luz e a sombra.

lava-te também em mim se o desejares.
pinta-te com o meu sangue, chafurda.

juntos negaremos o limite desta fronteira amor.
e um dia, faremos como a criança e a borboleta:

procuraremos a sombra junto do mar,
órfãos, reequilibrando-nos ao som das ondas.

traremos os braços marcados pelas veias
rasgadas do nosso pacto. cansados e exaustos.

e uma réstia de força para enterrar na areia
o cadáver moribundo da estação que nos orfanou.

porque haveremos de matá-la amor...escreve:
um dia arrastaremos o outono pelos cabelos.
*

3 comentários:

CeciLia disse...

Que forte, este poema, Vitor! Se soubesse eu esmurrar muros e inverter vontades, talvez tivesse-o escrito, se soubesse das competências as verdades. Parabéns, coisa boa te ler assim, pleno.

Beijo na alma

Lu disse...

já arrastas o outono pelos cabelos...
Vítor, um dia conseguiremos apagar toda a tatuagem que nos marca a pele... retornaremos lisos, porque na estação que eu acredito não há espaço para covardias e desafetos...
Ama-se uma só vez dentre todas as vezes que amamos. Custa-me acreditar que há desperdício em amar.

etanol disse...

a penumbra que é como o ruído do vento a soprar nas folhas caídas no chão, o Outono é triste.
Maria João